Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Presidente da Apex acusa Ernesto Araújo de falta de lealdade após ter poderes esvaziados

Mario Vilalva afirma que diretores ligados ao chanceler são 'despreparados, inexperientes, inconsequentes e irresponsáveis'

Ricardo Della Coletta
Brasília

Reagindo a uma canetada do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que esvaziou seus poderes, o presidente da Apex-Brasil, Mario Vilalva, acusou o chanceler de falta de lealdade e chamou os diretores ligados ao titular do Itamaraty de "despreparados, inexperientes, inconsequentes e irresponsáveis”.

Documento obtido pela Folha revela que Araújo transferiu diversas atribuições da presidência da Apex a dois dos seus aliados no órgão, a diretora de Negócios, Letícia Catelani, e o diretor de Gestão Corporativa, Márcio Coimbra.

Mario Vilalva (esq.) ao lado do presidente Jair Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo no início de janeiro
Mario Vilalva (esq.) ao lado do presidente Jair Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo no início de janeiro - Folhapress

“[Eu recebi] com muita surpresa e muita decepção. Eu não esperava isso de um colega [Araújo] ao qual eu fui leal o tempo todo”, disse Vilalva em entrevista à Folha, lamentando a falta de reciprocidade na sua relação com o chanceler. ​"O documento foi feito na calada da noite, e faltou lealdade ao ministro."

“O mais grave foi o fato de que as mudanças foram feitas sem o presidente da Apex saber e que elas foram escondidas em documento guardado em cartório, o que demonstra jogada ardilosa e de má-fé”, acrescentou o embaixador.

A Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) é vinculada ao Ministério das Relações Exteriores e atua na promoção de produtos brasileiros no exterior. 

O documento revela que Araújo assinou e protocolou, de forma unilateral, em 15 de março, alterações substanciosas no estatuto social da agência. Entre outros pontos, as mudanças impedem Vilalva de demitir Catelani e Coimbra.

A canetada de Araújo também dá poderes aos dois diretores —ambos ligados ao chanceler— para convocar reuniões da diretoria-executiva na “impossibilidade ou recusa” de Vilalva.

A diretoria-executiva é o órgão deliberativo e concentra as principais decisões da agência.

Embaixador de longa carreira no Itamaraty, Vilalva alega que tomou conhecimento das alterações no estatuto ao ser procurado pela Folha nesta segunda-feira (8). Disse que tanto Catelani quanto Coimbra são pessoas “despreparadas, inexperientes, inconsequentes e irresponsáveis.”

O presidente da Apex afirmou ainda que levou ao ministro Ernesto Araújo o que chamou de problemas de indisciplina dos dois diretores, que segundo ele estão trazendo prejuízos à Apex. “Mas infelizmente não tive uma reação à altura do que eu esperava”, disse o diplomata.

São várias as mudanças feitas por Araújo no estatuto da Apex. O chanceler inseriu, por exemplo, um dispositivo que impede Vilalva de destituir os dois diretores da agência sem “consentimento do Conselho Deliberativo”. Esse órgão colegiado é presidido por Araújo, enquanto ministro das Relações Exteriores.

Também há várias alterações na área que trata das atribuições da diretoria-executiva da Apex.

Araújo inseriu a expressão “em conjunto com um diretor” nos itens que tratam de contratação e dispensa de pessoal na representação da Apex em juízo e na assinatura de contratos.

Na prática, isso reduz os poderes de Vilalva, uma vez que no estatuto anterior a expressão não existia e essas atribuições eram exclusivas do presidente da agência.  

À Folha, Vilalva disse que a situação na qual se encontra a Apex —“um pouco paralisada diante de pessoas que não têm experiência nem maturidade para lidar com a coisa pública"— tem gerado prejuízos à agência e à promoção das exportações brasileiras.

“O que está acontecendo aqui é que as pessoas estão trabalhando em agendas pessoais, e com isso não estão preocupadas em fazer com que o trabalho da agência corra normalmente, como sempre aconteceu”, disparou o embaixador.

Ele negou ainda que tenha se blindado com o apoio da ala militar do governo, mas disse que mantém boas relações com os generais do governo.

“Eu sou filho de militar, portanto eu tenho total conhecimento do que é a ala ou o ambiente militar. Eu cresci nesse ambiente e prezo muito os militares, tenho muito respeito pelo trabalho que eles fazem no Brasil. Evidentemente que eu cheguei a conversar com alguns representantes da ala militar no Planalto sobre essa questão, e eles compreenderam perfeitamente bem a minha situação de aflição dentro da agência”, acrescentou.

Questionado sobre a quem se referia como “ala militar no Planalto”, Vilalva citou o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno.

“Eu estive com o vice-presidente Mourão institucionalmente. Ele se interessou em saber como a Apex funcionava. Eu marquei hora com ele para explicar e inclusive também para ajudá-lo em eventuais missões dele no exterior”, relatou Vilalva, ressaltando que não discutiu a crise interna na agência especificamente com o vice.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores disse que a "alteração do estatuto visa adequá-lo à lei, que atribui decisões à diretoria executiva (composta pelo diretor presidente e os outros dois)".

"O novo estatuto será submetido ao Conselho Deliberativo da Apex na próxima reunião."

O ministério disse ainda não haver intenção de "tirar poder de ninguém" e negou que a agência esteja "paralisada". "A Apex não está paralisada e vive redesenho de métodos e processos, numa dinâmica de colegialidade".

Essa não é a primeira polêmica envolvendo a Apex no governo do presidente Jair Bolsonaro, que inicialmente indicou Alecxandro Carreiro para comandar a agência. 

Nove dias após a posse, porém, Araújo anunciou a demissão de Carreiro, que teria se desentendido com Catelani.

Carreiro não aceitou a demissão e permaneceu dando expediente normalmente na agência no dia seguinte, até o próprio Bolsonaro confirmar sua saída —e indicar Vilava como substituto.   

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