A fim de frear dólar, Argentina eleva juro pela 2ª vez em uma semana, para 33,25%

Banco central gastou US$ 5 bi nos últimos dias para defender peso, mas não obteve sucesso

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, na Casa Rosada
O presidente da Argentina, Mauricio Macri, na Casa Rosada - Gustavo Garello - 26.abr.18/Associated Press
Benedict Mander
Financial Times

A Argentina elevou suas taxas de juros pela segunda vez em uma semana, depois que intervenções de seu banco central, em valor de mais de US$ 5 bilhões, fracassaram em conter uma profunda queda do peso, em um lembrete preocupante quanto à volatilidade financeira argentina.

O banco central argentino apanhou os mercados de surpresa uma vez mais nesta quinta-feira (3) ao elevar as taxas de juros em três pontos percentuais, para 33,25%, apenas seis dias depois de tê-las elevado de 27,25% para 30,25%.

A alta no dólar americano e a perspectiva de aumentos de juros por parte do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) afetaram adversamente as moedas dos países de mercado emergente em todo o mundo. O índice de moedas emergentes do banco JPMorgan caiu 6% do final de fevereiro para cá.

Mas poucas moedas foram tão prejudicadas quanto o peso argentino, que perdeu um quarto de seu valor nos últimos 12 meses. A moeda registrou nova queda nesta quinta-feira e rompeu a barreira da cotação de 22 pesos por dólar, depois de abrir as operações do dia caindo mais de 3%.

O título de dívida de cem anos que a Argentina lançou com grande alarde em junho de 2017 caiu ainda mais, sendo negociado a 86,9% de seu valor de face em dólares.

O governo do presidente Mauricio Macri vendeu mais de US$ 100 bilhões em títulos nos mercados internacionais desde que assumiu a Presidência, dois anos e meio atrás.

"O banco central está no controle da situação", disse Marcos Peña, chefe de gabinete do governo argentino.

"Situações de volatilidade [como esta] não deveriam nos assustar; precisam se tornar parte de nosso aprendizado de como viver com uma taxa de câmbio livre."

O dólar mais forte aumentará o custo de serviço da dívida externa argentina. A dívida total do país subiu acentuadamente desde a posse de Macri, já que ele recorreu a esse método para financiar seu programa econômico "gradualista", cujo objetivo é reduzir o imenso déficit fiscal da Argentina.

Ainda que a forte queda inicial do peso na semana passada tenha sido deflagrada pelo desmonte de posições de investimento estrangeiras em instrumentos locais de dívida, antes da entrada em vigor de um novo imposto sobre os ganhos de capital, o problema foi agravado pela inquietação dos poupadores argentinos, que correram a dolarizar suas economias.

"Existe uma paranoia inerente de que a moeda vai escapar ao controle a qualquer momento", disse Walter Stoeppelwerth, diretor de pesquisa do Balanz Capital, um banco de investimento em Buenos Aires, apontando que, 17 anos atrás, o peso estava cotado a US$ 1.

"Os argentinos são mais sensíveis a riscos de câmbio do que qualquer outro país do planeta, exceto talvez a Venezuela."

O nervosismo entre os poupadores argentinos não foi ajudado por um sentimento mais amplo de fadiga com o programa do governo para "normalizar" a economia, depois de herdar um cenário complexo legado pela ex-presidente Cristina Kirchner.

"As pessoas estão cansadas do ajuste e sentem que ele nunca vai acabar", disse o economista Luis Secco, mencionado as altas constantes nas tarifas públicas, parte do esforço do governo para eliminar os subsídios insustentáveis adotados pela administração anterior.

Ele também criticou as autoridades por não esclarecerem os mercados quanto à situação.

"Não há uma gestão de expectativas, o mercado está se sentindo meio órfão. Ninguém sabe ao certo por que o banco central está fazendo o que está fazendo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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