Descrição de chapéu Financial Times

Outra bolha da tecnologia pode estar a ponto de estourar

Realidade financeira e modelo de capitalização de empresas serão submetidos a teste necessário

Rana Foroohar
Financial Times

Havia muitas desconexões entre o Fórum Econômico Mundial da semana passada e o mundo real. Uma das mais notáveis era o otimismo quanto à tecnologia exibido por muitos participantes, que contrastava fortemente com o que os mercados mesmos esperam do setor de tecnologia este ano.

A próxima onda de ofertas públicas iniciais parece especialmente problemática. Dara Khosrowshahi, presidente-executivo da Uber, marcou presença em Davos, falando sobre a abertura do capital de sua companhia, marcado para daqui a alguns meses. Mas sua fala tinha um tom de desespero.

A Uber, como a Lyft e diversas outras empresas de tecnologia de grande porte que ainda não abriram seu capital, a exemplo da Slack e do Airbnb, provavelmente o farão o mais cedo que puderem —não só por causa das preocupações quanto a uma recessão iminente e mercados voláteis mas porque elas engordaram tanto com o capital privado que não está claro se o mercado será capaz de sustentar suas avaliações. O valor da Uber, por exemplo, foi estimado em US$ 100 bilhões. Elas querem obter seu dinheiro enquanto isso ainda é possível.

 

É uma situação que é tanto semelhante quanto diferente do ocorrido no boom inicial da internet, na virada dos anos 2000. Na época, eu trabalhava no setor de capital para empreendimentos, em Londres.

Empresas como a boo.com (a pets.com da Europa) - uma empresa já fechada de varejo online, financiada pelo grupo LVMH  - investiam milhões em anúncios bem produzidos, e aspirantes a empreendedor circulavam em busca de dinheiro nos eventos de networking First Tuesday. Você se lembra daqueles adesivos redondos que todo mundo tinha de usar - vermelho para os investidores, verdes para os talentos?

Então como agora, estávamos nos estágios finais de um ciclo de crédito, e havia dinheiro demais correndo atrás de valor de menos. E, então como agora, os investidores estavam contando com uma onda de ofertas públicas iniciais quentes para jogar ainda mais combustível em mercados que estavam claramente distendidos. Todos sabemos como aquilo acabou, dos dois lados do Atlântico.

Não pretendo dizer, com isso, que valor algum tenha sido criado, então, assim como agora. Para cada companhia de varejo de ração animal ou vendedor de camisetas online que terminou fechando as portas durante a contração do setor de internet, houve milhares de quilômetros de cabos de banda larga instalados, e eles criaram a infraestrutura da qual empresas como o Google tiram vantagem. Hoje, a economia do compartilhamento usufrui de mercados e conveniências que antes não existiam.

A verdadeira diferença entre as duas eras está nos mercados de capitais mesmos. O capital para empreendimentos entrou em colapso depois de 2000 mas se recuperou; voltou a cair com a crise financeira; e disparou para um nível recorde depois de 2014. Houve uma proliferação de startups.

Mas o número de ofertas públicas iniciais caiu. Isso se deve a um paradoxo —embora a tecnologia tenha barateado a criação de companhias, transformá-las em sucesso agora se tornou mais caro. Isso acontece por conta de uma corrida armamentista para a criação do próximo "unicórnio"— uma empresa com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão - entre as startups.

Como apontam Martin Kenney e John Zysman, da Universidade da Califórnia, em um estudo que estão por publicar sobre a capitalização de startups, intitulado "Unicorns, Cheshire Cats, and the New Dilemmas of Entrepreneurial Finance" [unicórnios, gatos de Alice e os novos dilemas do financiamento empresarial], "as startups estão todas tentando chegar a uma dinâmica de vitória absoluta por meio de expansões rápidas, caracterizadas por crescimento vertiginoso e quase sempre perdulário, em muitos casos sem um percurso perceptível rumo ao lucro".

Nos últimos cinco anos ou pouco mais, houve uma expansão imensa no número de unicórnios bancados por capital para empreendimentos. Companhias como Uber, Lyft, Spotify e Dropbox podem estar perdendo dinheiro em ritmo acelerado, mas a avaliação de seu valor de mercado continua a subir. De fato, tudo isso é parte de uma nova dinâmica de negócios.

Barreiras baixas à entrada resultaram na presença de grande número de concorrentes e em uma corrida de gastos para capturar o máximo possível do mercado. As empresas de capital fechado que emergem desse ciclo improdutivo estão inchadas, e o mesmo se aplica aos fundos de capital para empreendimentos.

Fundos de capital para empreendimentos com valor de US$ 1 bilhão, no passado desconhecidos, agora se tornaram comuns. No ano passado, a Sequoia criou um fundo de US$ 8 bilhões para investimentos iniciais, e o SoftBank constituiu um fundo de espantosos US$ 100 bilhões.

E tamanho gera tamanho, claro. À medida que companhias de capital para empreendimentos, cada vez mais pesadas, elevam suas ofertas para capitalizar startups, as demais precisam acompanhá-las. É aumentar ou sair.

O resultado foi não só uma nova bolha no mercado de ofertas públicas iniciais mas a criação de uma ameaça competitiva a empresas de capital aberto, que agora precisam se preocupar com seus lucros.

Exemplos clássicos seriam o desordenamento do setor de táxis pela Uber e o do setor de hotelaria pelo Airbnb. Isso pode ser bom para algumas das companhias de capital para empreendimentos, que usarão os valores inflados dos unicórnios nos quais investiram para arrecadar ainda mais dinheiro e cobrar taxas de administração ainda mais altas.

Mas não consigo ver como isso beneficia a criação geral de valor econômico. Usar dívidas para financiar empresas não lucrativas em sua busca da criação de monopólios pode beneficiar alguns empreendedores e investidores, mas distorce o mercado de capital e o mercado de trabalho, assim como a competição.

Enquanto os investidores se dispuserem a aceitar crescimento como métrica de valor, a música continuará tocando. Mas, como apontam os pesquisadores da Universidade da Califórnia, "unicórnios são criaturas míticas". Este ano, sua realidade financeira, bem como a sustentabilidade do atual modelo de capitalização, serão submetidos a um teste muito necessário.

Algumas das integrantes dessa nova safra de companhias promovidas de modo tão hiperbólico podem desaparecer como o gato de Alice no País das Maravilhas, deixando para trás apenas o sorriso daqueles que conseguiram sair fora antes de a bolha estourar".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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