Descrição de chapéu Consumo Consciente

Mercado de venda e troca de produtos usados e serviços evolui no Brasil

Sites de compra e venda de usados e mercados de trocas virtuais estimulam o consumo sustentável

Rosane Queiroz
São Paulo

Os brasileiros estão negociando cada vez mais produtos seminovos e usados. O crescimento de sites de compra e venda desse tipo de produto mostra uma evolução constante no número de pessoas que está desapegando de coisas que não usa mais, comprando de forma mais consciente e estendendo a vida útil de objetos.

Na OLX, uma das maiores plataformas de compra e venda de usados no país, a quantidade de pessoas que negociou seus itens seminovos ou usados nos últimos três anos aumentou 392% (70% ao ano).

“Os brasileiros já estavam acostumados a comercializar carros e imóveis pela internet, porém, vemos agora esse movimento aumentando em outras categorias, como itens para casa, moda e beleza e eletrônicos”, diz Andries Oudshoorn, diretor-executivo da OLX no Brasil.

O potencial de negócios para essas plataformas é imenso. Pesquisa do Ibope encomendada pela OLX revela que cerca de 70 milhões de brasileiros possuem itens sem uso em casa, e 84% deles têm interesse em vender os objetos. “A renda extra obtida com as vendas desses produtos é utilizada para realizar objetivos ou fazer novas aquisições”, diz o executivo. É comum aceitar troca por outros itens como parte do pagamento, facilitando ainda mais o negócio.

Os mercados virtuais exclusivos de troca, ou escambo –quando a negociação não envolve dinheiro– também vêm ganhando espaço no país na última década. “Trocar é ter mil possibilidades em nuvem”, diz a empresária Carol Guedes, criadora do Quintal de Trocas, plataforma de troca de brinquedos, jogos, livros e outros itens ligados ao universo infantil, com 29 mil usuários em sua página em rede social.

A ideia surgiu em 2013, no Dia das Crianças, quando Carol quis oferecer a sua filha, Maria, uma experiência diferente, em vez de mais um brinquedo. Ela pesquisou e descobriu uma feira de trocas promovida pelo Instituto Alana.

Maria tinha um barquinho de madeira encostado no armário. Na feira, trocou o barco por um espelhinho e ficou encantada. “O mais bonito da troca é que não se leva em conta o valor. Você pode trocar um pião por um balde de Lego. Isso gera inclusão, aumenta a vida útil dos produtos, é uma nova maneira de pensar o consumo”, diz ela.

(in)sustentabilidade

Vender e trocar, contudo, são verbos distintos no mercado de usados no Brasil. Enquanto os sites de venda crescem, feiras virtuais e startups de trocas de produtos ainda buscam um caminho de sobrevivência.

“O mercado de trocas é uma ideia sustentável que não se sustenta, porque em muitos casos demanda custos e o consumidor ainda não assimilou o real valor da troca. A questão é: como fazer as pessoas entenderem que, com uma mensalidade, por exemplo, podem usar a plataforma e trocar o quanto quiserem?”, diz Carol Guedes.

O Quintal de Trocas sobrevive de feiras patrocinadas em escolas e empresas, além projetos que contam com a Lei Rouanet e palestras sobre economia compartilhada. O mercado de trocas nas escolas, segundo Carol, foi o que visivelmente cresceu nos cinco anos da comunidade.

“São quatro vezes mais escolas que nos procuram para organizar feiras de trocas de livros e uniformes”, diz a empresária, que se dedica a palestras sobre consumo consciente. “As plataformas não fazem milagre, é preciso haver uma nova conscientização”, diz ela.

Tinder do desapego

“Não precisamos de mais coisas, mas de um novo olhar para as mesmas coisas”, diz a microempresária Jessica Behrens. Com a ideia de viver com o mínimo, desapegando de um objeto por dia, em 2015 ela criou o aplicativo Tradr, que foi chamado de “Tinder do desapego” e chegou a ter 100 mil usuários. Mas naufragou economicamente.

Jessica vê dois desafios nesse mercado: “Primeiro, conseguir monetizar a ideia, porque a ferramenta tem custos e dá trabalho. Segundo, é conscientizar as pessoas do valor da troca, porque é preciso negociar, sair de casa para trocar ou postar o produto no correio. É preciso sair da zona de conforto e dizer: ‘prefiro trocar porque não quero consumir mais'. É uma atitude política”, diz ela.

Algumas páginas de trocas em redes sociais, como a Troka Troka, que conta 19 mil usuários, acabam abrindo a possibilidade de venda. “Foi uma forma de manter o propósito de aumentar a vida útil dos produtos em geral”, diz Doris Francino, criadora da página. Há sete anos, ela administra o Troka Troka com mais dois voluntários. Já trocou bolsa por vestido e perfume importado por aparelho de som. “Trocar é um gesto valioso para nós mesmos e para o planeta”, diz Doris.

Escambo de talentos

Com a crise financeira, há quem busque também o escambo de serviços. Foi o que aconteceu com a jornalista Livia Deodato, no verão de 2017, ao voltar de uma viagem a Bahia. Sem dinheiro para manicure, ela pensou que poderia oferecer textos em troca do serviço em seu perfil em rede social. Assim nasceu o Escambo de Talentos. “O grupo bombou, a mão ficou por fazer”, lembra ela.

Em pouco mais de um mês, a comunidade chegou a mais de 5.000 participantes e hoje conta com cerca de 20 mil. “Todo mundo tem um talento. Mesmo na crise, estamos cheios de bagagens e experiências. O escambo possibilita essa troca, além de resgatar valores como solidariedade em uma cidade em que mal falamos com nossos vizinhos”, diz Livia. É assim que se troca aula de tricô por faxina, designer gráfico por dentista etc. “O valor do serviço nem sempre é equivalente, o que conta é o escambo.”

O sucesso do grupo foi tamanho que recentemente Livia se casou e a festa foi 50% feita de escambo: o bolo, os docinhos e parte do cachê da banda. “A essência da troca é abrir um mundo de possibilidades, isso não tem preço”, diz ela.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.