Descrição de chapéu Perspectivas

Fim das novelas é anunciado há 40 anos, mas gênero segue de pé

Audiência é parâmetro importante, mas não o único nem o melhor, escreve pesquisador

Mauro Alencar

Posso tomar emprestado o título de um livro fundamental para a compreensão da telenovela —“Melodrama, O Gênero e sua Permanência”, de Ivete Huppes— para relatar que, em 2016, tive o prazer de participar do ciclo de conferências promovido pela Academia Brasileira de Letras em torno do tema e pude testemunhar a renovação constante do gênero. 

Há, porém, aqueles que apontam na telenovela um período de crise, apoiando seus argumentos em números de audiência. Talvez as premissas sobre a “inadequação cultural” propostas por Montaigne em torno de 1580 ainda sirvam de norte e cautela para crenças demasiadamente pessoais... 

Deve-se ponderar que a forma como os detratores da telenovela usam o argumento da queda da audiência se baseia em diversos motivos, menos na audiência em si. Afinal, ela é um parâmetro importante para que se compreenda a recepção da telenovela brasileira, mas não o único nem o melhor.

O que se divulga como “audiência média” de um capítulo de telenovela é apenas um dos muitos índices que os institutos de pesquisa aferem, ou seja, sua leitura isolada como dado absoluto pode causar equívocos de interpretação. 

Entre as diversas informações levantadas, há a audiência qualificada, que mede a assistência de público específico. Esses dados são fundamentais para entender com quem as produções se comunicam. Novelas infantis do SBT, produções bíblicas da Record e tramas das 18h da Globo se dirigem a públicos específicos —crianças, religiosos e o feminino da terceira idade. Índices altos nesses grupos são muito mais significativos do que a média de audiência geral do capítulo.

Por isso, destaco que a repercussão de uma telenovela vai muito além da média geral da audiência. Atualmente, as reações coletadas pelo Twitter e outras redes sociais são consideradas para a compreensão das respostas do público. Trata-se, afinal, de uma ferramenta moderna para entender os caminhos que as produções trilham. 

Não raro, as novelas brasileiras conquistam relevantes posições nos trending topics mundiais. Isso demonstra a força que o melodrama atinge ainda hoje. Seja em forma de tango ou telenovela, de cinema mexicano ou reportagem policial, o melodrama explora um profundo filão de nosso imaginário coletivo (como já afirmou Jesús Martín-Barbero em “Dos Meios às Mediações”).

Daí a telenovela se tornar assunto diário a alimentar revistas, jornais, internet... Ou seja, não é apenas a audiência numérica que conta, mas sim —o que talvez seja mais importante ou significativo para a economia do entretenimento— o que se fala de uma telenovela. É curioso notar que programas de entretenimento, variedades e fofoca de todas as emissoras caem sempre em cima do contingente artístico da TV Globo.

Por outro lado, os mesmos que acusam a telenovela de atravessar uma crise baseados em números de audiência apontam a Netflix como uma revolução no setor audiovisual. As bases, porém, das séries produzidas ou veiculadas pela Netflix são as mesmas da tradicional telenovela: o melodrama e o folhetim francês. 

É importante ressaltar que, apesar de muito difundidas como grandes sucessos, não temos dados concretos sobre as produções da Netflix, além dos que a própria empresa divulga esporadicamente. Desta forma, inviabiliza-se afirmar que o público das telenovelas estaria migrando para serviços de streaming, tal como alguns sustentam com ênfase.

O que tenho visto em muitas viagens pelo mundo prova que a telenovela brasileira se internacionalizou com grande sucesso, influenciando o mercado de outros países a produzir suas próprias tramas ou a consumir avidamente nossas histórias. Na Ásia, temos o Telenovela Channel, que desde 2009, após o sucesso de “Paraíso Tropical” (2007) por lá, exibe para o público sul-coreano nossas produções com grande êxito.

wagner e camila no sofá
Wagner Moura (Olavo) e Camila Pitanga (Bebel) em cena de “Paraíso Tropical” (2007)  - João Miguel Jr./TV Globo

No âmbito da academia, a telenovela também tem despertado grande interesse. Há anos, o Congresso Mundial da Indústria da Telenovela e Ficção, sediado em Miami (EUA), jogou luz sobre o gênero. Desde então, universidades cubanas, portuguesas, chinesas, japonesas, panamenhas, sul-coreanas e de toda a América Latina desenvolvem estudos e congressos dedicados o tema.

Isso sem contar os debates já realizados na Feira do Livro de Frankfurt, o mais importante evento do mercado editorial. Assim como o futebol e o café, a telenovela brasileira se tornou um produto de exportação de grande sucesso.

Por último, o debate sobre a pretensa crise das telenovelas é antigo. Há pelo menos 40 anos jornalistas e intelectuais anunciam o fim do gênero, apontando desgastes nas tramas, quedas de audiência e outros fatores. O que vemos, no entanto, é a telenovela consolidada, com um forte cânone, enraizada no imaginário coletivo do brasileiro. 

Há espaço para todos os gêneros de teleficção, e a novela vai se adequando aos novos tempos de consumo. Pode ser vista em diversas plataformas, como o Globoplay. Testemunho de nosso tempo, a telenovela é o patrimônio da América Latina para o mundo. 


Mauro Alencar é pesquisador e doutor em comunicação pela USP. Faz pós-doutorado no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa.

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