Tabela do frete não é viável a longo prazo, diz novo CEO de fabricante de reboques

Para presidente da maior empresa do setor, regulação de preços é papel do mercado

São Paulo

Para o recém-nomeado presidente da maior fabricante de reboques da América Latina, a Randon, o tabelamento do frete não é uma política sustentável a longo prazo.

Daniel Randon, 42, assume o cargo nesta sexta-feira (9). Ele ficará no lugar do irmão David, 60, que comandava a marca desde 2009 e passará à presidência do conselho de administração da companhia.

Daniel Randon, novo presidente do grupo que leva seu sobrenome - Marcos Nagelstein - 22.mai.18/Folhapress

Apesar da atividade econômica fraca do Brasil, o executivo mantém a meta de crescer 16% neste ano, impulsionado pelo reaquecimento do setor do país e pelo bom desempenho da economia americana.

 

Daniel se diz otimista com a aprovação da reforma na Previdência. Na conta das preocupações, coloca a economia argentina, que vive um cenário de hiperinflação.

Os senhores têm percebido o movimento de empresas investirem em frota própria por causa do tabelamento do frete? Como veem a tabela?
Algumas empresas começaram a fazer os cálculos para reduzir terceirização de frota. Dificilmente alguém para [de terceirizar], mas existe esse movimento para buscar equilíbrio [dos custos].

Por mais que se criem intervenções como essa, é difícil mantê-las. O mercado se ajusta com base na oferta e na procura. Não tem como tabelar.

O mais importante é que a economia volte a crescer, para que não precisemos de tabelamento, e sim tenhamos mais demanda. 

Isso vai fazer com que os preços sejam mais justos.

O tabelamento é uma intervenção que pode contribuir para alguns no curto prazo, mas no longo pode ser até prejudicial para o autônomo, se algumas empresas reduzirem a terceirização.

O crescimento do país no primeiro trimestre foi baixo, e há rusgas entre Executivo e Legislativo na negociação para aprovar a reforma da Previdência. Quais são suas expectativas em relação à economia? 
Brasil tinha uma expectativa alta, e por isso iniciamos abril com questionamentos e redução nas previsões de crescimento para 1,5%. 

Parte disso pode ter sido ocasionada por questões políticas, mas tem a ver com setores que não voltaram a crescer. 

No caso da reforma, minha expectativa sempre foi conservadora. Eu não esperava de que ela fosse aprovada no primeiro semestre, mas tem de aprovar neste ano.

Falo com investidores no exterior e eles têm dito que acreditam no Brasil, mas querem ver resultados. Um deles é a reforma.

Precisamos avançar também na parte de privatizações, e isso tem sido feito. O país precisa urgentemente de infraestrutura para voltar a crescer.

As concessões que saíram no primeiro trimestre são um bom sinal. Estou otimista.

O setor de reboques tem tido resultados melhores [alta de 79% em 2018], mas ainda longe do nível pré-crise. Quais são as expectativas do senhor?
Passamos bem pela crise, aumentamos a nossa participação de mercado [para cerca de 40%] e lançamos produtos.

Hoje, o negócio do grupo no Brasil é atrelado aos resultados de venda de reboques [o conglomerado atua nos ramos ferroviário e de autopeças]. Isso é influenciado pelo desempenho do agronegócio. Como essa área vai bem, temos ótimas perspectivas.

Não voltaremos ao patamar de 75 mil unidades pré-crise agora, mas manter a produção acima dos 50 mil seria interessante. [Em 2018, o setor vendeu 44,6 mil].

Nossa meta é crescer 16% em faturamento e chegar a R$ 7 bilhões de receita em 2019. Disso, US$ 300 milhões virão de exportações.

Qual o peso das operações internacionais? 
Os Estados Unidos são nosso principal mercado depois da América Latina, e está aquecido. Para 2020, com eleições, há preocupação [do mercado] de desaceleração, mas nossas expectativas são boas. 

Nossa principal preocupação é a Argentina, com hiperinflação em ano eleitoral.

O país acabou de fazer um tabelamento de preços que é preocupante. É uma situação que prejudica o setor brasileiro de veículos comerciais.

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