Descrição de chapéu Previdência Governo Bolsonaro

À espera de reforma, Bolsa opera descolada da economia real

Apesar de indicadores frustrantes, índice bate recorde de 100 mil pontos durante pregão

Flavia Lima
São Paulo

O mercado financeiro parece caminhar de costas ao que se passa com a economia brasileira.

No dia em que mais um indicador importante frustra as expectativas de economistas, a Bolsa bateu um novo recorde histórico nominal, fechando muito próxima dos 100 mil pontos. 

Nesta segunda-feira (18), o IBC-Br, indicador de atividade do Banco Central —considerado uma espécie de prévia do PIB (Produto Interno Bruto)—, caiu 0,41% em janeiro relação a dezembro.

O número veio bem abaixo do esperado pelo mercado. 

A Bolsa nem piscou. Chegou a alcançar 100 mil pontos ao longo dia e encerrou um pouco abaixo do patamar histórico, em 99.993 pontos. A alta foi de 0,86% em relação ao pregão anterior.

No mesmo dia, soube-se que as expectativas de economistas para o PIB de 2019 caíram. O crescimento econômico esperado agora é de 2% ante alta de 2,28% uma semana atrás. Em junho de 2018, havia chegado a 3%.

Bolsa de Valores
Ibovespa supera 100 mil pontos - Diego Padgurschi /Folhapress

Na sexta-feira (15), a Bolsa chegou aos 99.136 pontos (o recorde anterior), após uma semana inteira de decepções com os números da produção industrial, do varejo e dos serviços.

“Difícil falar que a Bolsa está subindo porque o presidente Jair Bolsonaro falou isso ou aquilo. Ainda acho que o vetor principal é o bom humor internacional”, diz Ricardo Peretti, estrategista de pessoa física da Santander Corretora.

Para ele, a Bolsa brasileira vem replicando o que acontece com as principais Bolsas americanas e europeias, que começaram março em queda, mas voltaram a se recuperar na segunda semana do mês, rompendo suas máximas recentes.

A atmosfera positiva foi alimentada pela percepção de que as negociações comerciais entre China e Estados Unidos estão próximas de uma conclusão e de que os bancos centrais dos países desenvolvidos serão bem mais pacientes no momento de subir os juros, o que coloca menos pressão nas moedas de emergentes —o real incluído.

Em março, o S&P 500 sobe 1,71% e a Bolsa, 4,6%.

Embora o fluxo de recursos de investidores estrangeiros para a Bolsa brasileira ainda seja negativo no ano, isso se reverteu em março, o que ajudaria a explicar a boa performance no mês.

Outro ponto que vem animando os investidores é a expectativa de que a taxa Selic possa voltar a ser reduzida —justamente em razão da fraqueza econômica.

“Se por um lado a atividade dá sinais de decepção, por outro lado isso pode levar o BC a cortar os juros, o que pode alimentar mais uma rodada de alta da Bolsa”, diz Peretti.

Economistas não veem uma queda da taxa Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), nesta quarta-feira (20), mas já há quem não descarte o movimento em maio.

“Obviamente que, se os dados econômicos continuarem decepcionando muito, em algum momento o mercado vai parar e falar que só cortar juros não adianta, tem de ter crescimento também. Mas isso ainda não aconteceu”, diz Peretti.

Parte dos analistas diz acreditar que as expectativas positivas em torno da aprovação da reforma da Previdência é que vêm ditando o rumo das ações.

Fernando Rocha, da gestora JGP, lembra que, na maior parte das vezes, os indicadores do mercado financeiro refletem uma expectativa de como estará o futuro.

Dessa forma, o otimismo derivaria do fato de que a maior parte do mercado financeiro espera aprovação de uma boa reforma da Previdência.

“Isso afastaria os riscos fiscais, como insolvência do Estado e, em tese, devolveria o otimismo aos agentes econômicos, que voltariam a investir e consumir”, diz Rocha.

Em meio ao descolamento entre o mercado financeiro e os dados de atividade, muitos se perguntam se a máxima segundo a qual a Bolsa costuma antecipar a informação econômica deixou de valer.

Luís Afonso Lima, economista-chefe da Mapfre Investimentos, diz que a relação entre Bolsa e atividade econômica se mantém desde 2004 com uma defasagem de cerca de dois meses.

O descolamento, portanto, indicaria uma das três hipóteses: ou a relação parou de existir, ou os dados econômicos vão reagir em breve ou a Bolsa é que vai cair.

“A Bolsa deve sofrer correção para baixo em algum momento”, diz Lima, que espera alta de 2% do PIB em 2019, mas afirma que o viés é de baixa.

“O mais provável é que a proposta [da reforma] seja reduzida a uma versão mais modesta e uma economia menor e de longo prazo. Acredito que a expectativa dos investidores vai se ajustar a essa realidade.”

Reuters

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