Açúcar atinge menor valor em 10 anos na bolsa ICE

Cotações do açúcar bruto acumulam queda de quase 35% apenas em 2018

Reuters

Os contratos futuros do açúcar bruto neste ano chegaram a um nível de derretimento que o primeiro vencimento na bolsa nova-iorquina ICE foi negociado, nesta segunda-feira (20) abaixo dos simbólicos US$ 0,10 por libra-peso. Menor valor em uma década.

O contrato para outubro, o mais líquido, ainda se recuperou e fechou o dia levemente acima de US$ 0, 10 por libra-peso, queda de 0,9%. Mais cedo, chegou a tocar US$ 0,09, com pressão do dólar forte no Brasil, que estimula vendas do maior exportador global do adoçante.

O açúcar branco para outubro cedeu 1,2%, para US$ 303,70 por tonelada.

Colheita de cana em Sertãozinho, no interior de São Paulo - Joel Silva/Folhapress

As cotações do açúcar bruto acumulam queda de quase 35% apenas em 2018, resultado da ampla oferta global, em especial por parte da Índia, e da apreciação do dólar ante o real.

Nesta segunda-feira, o dólar encostou nos R$ 3,95, diante de preocupações eleitorais.

"O real está fraco. Há muita oferta, então devemos nos manter em baixa", disse um operador norte-americano.

"O cenário macroeconômico não ajuda, porque o que aconteceu com a Turquia afetou o mercado. As [commodities] softs acabaram pisoteadas. Esse momento é perfeito para formação de pânico", disse o diretor da consultoria especializada Archer Consulting, Arnaldo Luiz Corrêa.

Ele ponderou que, em reais, as cotações ainda estão acima de mínimas recentes.

"A quebra dos US$ 0,10 é só simbólica. A situação em reais por tonelada ainda não chegou ao ponto mais baixo que vimos recentemente", afirmou.

Pelos cálculos da Archer, o açúcar comercializado pelo Brasil está hoje acima de R$ 900 por tonelada, ante uma mínima de R$ 870 observada em abril.

AMPLA OFERTA

A queda do açúcar nesta segunda-feira na ICE "é uma fotografia do momento, onde se têm algumas indefinições importantes, como se a Índia exportará ou não açúcar", afirmou o diretor da consultoria Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho.

A Índia se tornou neste ano o maior produtor mundial de açúcar, superando o Brasil, com algumas previsões apontando produção de até 35 milhões de toneladas.

Carvalho, também presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, ponderou que esse incremento se dá graças aos subsídios oferecidos pelo governo indiano, o que requer uma ação de outros países produtores na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Mesmo assim, ele disse esperar que ao longo do segundo semestre os preços do açúcar se recuperem.

"O mercado ainda não apercebeu que teremos uma morte súbita (de safra de cana). Acredito que haverá falta de demerara físico [variedade de cana-de-açúcar] no segundo semestre, e poderemos ter uma melhora de preço", disse, acrescentando que as usinas do Brasil já estão no limite de produção de etanol, o qual tem dado melhores retornos.

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