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Marcos Lisboa

Um preâmbulo para as imensas contribuições de Affonso Celso Pastore

A estranha economia da USP, uma historiadora fora do lugar, um estatístico que admirava Marshall e Antonio Delfim Netto

Marcos Lisboa
São Paulo

Nas décadas de 1950 e 1960, a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) produziu um pequeno milagre, liderado por dois professores, Alice Canabrava e Luiz de Freitas Bueno. Na contramão da tradição dominante nas ciências sociais no Brasil, Canabrava, Bueno e um conjunto notável de alunos se dedicaram a revirar arquivos, a coletar dados e a utilizar as técnicas então recentes da econometria para analisar a economia brasileira.

Alice Canabrava nasceu em 1911, formou-se na Escola Normal e foi aprovada em concurso para professora do ensino primário. No seu começo, a USP oferecia bolsas de estudos para professoras do ensino público, e Canabrava, aprovada, foi aluna dos professores visitantes que formavam as novas gerações, como Fernand Braudel.  

Em sua tese de doutorado, de 1942, a professora Alice, como era conhecida, revirou de cabeça para baixo a história da região do Rio da Prata. O trabalho pioneiro destacou a relevância do comércio entre as colônias portuguesa e espanhola, quase sempre por vias ilegais, para o desenvolvimento da região.
Canabrava revelou-se parte da liga dos historiadores de jaleco branco, aqueles que mergulham em arquivos para coletar informações.

Seu trabalho surpreendeu. A tradição das ciências sociais no Brasil em meados do século passado, e da historiografia em particular, iniciava-se com uma tese; uma narrativa sobre o processo de desenvolvimento do país, com regras e lógicas que dariam conta do atraso brasileiro. Os dados, esparsos, eram então utilizados para ilustrar ou justificar a tese geral. A jovem pesquisadora fazia o inverso. Buscava documentos, dados e evidências para então contar do ocorrido.

Quatro anos depois, Canabrava candidatou-se à vaga da Cátedra em História da América, apresentando mais um trabalho cuidadoso e surpreendente, desta vez sobre a indústria do açúcar na primeira metade do século 18. Obteve a livre-docência e a nota mais alta do concurso, mas foi preterida para a vaga por decisão do presidente da comissão.

Economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central - 16.jan.2017 - Zanone Fraissat/Folhapress

A professora era rigorosa com a pesquisa acadêmica e com a moralidade. Canabrava não teve dúvidas e pediu para ser transferida da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, atravessou o pátio e tornou-se professora de História Econômica da FEA, inaugurada no mesmo ano, onde orientou historiadores que nas décadas seguintes nos surpreenderam com suas pesquisas cuidadosas, como Francisco Luna.

Luiz de Freitas Bueno se formou em engenharia pelo MacKenzie e obteve seu doutorado em estatística pela UFRGS. Nomeado professor da FEA na instalação da escola, foi se dedicar a estudar economia. “Tudo está em Marshall”, costumava dizer Bueno, segundo conta seu assistente Delfim Netto.

A economia de Bueno começava com a microeconomia, a análise de como os preços de mercado equilibram oferta e demanda nas diversas circunstâncias. Saber das circunstâncias, por sua vez, requeria à análise dos dados de cada caso. Era preciso levantar os dados e utilizar as então novas técnicas da estatística, que fora revolucionada por Ronald Fisher, e da econometria, como sistematizada por Trygve Haavelmo.

Em seu doutorado, Bueno estudara as estimativas com equações simultâneas, mas depois se encantou com a econometria de séries de tempo, o que iria influenciar seus alunos. O professor gostava mesmo de estudar e cuidar dos seus alunos, e nos legou economistas incrivelmente curiosos, como Delfim Netto e Affonso Pastore, assim como muitos livros, doados à biblioteca da USP.

O par inesperado, Canabrava e Bueno, formou uma geração. Havia que se estudar detalhadamente as fontes primárias, enfronhando-se em arquivos de cartórios e de jornais, para levantar os dados e os acontecimentos, defendia a historiadora. Havia também que se estudar a teoria econômica e as novas técnicas da econometria que permitiam formular conjecturas e testar hipóteses, defendia o estatístico que se descobriu economista.

O resultado dessa agenda de pesquisa foi um conjunto de trabalhos que rejeitaram muitas das teses então dominantes sobre as causas do nosso subdesenvolvimento.

