De volta a níveis pré-seca, rio São Francisco tem menos restrições para uso das águas

ANA publica nesta terça novas regras que ampliam limites de vazão e permite maior geração de energia

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Apos cinco anos de seca severa, os reservatórios da Bacia do Rio São Francisco voltaram ao nível pré-crise e já começam a operar com menos restrições, o que permite o aumento da geração de energia e do uso por outras atividades econômicas.

O chamado reservatório equivalente (soma da capacidade de todos os lagos da bacia) está hoje em 57%, o maior nível desde o segundo semestre de 2012, quando se iniciava a seca que gerou dificuldades para o abastecimento de água, irrigação, turismo e hidrelétricas.

A expectativa do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) é que o nível atinja os 60% ainda ao fim do período úmido, nas próximas semanas - o percentual foi atingido pela última vez em janeiro de 2012. Com mais água, as hidrelétricas da região já estão gerando mais energia do que em meses anteriores.

Obras de transposição do Rio São Francisco do eixo norte
Obras de transposição do Rio São Francisco do eixo norte - Bruno Santos/Folhapress

A melhora na situação levou a ANA (Agência Nacional de Águas) a permitir o aumento das vazões nas barragens. Em Sobradinho, por exemplo, são hoje 800 metros cúbicos por segundo, 250 a mais do que no período mais severo de restrições.

"É um grande alívio, sobretudo para outros usos e para a manutenção dos ecossistemas [na parte baixa da bacia]", diz Anivaldo Miranda, que preside o CBHSF (Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco). A região vinha sofrendo com problemas no abastecimento de água e salinização da foz do rio, por exemplo.

A ANA decidiu mudar o status da sala de crise do São Francisco —que passará a operar como uma sala de acompanhamento da situação— com reuniões menos frequentes, e publicará nesta terça (30) novas regras de operação dos reservatórios da bacia.

O superintendente de Operações e Eventos Críticos da agência, Joaquim Gondim, diz que as novas regras têm o objetivo de garantir maior estabilidade no nível dos reservatórios ao longo dos anos. A resolução elaborada pela ANA determina volumes máximos de vazão de acordo com faixas de níveis de reservatórios.

A bacia do São Francisco tem quatro reservatórios, sendo que os dois maiores são Três Marias, na cabeceira do rio em Minas Gerais; e Sobradinho, na divisa entre a Bahia e Pernambuco, importante para o abastecimento do polo de fruticultura irrigada de Juazeiro e Petrolina.

Segundo as novas regras, se o nível dos reservatórios estiver acima de 60%, não há limite de vazão e o setor elétrico pode gerar energia sem restrições. Abaixo dos 60%, há restrições de vazão nos principais reservatórios - embora superiores às do período agudo da crise.

Para Gondim, o modelo garante uma operação mais estável – ou “parcimoniosa” – dos reservatórios, com a geração de energia diluída ao longo do ano, em vez de picos para aproveitar a água no verão.

Atualmente, o reservatório de Três Marias está com 80,7% de sua capacidade de armazenar energia - chegou a ter 2,91% em outubro de 2014. Já Sobradinho, que chegou a ter 1,1% em novembro de 2015, hoje tem 47,8%. A recuperação é fruto das restrições impostas nos últimos anos, com apoio da proliferação de usinas eólicas que ajudaram a suprir a região.

De acordo com dados do ONS, com a ampliação dos limites nos últimos meses, as hidrelétricas do Nordeste geraram 2.011 megawatts (MW) médios em março – ainda cerca de 10% abaixo do mesmo mês em 2018, mas já mostrando recuperação em relação aos 1,5 mil a 1,7 mil do fim do ano.

Gondim espera que as novas regras mantenham o ritmo de recuperação dos reservatórios e não descarta que as hidrelétricas do Nordeste voltem a verter água - quando os reservatórios estão cheios e as comportas precisam ser abertas, o que não ocorre desde 2013.

A última vez que o reservatório equivalente do São Francisco atingiu 100% de sua capacidade foi no segundo semestre de 2009

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