Descrição de chapéu The Washington Post

Idosos de classe média podem ser excluídos do mercado de moradia

Aposentados com renda alta, mas ainda sem condições para viver em casa de repouso de luxo ficarão para trás

Tara Bahrampour
Washington | The Washington Post

Mary Gerace mora no mesmo apartamento desde 1963, e gosta muito de sua casa. Mas aos 73 anos, teme que um dia fique fraca demais para manter o apartamento de terceiro andar (sem elevador) no qual ela vive, e pelo qual paga aluguel de valor regulamentado há 42 anos. Se isso acontecer, ela teme que não possa continuar morando em Washington.

“Por enquanto estou bem, graças a Deus, mas uma queda repentina ou doença grave podem mudar isso”, disse Gerace, que se aposentou três anos atrás de seu emprego na área de recursos humanos de uma pequena empresa. O aluguel baixo de seu apartamento, que ela divide com o irmão, permite que mantenha um carro, coma fora às vezes e realize excursões curtas.

Mas os estabelecimentos locais para idosos custam muito mais caro do que ela paga de aluguel hoje, e muito mais do que sua aposentadoria seria capaz de cobrir.

“Estudei a área de Washington e percebi que vou ter que procurar fora da cidade”, talvez até em outra região dos Estados Unidos, disse Gerace.

Nos próximos dez anos, o número de idosos de renda média deve disparar, de acordo com as projeções, e muitos deles não terão condições de arcar com suas despesas de habitação e serviços, de acordo com um estudo recente publicado pela revista acadêmica Health Affairs.

Nos últimos 40 anos, o mercado de habitação para os idosos se expandiu bastante, mas os novos projetos se concentram principalmente em empreendimentos para pessoas de alta renda, afirma o relatório, que se baseia em dados do Estudo sobre Saúde e Aposentadoria, um estudo longitudinal de alcance nacional sobre pessoas de 50 anos ou mais, patrocinado pelo Instituto Nacional para o Envelhecimento e conduzido pela Universidade do Michigan.

Os idosos cuja renda é alta demais para qualificá-los para habitação subsidiada pelo governo e que não ganhem o bastante para viver em uma casa de repouso de luxo ficarão para trás. Isso pode terminar custando mais caro ao governo, disse Beth Mace, uma das autoras do estudo e economista chefe do Centro Nacional de Investimento para a Habitação e Atendimento à Terceira Idade.

“O medo é o de que, se eles não forem atendidos, terão de gastar tanto dinheiro para sobreviver que se verão enquadrados no [programa federal de saúde] Medicaid, o que pressionará ainda mais os cofres do Medicaid”, ela disse, acrescentando que o segmento dos idosos deixados para trás incluirá “professores, bombeiros [...] a força de trabalho básica”.

Em 2029, o número de idosos de renda média deve quase dobrar ante os 7,9 milhões atuais, para 14,4 milhões de pessoas, afirma o estudo. (Que afirma também que depois de 2029, quando a geração baby boom [os americanos nascidos entre 1946 e 1964] chegar aos 80 e 90 anos de idade, o número de idosos que necessitarão de assistência adicional crescerá de forma ainda mais dramática.)

O estudo define idosos de renda média como pessoas de 75 a 84 anos com renda anual de entre US$ 25 mil (R$ 98,2 mil) e US$ 74 mil (R$ 290 mil); para as pessoas de 85 anos ou mais, a faixa de renda seria de entre US$ 25 mil e US$ 95 mil. Destas, 20% terão “grandes necessidades” (ou seja, sofreriam de três ou mais doenças crônicas e de dificuldades para realizar as atividades cotidianas), de acordo com o estudo. Outros 60% terão limitações de mobilidade que podem impedir que vivam de maneira independente.

Para as pessoas que não tenham casas que possam vender ou usar como caução para obter empréstimos, as perspectivas são sombrias. Em 2029, 81% dos idosos de renda média e sem imóveis próprios terão renda anual inferior ao custo anual projetado de US$ 62 mil para viver em casas de repouso e cobrir outras despesas médicas, constatou o estudo. Para quem dispuser de um imóvel próprio, os números ainda assim são preocupantes: 54% dessas pessoas não terão condições de arcar com o custo da vida em uma casa de repouso, de acordo com o estudo.

“Mesmo que presumamos que os idosos dediquem 100% de sua renda anual a cobrir os custos de moradia em uma casa de repouso –desconsiderando quaisquer outras despesas pessoais–, apenas 19% dos idosos de renda média terão recursos superiores aos custos atuais de viver em uma casa de repouso”, afirma o estudo.