A produção acadêmica da FEA, liderada por Canabrava e Bueno, invertia de ponta à cabeça a análise econômica que predominava no Brasil em meados do século passado. A norma vigente valorizava as longas narrativas que dessem conta dos fatos estilizados do nosso desenvolvimento. 

A agenda de pesquisa da estranha FEA da USP, por sua vez, se propunha a formular, com base na teoria econômica, conjecturas precisas que pudessem ser submetidas ao escrutínio das técnicas disponíveis da econometria. As narrativas ambiciosas poderiam motivar temas de pesquisa, mas o trabalho de verdade começava com o levantamento dos dados e o uso das melhores técnicas de estimação disponíveis para verificar em que medida as teses sobreviviam aos dados disponíveis.

Antonio Delfim Netto formara-se técnico em contabilidade, o que na época permitia o acesso à Faculdade de Economia. Delfim foi assistente de Canabrava, e recorda-se das muitas horas pesquisando sobre notícias de escravos nos jornais do século 19. Foi também assistente de Bueno, com quem descobriu Marshall e a estatística.

Em 1959, Delfim defendeu a sua tese de livre docência sobre a Indústria Cafeeira no Brasil. Este trabalho surpreendente e cuidadoso sistematiza os dados sobre a evolução da produção de café e os impactos das intervenções do poder público para valorizar o preço do café.

De boas intenções o inferno está cheio, parece ser o subtítulo do trabalho magistral de Delfim.  Durante a República Velha, o poder público sistematicamente interveio para garantir a renda dos cafeicultores. Mesmo após a Revolução de 1930, o governo Vargas comprou sacas de café para serem destruídas, atenuando a queda da remuneração dos produtores locais e diminuindo o efeito do excesso de oferta sobre o seu preço no mercado internacional.

O resultado foi um tiro no pé. Os preços relativamente elevados do café durante décadas, graças à intervenção cara aos cofres brasileiros, terminaram por manter no mercado produtores ineficientes e por valorizar a taxa de câmbio, desestimulando o desenvolvimento da indústria local, além de estimular o aumento da produção e os ganhos de produtividade em outros países. A relevância das exportações de café tornara o nosso governo refém dos interesses imediatos desses produtores, que acabaram por ser revelar deletérios para o país no longo prazo. 

Nos anos seguintes, Delfim, atento às novas pesquisas da academia internacional, estudou os modelos de crescimento econômico inspirados nos argumentos de Keynes na Teoria Geral; tema, em 1963, da sua tese para a Professor Catedrático de Teoria do Desenvolvimento Econômico.

Superar o atraso passava pela expansão dos setores modernos da indústria. Delfim alertava à época, porém, que o crescimento econômico poderia resultar em crises nas contas externas em decorrência do aumento das importações, como analisou em seu artigo com Nathaniel Leff, publicado no Journal of Development Studies em 1966.

Aumentar a produtividade da agricultura, diversificar e ampliar as exportações brasileiras permitiriam enfrentar os recorrentes problemas nas contas externas, reduziria a dependência do café e estimularia o crescimento econômico.

A relevância do desenvolvimento da agricultura nos trópicos fora sugerida a Delfim uma década antes por Eugênio Gudin durante um seminário na Associação Comercial de São Paulo. Gudin comentou o seu ceticismo sobre a política defendida por JK de estimular a produção industrial. 

“Produzir carros é fácil”, disse Gudin, segundo lembra Delfim. “Basta desmontar 1000 carros e remontá-los para que qualquer país aprenda a produzi-los eficientemente”. “O desafio é domar a agricultura tropical, o que ninguém fez até agora”.

Delfim explicou-me a razão do desafio. “Nas zonas temperadas, o frio do inverno destrói as pragas, o que não ocorre nos trópicos”. Além disso, havia problemas no solo em diversas regiões do país, que dificultavam o desenvolvimento da agricultura, e as plantações das zonas temperadas não se adaptavam bem por aqui.

Na época, já existiam diversos institutos públicos dedicados à pesquisa científica para melhorar a produtividade agrícola no Brasil, como o Instituto Agronômico de Campinas e a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, a ESALQ, que já pertencia a USP. Essas instituições se beneficiavam da imigração de muitos professores europeus após a Segunda Guerra Mundial. Além disso, Nelson Rockfeller e a Fundação Ford financiavam programas para desenvolver a produtividade da agricultura no Brasil.

