Divergência entre bancos trava negociação de dívida da Odebrecht

Bradesco propõe acordo extrajudicial, enquanto Caixa ameaça executar garantias

São Paulo e Brasília

Os bancos credores da Odebrecht estão travando uma queda de braço para definir o futuro do conglomerado. 

Boa parte deles ainda não desistiu de encontrar uma saída negociada para a crise, mas a Caixa Econômica Federal segue ameaçando executar as garantias das dívidas, o que levaria a holding Odebrecht S.A à recuperação judicial.

Nesta terça-feira (11), o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, afirmou num evento que prefere uma negociação extrajudicial para repactuar as dívidas a deixar que a Odebrecht peça proteção à Justiça.

As dívidas do grupo Odebrecht chegam a R$ 80 bilhões –R$ 20 bilhões apenas na holding. Os bancos públicos estão entre os mais expostos. 

 “Trabalhamos com todos os cenários. A gente procura que seja uma recuperação extrajudicial, para que todos os atores possam sentar na mesa e chegar a um ajuste. Conceder mais prazo, dar uma condição diferenciada para que a empresa possa pagar”, afirmou Lazari.

Fontes ligadas a outros bancos credores concordam com as declarações do chefe do Bradesco, mas ponderam que uma negociação depende de nenhum evento antecipar a recuperação judicial.

A Caixa, no entanto, segue firme no propósito de executar as dívidas se não conseguir garantias mais consistentes, como ações da petroquímica Braskem, a companhia mais saudável do conglomerado.

Segundo apurou a reportagem, as negociações entre a Odebrecht e a Caixa prosseguem, mas dependem de Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, BNDES e Santander, para os quais as ações da Braskem já foram empenhadas, cederem sua preferência na fila.

Pessoas que participam das negociações afirmam que a Caixa só desistiria de executar as dívidas se os controladores cedessem ações da Braskem. Acreditam que haveria papéis suficientes para proteger a Caixa sem que tivessem sua participação diluída.

No entanto, mesmo esses bancos não estão mais totalmente cobertos. Quando a holandesa LyondellBasel desistiu da aquisição da Braskem na semana passada, o valor das ações despencou e as garantias deixaram de ser suficientes para todos.

Pessoas próximas ao processo duvidam que seja possível evitar neste ponto que a holding Odebrecht S. A peça uma trégua à Justiça. Argumentam que o caixa está acabando e que os funcionários precisam de uma proteção contra um eventual ataque de credores.

A companhia fez uma proposta de reestruturação da dívida aos bancos, que inclui um corte no valor da dívida e uma prorrogação do prazo de pagamento. Mas os cálculos só fazem sentido se o braço de construção da Odebrecht se recuperar e se for possível obter um bom dinheiro com a venda da Braskem.

Segundo apurou a reportagem, os negociadores da Caixa acreditam que é improvável que essa alternativa funcione, pois a Odebrecht sofre com uma profunda crise de credibilidade desde o escândalo da Operação Lava Jato e tem muita dificuldade em conseguir novos contratos.

Lazari, do Bradesco, reconheceu publicamente que a situação da Odebrecht é preocupante. “Temos preocupação, lógico, porque é uma empresa importante que tem crédito e ativos em todos os bancos”, afirmou.

Para o executivo, porém, os bancos estão protegidos com provisões para enfrentar um eventual calote da empresa. Ele afirma ainda que o caso da Odebrecht é isolado e que as empresas brasileiras são pouco endividadas.

Raquel Landim, Julio Wiziack e Tássia Kastner
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