Alvo de críticas, exportação de gado vivo envolve operação milionária

Transporte de 5.400 animais da fazenda de SP até o porto envolve quase cem caminhões

Marcelo Toledo
São Sebastião (SP)

"Assassino, assassino." Assim foi chamado o pecuarista Diogo Castilho na Assembleia Legislativa paulista durante discussão de projeto para proibir a exportação de gado vivo, em junho.

Um dos maiores exportadores do estado no ano, com quatro embarques, ele enviou entre segunda (10) e terça-feira (11) 5.400 cabeças para o porto de São Sebastião no litoral paulista, operação acompanhada pela Folha desde sua fazenda, em Sales (a 444 km de São Paulo), até o navio libanês Queensland.

A operação para exportar o gado para a Turquia, destino de outras operações alvos de associações de proteção animal. Na viagem de 609 km, feita em 10 horas, os bois perdem até 5% de seu peso.

 

Para entidades, o gado sofre maus-tratos como a falta de ração no trajeto até o porto.

Também criticam o abate halal (com cortes na jugular, traqueia e esôfago), praticado em países muçulmanos, e dizem que seria economicamente mais viável abater os animais no Brasil e exportar subprodutos como o couro.

Pecuaristas e a Abreav (associação dos exportadores de animais vivos) dizem seguir normas de bem-estar e regras do Ministério da Agricultura e que as críticas são feitas por desconhecimento.

O embate de ativistas com Castilho ocorreu dias após três bois caírem de navios e serem encontrados no mar em São Sebastião. A votação do projeto, que diz que a atividade compromete o ambiente e a saúde pública, foi adiada.

Para pecuaristas, a exportação de animais vivos é até 35% mais rentável do que a venda do gado no mercado interno, o que explica Castilho comprar bois de vários estados para compor o lote exigido pelos turcos pagando até acima do valor de mercado.

O gado, com média de dez meses e peso entre 260 e 280 quilos, não serão abatidos de imediato na Turquia, mas quando atingirem ao menos 550 quilos, o que deve ocorrer em até 14 meses.

Os dias de embarque na fazenda envolvem logística jamais vista na pequena Sales. Entre transporte, exames sanitários e taxas portuárias, um embarque do tipo pode custar cerca de R$ 1 milhão.

Na segunda-feira, ao menos 50 caminhões faziam fila à espera do início da operação, só aberta quando fiscais do ministério deslacram o curral. Os animais já tinham recebido microchips e brincos com informações de origem.

Às 12h30, o primeiro lote começou a ser posto nos caminhões, que só entravam na fazenda após serem desinfetados. A operação na fazenda seguiu até terça e terminou, no porto, na madrugada de quarta (12). Ao todo, quase cem caminhões foram usados.

Carregadas, as carretas são lacradas e abertas só no litoral, por fiscais agropecuários.

"Analisamos aspectos de bem-estar, como água e alimentação, densidade, manejo e se há pregos ou tábuas soltas nos currais", disse Fábio Benites, técnico do ministério.

Os vaqueiros usam bandeirolas para colocar os animais nos caminhões —o uso de choque elétrico para acomodá-los nos locais corretos é permitido, segundo Benites, desde que em tempo curto e em órgãos que não agridam o animal, como nos genitais.

Já no navio, os animais ficam em currais com camas de serragem e ração. Há ventiladores cujo ruído passa dos 90 decibéis, volume que pode gerar danos ao ouvido humano.

A depender das condições climáticas, a viagem até o Líbano leva cerca de duas semanas.

Valdner Bertotti, vice-presidente da Abreav e dono da VB, que fez a operação no porto, disse que há em média um incidente a cada 20 embarques, mas sem morte de animais.

"Alguma porta pode ficar aberta no navio, ou ao descer do caminhão o boi pode escapar e buscar o mar", afirma.

Bertotti afirma que sempre mantém uma lancha pronta para agir para o caso de algum animal cair na água.

No embarque acompanhado pela Folha, a operação parou por meia hora porque o navio tinha porteiras abertas.

Depois que todos os animais deixaram a fazenda no interior paulista, o local recebeu desinfetantes e ficará no chamado vazio sanitário até a chegada de novos bois. Há embarque previsto para novembro.

Mas, para as entidades de proteção, as alegações de bem-estar não são reais e a atividade deve ser encerrada ou, ao menos, modificada.

"Nos navios, há problemas como poucos veterinários, acúmulo de fezes e urina, baixa qualidade do ar e ambiente barulhento devido aos exaustores", afirmou Elizabeth MacGregor, diretora de educação da Fórum Animal.

Ela também defende que a exportação gera poucos recursos ao Brasil. "A exportação de produto primário não é tributada e subprodutos valiosos como couro são exportados com a carne, não gerando valor agregado e renda no país, mas na Turquia."

Para Lucas Alvarenga, vice-presidente no Brasil da Mercy for Animals, é viável banir a atividade em um curto prazo.

"[Os bois] Enfrentam semanas em navios para serem abatidos em locais com menos regulamentações. Somos a favor de que não haja sofrimento ou que ao menos se possa banir as piores práticas. Fere princípios de liberdade dos animais, que não se locomovem, têm a saúde comprometida e sentem medo."

Presidente da Abreav, Ricardo Barbosa disse que a atividade é regulamentada e ONGs ameaçam um setor que gera 17 mil empregos diretos.

"É até covardia. O Brasil vai ser o maior exportador de carne do mundo com maus-tratos? Há muito investimento em genética e melhoramento de pastagem, além de gerar renda. Quem mexe com animal gosta de animal. Eu disse isso à moça que me criticou na Assembleia", afirmou o pecuarista Castilho.

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