Descrição de chapéu Independência, 200

Como Leopoldina passou de princesa hesitante a imperatriz com papel ativo na Independência

Admirada por mulheres brasileiras, Leopoldina foi fundamental na separação de Portugal

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Sylvia Colombo

Correspondente em Buenos Aires, foi editora da Ilustrada e participou do programa Knight-Wallace da Universidade de Michigan.

[RESUMO] Herdeira de uma das principais dinastias europeias no século 19, Maria Leopoldina de Habsburgo era uma garota assustada e hesitante de 20 anos, refratária às mudanças políticas em voga, quando chegou ao Rio para se juntar ao marido, dom Pedro 1º. Nos anos seguintes, tornou-se uma imperatriz decidida e reverenciada pela população, que decretou formalmente a separação de Brasil e Portugal e ajudou a consolidar a monarquia brasileira.

Maria Leopoldina de Habsburgo, arquiduquesa do Império Austríaco, desembarcou no Rio de Janeiro aos 20 anos cheia de ansiedades e hesitações próprias da idade, associadas à responsabilidade do dever que vinha cumprir no Novo Mundo. Afinal, naquela época, ser uma princesa era muito mais do que ir a eventos, luzir e seduzir, imagem que foi sendo construída pela indústria cultural ao longo dos tempos.

O papel de Leopoldina, como herdeira de uma das mais importantes e refinadas casas monárquicas europeias, era atuar como peça-chave do complicado xadrez político que se jogava naquele conturbado século 19.

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‘Sessão do Conselho de Estado’ (1922), de Georgina de Albuquerque, retrata a assinatura do decreto de Independência do Brasil pela imperatriz Leopoldina  - Reprodução

"Temos de pensar em Leopoldina com uma chave de princesa. Ela pertence a uma das dinastias mais significativas da Europa nesse momento e é educada a preservar valores das monarquias mais tradicionais, que começavam a enfrentar o desafio do surgimento das monarquias constitucionais, de ideias políticas mais novas, às quais, a princípio, ela era refratária", afirma a historiadora Andrea Slemian, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

A primeira carta que Leopoldina enviou ao pai, o imperador Francisco 1º, da Áustria, firmada pouco depois de sua chegada em terras brasileiras, em 1817, revela que ela não foi a primeira e nem seria a última personagem histórica a se derreter diante da maravilhosa paisagem do Rio de Janeiro. "Nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro", escreveu.

Os nove anos que passou nessas terras, se não foram os mais felizes de sua curta vida, podem ser considerados os mais intensos. Com dom Pedro, que ainda era príncipe quando se casaram, teria sete filhos. Três deles, porém, morreram ainda na infância.

Leopoldina foi imperatriz consorte, recebeu o carinho do povo, era admirada pelas mulheres brasileiras por sua força e valentia, participou ativamente de decisões políticas que desembocaram na Independência do Brasil e manteve ativo seu interesse intelectual pela botânica e pela mineralogia, inclusive enviando amostras raras a serem estudadas na Europa.

A necessidade de parir herdeiros também era parte de seus deveres políticos como princesa e foi algo que pesou muito sobre o corpo frágil de Leopoldina. A jovem passou praticamente todo o tempo em que esteve no país grávida ou se recuperando de um processo de gestação. Sua morte prematura ocorreu por conta de uma septicemia decorrente de um aborto espontâneo.

Uma das referências mais comuns que se têm usualmente de Leopoldina era que ela sofria com a célebre infidelidade de seu marido. Muitas de suas cartas mencionam a tristeza que isso causava. Também é certo, contudo, que havia uma relação de amizade que se fortaleceu nos meses que antecederam a Independência, assim como dom Pedro tinha admiração por seu refinamento, o fato de que sabia idiomas e que aportava ideias e reflexões adquiridas em sua origem, tão diferente da dele.

"Havia o que em linguagem empresarial chamaríamos de sinergia. A força e a imagem do casal foram essenciais na construção do que se considerava uma necessária regeneração do Brasil aos olhos do público", diz o historiador Jean Marcel Carvalho França, da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho).

Além disso, convém analisar o comportamento de dom Pedro à luz do contexto, e não de modo anacrônico. Os casamentos reais do Antigo Regime, pelo seu caráter de pacto político, significavam também níveis de convivência diferentes dos dias de hoje, o que propiciava que os monarcas tivessem amantes. Leopoldina também havia sido preparada para lidar com esse tipo de situação.

"Não se trata de relativizar nem minimizar o sofrimento que Leopoldina sentiu como mulher pelas traições de dom Pedro, mas é preciso entender que ela era uma princesa, educada para levar seu papel, seu dever real de preservação de seu nome e da monarquia muito a sério. Em jogo também estava a preservação do legado monárquico que seus filhos teriam. Ela tinha uma noção bastante forte disso e é algo que a norteia. Esses valores eram muito presentes nela, até mesmo mais do que em dom Pedro, que tinha uma formação diferente e um comportamento mais impulsivo", diz Slemian.

A princípio, o casal se viu bastante hesitante ante as imposições das Cortes de Lisboa depois da Revolução do Porto (1820), que visavam diminuir o status do Brasil. Ambos quiseram em mais de um momento voltar à Europa.

