Descrição de chapéu Governo Trump Donald Trump

Veto de Trump a fusão pode levar a retaliação contra EUA

Presidente bloqueou compra da Qualcomm pela Broadcom por US$ 142 bi

Estande da Qualcomm em feira de tecnologia em Barcelona - Yves Herman-27.fev.2018/Reuters

Donald Trump sempre se descreveu como um grande negociador. Em "A Arte do Negócio", afirmou que "meus objetivos sempre são ambiciosos" e que ele sempre continua pressionando "para conseguir o que quero".

Isso torna ainda mais notável sua decisão, anunciada na segunda-feira (12), de bloquear uma aquisição de US$ 142 bilhões (R$ 463 bilhões), que seria a maior da história no mundo da tecnologia. Um presidente dos EUA jamais proibira uma transação invocando motivos de segurança nacional antes de duas empresas fecharem acordo para uma fusão, o que destaca a disposição de Trump de testar os limites de seus poderes constitucionais, a fim de garantir a primazia americana no planeta.

Profissionais de fusões e aquisições alertaram para o fato de que a decisão de proibir a Broadcom de realizar uma tomada hostil do controle acionário da rival, a fabricante de chips Qualcomm --anunciada dias depois de Trump invocar uma norma da era da Guerra Fria para justificar a imposição de tarifas sobre o aço e o alumínio-- causaria susto nas empresas americanas, alimentando temores de que outros países tomem medidas retaliatórias contra companhias dos EUA.

"O fato de o presidente ter agido preventivamente antes de a transação ter sido realizada é perturbador e incompatível com nosso conceito de processo legal equitativo", diz Frank Aquila, um dos principais advogados na área de fusões e aquisições do escritório Sullivan & Cromwell.

"Isso tornará mais difícil para as empresas americanas protestar quando se veem bloqueadas por motivos políticos em outros países. Essa decisão não é um bom sinal para a saúde das atividades transnacionais de fusão e aquisição, em diversos setores."

Especialistas em segurança nacional questionam se o presidente tem autoridade para bloquear a transação, já que a Broadcom, registrada em Cingapura, está transferindo sua base jurídica para os Estados Unidos.

MEDO DA CHINA

A ação de Trump surgiu dias depois de o Cfius (Comitê sobre Investimento Estrangeiro nos EUA, na siga em inglês), órgão que representa diversas agências do governo e fiscaliza aquisições transnacionais, lançar alerta sobre a tentativa hostil de tomada de controle por parte da Broadcom, afirmando que, se a fusão fosse realizada, a China poderia ultrapassar os EUA na tecnologia 5G.

Os possíveis cortes que a Broadcom poderia realizar no investimento da Qualcomm em tecnologia 5G seriam potenciais riscos de segurança nacional para os EUA, pois dariam a liderança na corrida para desenvolver a próxima geração de tecnologia de comunicação móvel ao grupo chinês Huawei, disse Patrick Moorhead, da consultoria Moor Insights & Strategy.

"A Qualcomm é uma das duas empresas que investem em longo prazo na próxima geração da tecnologia wireless. Huawei e Qualcomm --e só", disse. "E isso seria perdido porque não é dessa maneira que a Broadcom trabalha."

A Broadcom cresce por meio de aquisições e é conhecida por economizar na pesquisa básica, em favor de tecnologias que possam ser comercializadas em dois ou três anos, e não dentro de sete a dez anos, acrescentou.

Mesmo assim, Moorhead se declarou "muito surpreso" com o fato de a transação ter sido bloqueada tão rápido.

Steve Mnuchin, secretário do Tesouro dos EUA e presidente do Cfius, tentou minimizar a ideia de que as recentes ações presidenciais representavam um endurecimento da atitude do país quanto ao investimento estrangeiro. Ele apontou que a missão do comitê "tinha foco estreito", o exame das implicações para a segurança nacional de transações envolvendo investidores estrangeiros que busquem o controle de empresas norte-americanas.

ERRO DE CÁLCULO

Especialistas consideram que a atitude de Trump expõe erro de cálculo dispendioso da Broadcom e de seus consultores, e não uma tentativa do presidente norte-americano de encobrir uma medida protecionista como questão de segurança nacional.

Se a Broadcom tivesse esperado pela conclusão de sua transferência de volta aos EUA, é improvável que a tomada do controle da Qualcomm fosse submetida ao escrutínio do Cfius.

A Broadcom afirmou "discordar de que sua proposta de aquisição da Qualcomm teria implicações para a segurança nacional.

Para os executivos da Qualcomm, a intervenção de Trump representa uma vitória depois de cinco meses de oposição à oferta da Broadcom. A fabricante americana de chips classificava a oferta de US$ 142 bilhões como baixa demais e afirmava que ela enfrentaria exame severo pelas atividades antitruste.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Financial Times
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