Disputa comercial entre EUA e China derruba Bolsas globais

Americanos e chineses elevam tom em ameaças de guerra comercial e mercados reagem receosos

Danielle Brant
Nova York

O mau humor generalizado nos mercados globais nesta terça-feira (19) mostra que os investidores veem como sério o risco de uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, com potencial reflexo sobre a economia mundial.

Na noite de segunda (18), o presidente americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas de 10% sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses. Foi uma resposta à decisão da China de elevar tarifas sobre US$ 50 bilhões em mercadorias americanas.

Donald Trump deixa cair seu discurso durante evento de 75 anos da Federação Nacional das Empresas Independentes, em Washington  - Jonathan Ernst/Reuters

A escalada no tom das ameaças penalizou os principais mercados globais nesta terça. 
Os índices americanos fecharam em baixa: o Dow Jones caiu 1,15%; o S&P 500 se desvalorizou 0,4%; e o índice da Nasdaq perdeu 0,28%. 

Na Ásia e na Europa, os indicadores também fecharam no vermelho. No Brasil, o índice Ibovespa, depois de cair por quatro sessões seguidas, se recuperou e subiu 2,26%.

A reação nas Bolsas espelha a avaliação de que uma guerra comercial não impactaria somente os dois países, mas teria efeito sobre a economia global, diz Gregory Daco, responsável pela área de macroeconomia americana na Oxford Economics.

“Quando temos tensões entre as duas maiores economias mundiais, vai haver impacto nas demais economias do mundo”, diz. “Há a preocupação de que seja um sinal de que as tensões comerciais vão aumentar globalmente.”

Os dois lados envolvidos parecem pouco dispostos a ceder. Nesta terça, Peter Navarro, assessor de indústria e comércio da Casa Branca, afirmou que as conversas com a China não avançaram.
Segundo ele, o objetivo é proteger “as joias da coroa” da tecnologia americana.

Para Daco, o risco de uma guerra comercial é real. “Se as tarifas forem implementadas, terão impacto negativo tanto na economia chinesa quanto na americana”, diz.

Para ele, a China sairia mais prejudicada caso os EUA decidam concretizar a ameaça. “Uma tarifa sendo aplicada sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses provavelmente vai ter um efeito negativo maior sobre a economia chinesa.”

Em relatório, os analistas do banco JPMorgan também apontam o risco de uma guerra muito mais elevado. “Particularmente, o risco de falha de julgamento dos dois lados parece alto.”

Para eles, a China também sairia perdendo. Além do impacto no mercado de trabalho, investimento e consumo, a imposição de uma tarifa de 25% sobre as exportações chinesas aos EUA causaria uma desaceleração de 0,5 ponto percentual no crescimento do PIB chinês.

No relatório, os analistas não descartam que a escalada seja uma estratégia de barganha. “Em teoria, se EUA e China alcançarem um acordo antes de 6 de julho, as tarifas poderiam ser canceladas no último minuto.”

Eles lembram que, nos anos 1990, o governo americano recorreu a várias ações do tipo em disputas com a China.

Claudio Irigoyen, responsável pela equipe de estratégia de renda fixa e economia para a América Latina do Bank of America Merrill Lynch, aponta impacto menor para os EUA.

“Os Estados Unidos podem ser menos machucados em termos de crescimento que a Europa e a China, mas vai colocar em xeque a dinâmica da recuperação americana”, afirma. Ele prevê impacto de 0,5 a 1 ponto percentual potencial no PIB americano.

Já Susan Ariel Aaronson, especialista em comércio internacional do Centre for International Governance Innovation, diz acreditar que as declarações bilaterais não vão passar da fase de ameaças.
“Trump deliberadamente tenta machucar a economia americana. Não é uma coisa que uma pessoa normal faria.”

O conflito entre os dois países tem três pilares principais.

O primeiro é um desequilíbrio na balança comercial bilateral, com os EUA acusando a China de adotar “práticas predatórias”.

Também é ancorado em reclamações dos EUA sobre concorrência e política industrial e tecnológica da China.

O terceiro ponto é que as medidas são uma forma de o governo Trump tentar bloquear o crescimento chinês.
 

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