Indicação para FAO fica entre China e Geórgia e preocupa agronegócio

Ernesto Araújo prefere georgiano, já pasta da Agricultura referenda nome chinês

São Paulo

O apoio do Brasil para o comando da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) pode se transformar no mais novo embate entre o agronegócio e o chanceler Ernesto Araújo.

A eleição para a diretoria-geral do órgão —que é presidido pelo brasileiro José Graziano da Silva, indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva— ocorrerá em 23 de junho.

Cinco candidatos disputam o posto: Médi Moungui, de Camarões; Qu Dongyu, da China; Catherine Geslain-Lanéelle, da França; Davit Kirvalidze, da Geórgia; e Ramesh Chand, da Índia.

Até agora o endosso do Brasil não é conhecido.

O setor agrícola fez chegar por vias extraoficiais ao governo Jair Bolsonaro (PSL) sua preferência pelo vice-ministro de Agricultura da China, Qu Dongyu. A China é o principal destino das exportações agrícolas brasileiras.

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Qu Dongyu, vice-ministro da Agricultura e Assuntos Rurais, da China - scio.gov.cn

O nome foi referendado pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Todavia, a indicação da posição brasileira é feita pelo Itamaraty.

Ministro das Relações Exteriores, Araújo, segundo informações de bastidores, gostaria de apoiar o candidato da Geórgia, Davit Kirvalidze.

Ex-ministro da Agricultura de seu país, Kirvalidze está sendo apadrinhado pelo governo Donald Trump, dos Estados Unidos.

Segundo apurou a reportagem, a ministra da Agricultura informou ao colega do Itamaraty que o setor prefere respaldar o candidato chinês e que seria importante anunciar o apoio brasileiro durante a reunião do conselho-geral da FAO, que ocorre na quinta-feira (11).

Araújo, contudo, não se posicionou. O chanceler disse apenas que consultaria a representação brasileira da FAO em Roma, sede da entidade.

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David Kirvalidze, ex-ministro da Agricultura da Geórgia - CNFA

Cristina também teria informado a Bolsonaro sobre o assunto, que, a princípio, não se opôs em apoiar o chinês. Ele pediu, porém, que a posição brasileira fosse alinhada com o Itamaraty.

Um eventual endosso do Brasil ao candidato da Geórgia é visto pelo agronegócio como inútil, já que ele tem poucas chances de vitória, além de correr o risco de melindrar dois importantes clientes de produtos agrícolas brasileiros: China e Rússia.

O governo chinês vem se empenhando em eleger seu representante. 

Semanas atrás, Qu Dongyu esteve pessoalmente no Brasil pedindo votos e se reuniu com funcionários do Ministério da Agricultura.

No ano passado, a China comprou US$ 35,59 bilhões (R$ 137,56 bilhões) em produtos agrícolas brasileiros, ou 35% do total.

A Rússia não figurou como um dos maiores clientes do Brasil em 2018 por causa de um bloqueio sanitário contra as carnes brasileiras, que só foi levantado em novembro do ano passado.

Antes disso, contudo, o país respondia por 10% das vendas brasileiras de carne bovina.

Os russos também podem ficar incomodados se o Brasil decidir apoiar o candidato da Geórgia. 

Os dois países fazem fronteira e estiveram em guerra em 2008. Até hoje não mantêm boas relações.

O agronegócio e Araújo colecionam conflitos por causa dos posicionamentos polêmicos do chanceler. O ministro já disse que "não vai vender a alma" para exportar soja e minério para a China.

A tentativa de transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém também incomodou os países árabes, importantes clientes da carne brasileira.

O Ministério da Agricultura preferiu não comentar. O Itamaraty informou, em nota, que "não há decisão tomada sobre o candidato a ser apoiado pelo Brasil nas próximas eleições da FAO".

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