A situação resulta de uma confluência de efeitos negativos que surgiu na economia, na sociedade e nas políticas públicas dos Estados Unidos nas últimas décadas. Número maior de americanos vivem sozinhos do que no passado, e o tamanho das famílias diminuiu, exigindo que as pessoas assumam parcela maior da responsabilidade por cuidar de si mesmas, ao envelhecer. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida subiu, os planos de pensão se tornaram menos comuns e os preços dos imóveis dispararam.

Em áreas metropolitanas como a de Washington, onde o custo de vida é superior à média nacional, o problema é especialmente agudo. A região oferece algumas vantagens para os idosos, como os transportes coletivos e uma ampla rede de moradias para pessoas da terceira idade, e isso as ajuda a passar sua velhice no mesmo lugar em que viveram como adultas.

Mas na capital e em outras áreas metropolitanas os novos projetos de habitação costumam ser dirigidos aos jovens, cuja renda é mais alta, e poucas das moradias têm características de projeto que permitam que os adultos mais velhos envelheçam sem mudar de casa, como acesso para cadeiras de rodas e o uso de maçanetas de alavanca e não giratórias, disse Elizabeth White, autora de “55, Subempregado e Fingindo Normalidade: Um Guia para uma Vida Melhor”, livro sobre adultos mais velhos que estão sob ameaça financeira.

“Os fornecedores não estão respondendo ao mercado”, disse White. “Deveria ser possível projetar uma moradia com 27 a 35 metros quadrados e preço acessível, em lugar do que está disponível no mercado hoje, imóveis em geral dirigidos a membros afluentes da geração milênio”.

A falta de moradias de preço acessível é uma preocupação central para as pessoas que assistem ao curso “Envelhecendo Solo”, ministrado pela Iona Senior Services, uma organização sem fins lucrativos que atende à região de Washington.

“Sinto a tensão crescendo” quando o assunto é mencionado, disse Susan Messina, diretora assistente da organização. “As pessoas dizem que não conseguem bancar os preços da Inglesides” –uma cadeia de casas de repouso com diversas unidades na área de Washington– “e ao mesmo tempo não se qualificam para subsídios de moradia”.

Algumas das casas de repouso para idosos exigem pagamentos adiantados de centenas de milhares de dólares dos novos moradores, e eles muitas vezes os fazem vendendo suas casas. Mas para as pessoas que moram de aluguel isso não é opção; e o custo é inacessível mesmo para muitos proprietários de casas.

Algumas pessoas estão encontrando soluções criativas, como dividir casas com amigos ou aceitar inquilinos.

Susan Mitchell arruma cama de quarto de Airbnb antes de clientes chegarem
Susan Mitchell arruma cama de quarto de Airbnb antes de clientes chegarem - The Washington Post

Depois que sua rede de lojas faliu na recessão de 2008, Susan Mitchell, 74, e seu marido começaram a alugar quartos em sua casa próxima da Universidade Americana, onde vivem há 32 anos.

Planejam continuar a fazê-lo enquanto tiverem boa saúde.

Mas se isso mudar, disse Mitchell, eles não sabem o que farão. Se tiverem necessidade de assistência médica significativa, preocupam-se que as opções disponíveis na área estejam fora de sua capacidade financeira.

“Podemos ter de nos mudar para uma cidade menor, que talvez tenha preços mais acessíveis”, disse Mitchell, que trabalhava como administradora nas lojas do casal. “Já conversamos - meio de brincadeira e meio a sério - sobre formar uma comuna com pessoas que conhecemos”.

Mace disse ter esperança de que o estudo estimule as autoridades e os incorporadores de imóveis a ser mais criativos.

O estudo afirma, como exemplo, que governos poderiam oferecer incentivos a incorporadores para que construam moradias mais básicas e menos dispendiosas, ou incluam unidades de custo mais baixo em suas projetos destinados a públicos mais endinheirados; os projetos de habitação para idosos poderiam ser estruturados para incluir de modo mais formal familiares e outros membros da comunidade que trabalhem no atendimento aos idosos, como forma de reduzir os custos de mão de obra; o programa federal de saúde Medicare poderia ser expandido para bancar mais serviços; ou o Medicaid poderia estender sua elegibilidade e suas áreas de cobertura.

“Nossa esperança é tentar dar início a um diálogo sobre soluções”, disse Mace.
 
The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci
 

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