Chinês não vai passar fome porque Trump está de mau humor, diz executivo chinês

Para presidente da câmara de comércio Brasil-China, impacto negativo só vem se guerra comercial durar muito

Taís Hirata
São Paulo

A guerra comercial entre China e Estados Unidos será positiva para o Brasil, afirma Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.

Para ele, o impacto negativo só chegará se a disputa comercial tiver uma longa duração, o que ele diz não acreditar que ocorrerá.

“A guerra comercial não vai durar muito, vai dar muito prejuízo aos fazendeiros que elegeram [o presidente americano, Donald] Trump. Se durar, o mundo todo vai sofrer, todos perdem. Mas por enquanto o impacto para o Brasil é positivo e acredito que será também no longo prazo.”

Segundo ele, os chineses já estão rompendo seus contratos com fornecedores americanos de produtos como soja, suínos, bovinos e aves e buscando parcerias com produtores em países como o Brasil, a Argentina e a Austrália, que vão elevar suas exportações ao país asiático.

“O chinês entendeu que precisa de uma fonte estável de alimentos. O chinês não pode passar fome porque Trump está de mau humor. Já estamos enxergando esse aumento, os chineses já elevaram as compras de outros países. Esse ganho para o fornecedor não será apenas de curto prazo”, afirma.

Estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgado pela Folha mostra que o Brasil poderia aumentar em até US$ 6,4 bilhões (R$ 24,7 bilhões) suas vendas para a China, passando a exportar cerca de 195 produtos que hoje o país compra dos EUA.

Para Tang, o principal gargalo para os investimentos chineses no Brasil atualmente é a logística cara e deficiente.

Por esse motivo, a ferrovias serão o principal foco de investimento chinês no país, ao lado de setores já com forte presença, como energia elétrica e óleo e gás, diz ele.

“É muito simples. Se o governo federal der garantias, o chinês vai vir, se juntar com uma empreiteira brasileira, construir toda a ferrovia e entregar a chave na mão dele. Mas quem garante que esse empréstimo vai ser pago? Não podemos fazer uma ferrovia de bilhões de reais com base em crédito de qualquer governo estadual.”

Além do gargalo logístico, o país também tem uma legislação pouco amigável aos negócios, segundo Tang.

“Para o chinês que veio ao Brasil, o país é uma terra estranha, com uma língua estranha, com legislações estranhíssimas. Sem dúvida, houve frustração [de parte das empresas que vieram].”

O Brasil, portanto, concorrerá com outros países latinos que também poderão suprir as necessidades chinesas, como Argentina, Bolívia e Colômbia, diz ele.

Tang, que já trabalhou no BankBoston e teve contato com o presidenciável Henrique Meirelles (MDB), faz elogios ao ex-ministro da Fazenda, mas diz que prefere não falar sobre os cenários para a eleição deste ano.

Questionado sobre as críticas que o pré-candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, já fez às relações comerciais entre Brasil e China, o presidente da associação afirma que, “quando e se ele ganhar, ele vai ter de mudar de opinião”.

“Vai ter de entender que a China é o maior parceiro do Brasil. Nações não têm amizades, têm interesses nacionais que ditam suas amizades.”

Entre 2015 e 2017, os chineses investiram no Brasil US$ 23,4 bilhões (R$ 88 bilhões), segundo dados da consultoria Dealogic, que não incluem as operações cujos valores não foram revelados.

O forte ritmo de investimento se deve principalmente à crise vivida pelo Brasil, que fez com que as grandes empreiteiras que detinham a maior parte das obras do país tivessem de abrir mão dos projetos.

“Isso deu chance para que as empresas chinesas expandissem em um setor em que até então era quase impossível entrar. A crise fez com que os ativos ficassem mais baratos”, afirma Tang.

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