Setor privado teme que fritura de Levy prejudique escolha de sucessor

Prevalece o temor de que o posto termine com alguém mais alinhado ao governo Jair Bolsonaro, mas sem a qualificação necessária para o cargo

Alexa Salomão
São Paulo

Executivos de empresas que têm contato com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)  consideraram constrangedor o processo de fritura que levou ao pedido de demissão de Joaquim Levy da instituição.

O fato de o ministro da Economia, Paulo Guedes, contribuir no questionamento público de seu próprio indicado para o banco levanta dúvidas sobre a capacidade de a pasta agora conseguir no mercado um substituto à altura cargo.

Prevalece o temor de que o posto de presidente do maior banco de fomento do país termine com alguém mais alinhado politicamente ao governo Jair Bolsonaro, mas sem a qualificação necessária para o cargo ou capacidade de diálogo com a equipe do BNDES, de perfil muito técnico.

Sem a devida interlocução entre o novo presidente e atual equipe do BNDES, executivos importantes da instituição poderiam ser afastados dos cargos que ocupam hoje, prejudicando o andamento de vários programas. 

Profissionais ouvidos pela reportagem dizem que a atabalhoada saída de Levy sinaliza três problemas para o seu eventual substituto.

Há preocupação com o caráter ideológico da divergência que culminou com o pedido de demissão de Levy e o fato de que esse tipo de argumento possa se usado novamente sem nenhum fundamento.

Bolsonaro se queixou de ele estar defendendo um petista para assumir como diretor de Mercado de Capitais, o advogado Marcos Barbosa Pinto, que foi assessor do BNDES na gestão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PS).

Ocorre que Barbosa Pinto não tem atuação partidária, é conceituado profissional do setor privado, foi sócio da Gávea Investimentos, de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

Seus amigos dizem que ele aceitou o posto no BNDES por espírito público.

Um integrante do governo afirmou à Folha que, após 13 anos de governo do PT, é até difícil encontrar alguém que não tenha participado da gestão petista. Ainda hoje há inúmeros cargos de confiança do governo Bolsonaro ocupados por profissionais altamente qualificados, que atuaram durante os governos de Lula e de Dilma Rousseff.

A falta de tato no caso também alimenta a percepção de que não é tão seguro fazer parte da área de Economia do governo Bolsonaro caso não se esteja 100% alinhado com seu receituário.

A fritura foi considerada desnecessária e exagerada, pois bastaria que o ministro Guedes chamasse Levy para uma conversa franca e, no limite, pedir a sua saída. 

Em entrevista no sábado (15), Bolsonaro disse que Levy “estava com a cabeça a prêmio”. Guedes declarou que “o grande problema é que Levy não resolveu o passado nem encaminhou solução para o futuro”, em uma referência a não estar atendendo à missão que lhe cabia no banco.

Os questionamentos apresentados para justificar a fritura ainda deixam a certeza, na avaliação de pessoas ouvidas na condição de anonimato, que seja lá quem for o novo presidente do BNDES, sua vida não será nada fácil diante da nova forma de o governo fazer suas solicitações.

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