Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Seis meses após Brumadinho, Vale ainda está 10% abaixo de seu valor de mercado

Companhia perdeu R$ 71 bilhões em um dia com a tragédia em janeiro

São Paulo

A Vale ainda se recupera de Brumadinho. Pelo menos, no mercado financeiro. As ações da companhia ainda são negociadas a um preço 10% do que o registrado um dia antes da tragédia, apesar da convicção de analistas do mercado financeiro de que companhia se recuperaria rapidamente.

No pregão anterior ao rompimento da barragem em Minas Gerais, as ações da empresa fecharam a R$ 56,15. Com o tombo, foram a R$ 42,38, uma perda de R$ 71 bilhões em valor de mercado, a maior queda em um único dia na história da Bolsa brasileira. 

Por volta das 15h34 desta quinta-feira (25), a cotação era de R$ 50,35. 

Nos Estados Unidos, as ações negociadas nas Bolsas de Nova York tiveram uma queda de US$ 19,3 bilhões e estão mais próximos de se recuperar. Os papéis eram negociados a US$ 14,75 antes da tragédia e agora estão a US$ 13,26.

A recuperação da empresa, cujas ações chegaram ao pico de R$ 53,65 no começo do mês, já era esperada desde o momento do desastre. Corretoras de investimento mantiveram, em sua maioria, a recomendação de compra para a Vale, com a perspectiva a longo prazo.

A valorização neste período se deve muito ao preço do minério de ferro, que vem em uma trajetória de alta desde o episódio, com a menor oferta da matéria-prima e adversidades climáticas que dificultaram a exportação. No início de julho, o produto atingiu sua máxima histórica, a US$ 127, e acumula valorização de 60,3% desde 25 de janeiro.

Parte da redução da oferta do minério é explicada justamente pela menor produção da Vale, que precisou fechar minas por exigências legais.

“Para cada US$ 10 por tonelada de aumento no preço do minério, o Ebitda da Vale aumenta US$ 3 bilhões”, afirma a XP Investimentos em relatório. A estimativa da corretora é de Ebitda de R$ 5 bilhões no segundo trimestre. 

O Ebitda (lucro antes de impostos, depreciação e amortização) é uma medida usada por analistas do mercado financeiro para avaliar o resultado operacional da companhia. A empresa pode ter um Ebitda positivo e registrar prejuízo.

O BTG Pactual é mais otimista e espera um Ebitda maior que R$ 6 bilhões no trimestre, cujo balanço será divulgado em 31 de julho. Ambas as instituições recomendam a compra dos papéis. 

No primeiro trimestre, por conta dos impactos financeiros de Brumadinho, a empresa teve o seu primeiro Ebitda negativo em sua história, com déficit de R$ 2,8 bilhões.

“Enquanto as ações da Vale estão inegavelmente baratas dentro de qualquer métrica, acreditamos que a redução de risco do papel vai ser gradual. Em uma base de comparação mercado para mercado vemos as ações a cerca de três vezes o Ebitda de 2019, o que é um dos patamares mais baratos que conseguimos nos recordar”, afirma o BTG em relatório.

O banco acredita ainda que a distribuição de dividendos da empresa, suspensa neste ano, deve voltar em 2020. Essa bonificação dos acionistas é um dos chamarizes da companhia, que tradicionalmente tem umas das maiores divisões de lucros. Em 2018, os dividendos garantiram, no total, R$ 7,7 bilhões a acionistas.

Por enquanto, outras medidas da companhia vieram para compensar os danos de imagem e financeiros com a tragédia.

A paralisação de barragens em risco por parte da empresa, além das bloqueadas pelas autoridades, foi vista com bons olhos por investidores. Assim como o investimento de R$ 1,8 bilhão na recuperação ambiental de Brumadinho.

“Brumadinho teve mais risco de imagem do que impacto na produção da empresa. O local representa apenas 7% da produção de minério de ferro, o que é importante, mas não é devastador”, afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

Para Pasionatto, a atuação estratégica da Vale frente à crise combinada ao mercado favorável, com altas recordes do minério e do Ibovespa, levaram a esta rápida recuperação. 

“O patamar de R$ 56 por ação não deve vir já no próximo trimestre, mas no final do ano”, diz a economista.

Apesar do valor de mercado se caminhar para os patamares anteriores ao desastre, a companhia ainda não recuperou o nível de investimento que tinha nas agências Moodys e Fitch. Nem a posição como terceira empresa mais valiosa do Brasil, sendo ultrapassada por Bradesco e Ambev.

Pasionatto acredita que, para além da recuperação, a companhia deve superar o valor pré Brumadinho. Como destaques positivos, ela cita a retomada das atividades no complexo de Vargem Grande, em Minas Gerais, que estavam suspensas desde fevereiro, e, em especial, a aposta da mineradora no minério de melhor qualidade, como o extraído em Carajas, na Amazônia. 

“Investidores encaram a empresa como muito sólida e robusta e não deixaram de acreditar nela. As mesmas pessoas que venderam as ações da Vale no dia seguinte a Brumadinho já as compraram de volta. Infelizmente, o mercado é muito mais racional do que emotivo”, diz Pasionatto.

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