Descrição de chapéu

Blindadas por fusões frustradas, FCA e Renault se complementam

Ítalo-americana propôs à francesa fusão que pode criar 3ª maior montadora do mundo

Eduardo Sodré
São Paulo

Em visita ao Brasil na última semana, Mike Manley, presidente do grupo FCA Fiat Chrysler, anunciou investimentos no país e evitou falar de fusões com outras empresas. Contudo, disse que parcerias favoráveis ao negócio não poderiam ser descartadas, fala que vinha sendo repetida em todos os encontros do executivo com a imprensa.

Naquele momento, as negociações com a Renault já estavam avançadas, embora ainda não houvesse uma definição.

A fala de Manley se encaixa no cenário atual, em que a Renault oferece o que falta ao grupo ítalo-americano.

A empresa francesa tem os veículos que não queimam combustível, principal deficiência do grupo FCA.
Enquanto a Renault produz o Zoe, carro elétrico mais vendido da Europa em 2018, a Fiat entrega o 500e.

Em 2014, o ex-presidente do grupo ítalo-americano, Sergio Marchionne (1952-2018), pediu para que os consumidores não comprassem aquele carro, pois cada unidade era comercializada com prejuízo.

Do lado do grupo FCA, a colaboração deve vir com utilitários esportivos e motores a combustão com alta eficiência energética.

A marca Jeep se consolida como a principal do segmento de SUVs em grandes mercados –um desses é o brasileiro— e haverá também versões com a marca Fiat.

Os utilitários Jeep e Fiat serão maioria entre os lançamentos previstos para a América do Sul até 2024, resultado dos investimentos de R$ 16 bilhões que estão sendo feitos nas fábricas de Betim (MG) e de Goiana (PE).

Uma das possibilidades é a produção conjunta no Brasil. A Renault tem um grande complexo em São José dos Pinhais (PR), dedicado apenas aos carros da marca. Contudo, no passado, modelos Nissan foram feitos lá.

Com o desenvolvimento de futuros produtos em parceria, os moldes dessa operação no país pode seguir o que feito nas linhas de montagem do grupo PSA Peugeot Citroën, em Resende (RJ), e da Volkswagen Audi, também em São José dos Pinhais.

A diferença estará no volume. Hoje, o grupo FCA Fiat Chrysler é o maior produtor de automóveis no Brasil. Se a conta incluir a Renault, abrirá vantagem considerável. 

Segundo a Reuters, membros do conselho de administração da Renault vão se reunir informalmente dentro de alguns dias, com o objetivo de decidir no início da próxima semana se avançarão nas negociações sobre a fusão proposta.

Somadas, as empresas envolvidas na fusão detêm 27,3% do mercado nacional de carros de passeio e veículos comerciais leves. Os números são do primeiro quadrimestre de 2019, divulgados pela Fenabrave.

A General Motors tem 18,02% de participação no período.

A fusão entre empresas é um movimento que se tornou comum no setor automotivo. Neste momento, as experiências das empresas envolvidas --algumas frustadas-- dão base para uma relação sólida.

A Chrysler fez parte do grupo Daimler (dono da Mercedes-Benz) de 1998 a 2007. A empresa americana saiu combalida dessa empreitada, sendo repassada ao grupo investidor Cerberus.

A Fiat, que conseguiu se capitalizar após o desfecho de sua parceria com a General Motors (entre 2000 e 2005), costurou há cinco anos a fusão com os fabricantes da Jeep e hoje forma um grupo sólido.

A Renault passa por um momento turbulento em sua relação com Nissan e Mitsubishi.

O lado japonês é contrário à fusão plena entre as partes, embora a parte francesa seja detentora de 43% das ações da Nissan. 

A Nissan reúne hoje as duas necessidades de Renault e FCA: utilitários de sucesso global e um programa robusto de eletrificação, que foi desenvolvido sob o comando de Carlos Ghosn, ex-presidente das empresas.

Com a chegada do grupo FCA ao negócio, haverá uma reorganização de forças. Após a fusão das empresas europeias e americana, o próximo movimento dos japoneses é aguardado pelo mercado.

Logos da Fiat e da Renault
Logos da Fiat e da Renault; união de montadoras criaria gigante do setor - Marco Bertorello e Loic Venance/AFP
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