Depois da partida de dom João 6º, deixando Pedro como regente, seguiu-se um período de incertezas e pressões até que ambos decidiram ficar, em um processo que depois levaria à Independência do Brasil.

"Dom Pedro mostrou-se mais receptivo à ideia de uma modernização da monarquia, como propunham as Cortes de Lisboa, e à ideia de implementação de um regime constitucionalista. Leopoldina, no começo, não aceitou isso. Ela temia uma instabilidade revolucionária. Eram coisas que iam contra os ideais nos quais ela se formou. É apenas com o tempo que ela vai amadurecendo a ideia de que, para ela e sua família, talvez fosse melhor aceitar a mudança dos tempos para manter suas nobres posições", afirma Slemian.

Sua rica correspondência com parentes e amigas na Europa vai mostrando essa transformação de Leopoldina, no plano político e também no pessoal. Logo depois do deslumbramento com as belezas naturais do Rio, por exemplo, a princesa logo se mostra decepcionada pela falta de educação e de refinamento da corte brasileira.

Reclama da falta de saraus, de intercâmbios culturais, do isolamento em que vivia na Quinta da Boa Vista, longe do centro do Rio de Janeiro. Algo que deveria de fato chatear muito uma moça que havia conhecido pessoalmente Goethe, sido companheira no coro da igreja de Franz Schubert e amiga de infância do pintor Thomas Ender.

Embora tivesse chegado ao Rio com uma numerosa comitiva de cientistas, biólogos, músicos, médicos, ela reclamava que aos poucos eles foram se cansando e deixando o Brasil, que consideravam isolado, atrasado e, sobretudo, demasiado quente.

Obviamente, tanta mudança se fazia notar em sua aparência. Rose Freycinet, uma viajante francesa que participou de uma expedição que passou pelo Rio em 1817, fez as seguintes observações sobre Leopoldina: "As maneiras da princesa real, a meu ver, em nada lembram a postura nobre e cerimoniosa que se cultiva na corte da Áustria; aqui, ao que parece, a princesa é descuidada tanto com seus trajes quanto com sua aparência. Para a festa, todos vieram em seda e em tule. A pobre austríaca estava vestida com uma roupa de montaria cinza, de um tecido ordinário, e com uma blusa plissada; seus cabelos estavam em desalinho e presos com um pente de tartaruga. A sua fisionomia, no entanto, não é desagradável e estou certa de que, devidamente trajada, a princesa ficaria bem".

As dificuldades e penúrias que sofreu pessoalmente e afetivamente em sua adaptação, porém, não tiram de Leopoldina seus méritos e seu importante papel no processo que foi a Independência do Brasil.

Leopoldina, apesar de ser, a princípio, contra os ventos da modernidade que sopravam da Europa, concluiu que, se as ordens das Cortes de Lisboa se cumprissem, o Brasil poderia se fragmentar e virar o que a realeza considerava um exemplo caótico: a fragmentação da América hispânica com a independência de distintos países e a proclamação de repúblicas.

Quando Pedro viajou a São Paulo, em agosto de 1822, para conter um processo de insurreição, nomeou Leopoldina como regente. A princesa recebeu, então, a notícia de que Portugal imporia sanções econômicas ao Brasil pela desobediência de Pedro, que se recusava a voltar para a metrópole.

Junto a José Bonifácio, Leopoldina reuniu o Conselho de Estado no dia 2 de setembro e assinou o decreto em que se declara o Brasil separado de Portugal. O próximo passo foi enviar uma carta a Pedro estimulando-o a proclamar a Independência. A mensagem chegou ao príncipe quando ele se aproximava de São Paulo. Ocorreu, então, o conhecido e simbólico grito do Ipiranga —a decisão, vale ressaltar, já havia sido tomada.

​Da garota assustada que pediu várias vezes ao pai, por carta, que a levasse de volta à Europa, à decidida imperatriz que passou a ser amada pelos brasileiros, Leopoldina percorreu um caminho guiado apenas pela sua habilidade de se adaptar a uma realidade que mudava demasiado rápido.

"A Independência teve uma imensa adesão popular. As pessoas torceram por isso, admiravam o casal e queriam que Pedro e Leopoldina assumissem. Havia um senso comum de que a impetuosidade de Pedro e a cultura e o refinamento de Leopoldina poderiam regenerar o Brasil", diz Carvalho França.

​ "A Independência foi um movimento muito mais vivo do que a República. A República foi uma rebelião de gabinete. Da Independência, o povo participou de verdade. A figura da Leopoldina contribuiu muito para essa popularidade da causa", completa.

Para Mary Del Priore, historiadora e autora de vários títulos sobre a família real brasileira, essa situação é bem mostrada pela cobertura jornalística que houve dos acontecimentos. "A cobertura das aparições públicas de Leopoldina era muito intensa. Sua chegada, o casamento, ela com os integrantes da missão científica austríaca eram assuntos muito tratados nos jornais da época", afirma.

"Havia muita torcida e sofrimento popular por seus períodos de gravidez, seus partos, suas perdas. Isso foi criando para o brasileiro comum a ideia de uma mulher corajosa e valente. Havia festas nas ruas no dia de seu aniversário. Do mesmo modo, assistiu-se com grande agonia ao definhamento dela a partir de 1826, quando acabou morrendo."

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