A baixa produtividade da agricultura era atribuída a falta de acesso dos agricultores às tecnologias modernas de produção. Por essa razão, optou-se por adotar o modelo de extensão rural utilizado nos Estados Unidos, que levava técnicos para auxiliar os agricultores no manejo da sua produção.

No fim dos anos 1960, porém, Eliseu Alves, que se especializava em economia agrícola, documentou em sua tese de mestrado que o modelo de extensão rural fracassara em aumentar a produtividade da produção agrícola. O problema não parecia ser o pouco acesso às técnicas disponíveis, mas sim a falta de conhecimento para lidar com os desafios da agricultura tropical.

Nesse período, Affonso Pastore conheceu Eliseu e o convidou para implementar o curso de economia rural na USP.

Na década que se seguiu, Eliseu Alves e Pastore produziram diversos trabalhos acadêmicos documentando os dados sobre o impacto da política econômica na produtividade e na expansão da agricultura desde o começo do século. Na contramão da visão dominante, ambos defendiam que a produtividade da agricultura e as inovações técnicas eram induzidas pelas condições de mercado. Além disso, parte das dificuldades na agricultura decorria de uma política econômica que penalizava as exportações.

Dois de seus artigos merecem destaque: “Inovação induzida e os limites à modernização da agricultura brasileira”, escrito com Juarez Rizzieri e publicado na Revista de Economia Rural em 1974, e “Import substitution and implicit taxation of agriculture in Brazil”, publicado no American Journal of Agricultural Economics em 1978.

Em 1968, Delfim Netto tornou-se ministro da Fazenda, passando a apoiar a pesquisa para expandir a produção na agricultura e a diversificação da pauta de exportações. 

Cinco anos depois, o jovem ministro da Agricultura do governo Médici, Luiz Fernando Cirne Lima, organizou um grupo de trabalho para identificar as razões da baixa produtividade da produção agrícola no Brasil. Esse grupo foi liderado pelo sociólogo José Pastore e dele participaram Eliseu Alves, Carlos Langoni, Affonso Pastore, entre outros.

A conclusão foi de que havia falta de técnicas adequadas para o nosso clima. O governo deveria estimular a formação de pesquisadores nas melhores universidades do Brasil e do exterior. Em contato com os problemas específicos encontrados pelos agricultores nas diversas regiões, a pesquisa científica deveria identificar as vantagens comparativas locais e as intervenções necessárias para aumentar a produtividade. 

O resultado foi a criação da Embrapa em 1973. José Irineu Cabral foi escolhido para presidir a empresa, liderando a sua implementação. Eliseu Alves tornou-se o diretor responsável pelo programa de concessão de bolsas de estudos para pós-graduação, mais de 2 mil em 12 anos, boa parte no exterior.

Criticado pelo tamanho do programa, Eliseu comentava: “Formar técnicos é como dar tiro de cartucheira, um grão de chumbo vai atingir a caça”. A cartucheira libera muitos pedaços chumbo que se espalham na direção do tiro, sendo improvável que um deles não atinja o alvo. Com tantos técnicos sendo treinados, era inevitável, acreditava Eliseu, que alguns deveriam se tornar pesquisadores relevantes para modernizar a nossa agricultura.

O fim dessa história é bem conhecido. Novas técnicas de produção permitiram a expansão da agricultura tropical, como a inesperada produção de soja no Centro-Oeste e do café no cerrado de Minas Gerais. 

Nas décadas seguintes, a produtividade da agricultura brasileira aumentou mais de 3% ao ano, permitindo o barateamento dos alimentos e a diversificação da pauta de exportações. Entre fevereiro de 1976 e agosto de 2006, o custo da cesta básica caiu 3,12% ao ano, apenas umas das informações surpreendentes da detalhada radiografia realizada por Eliseu Alves e seus coautores em “Fatos marcantes da agricultura brasileira”, publicada em 2013.

Em sua passagem pelo ministério da Fazenda, Delfim teve o mérito de implementar uma agenda para expandir o crescimento e a diversificação da nossa pauta de exportações por meio do aumento da produtividade, como a maior abertura à importação de peças e de equipamentos para a produção de bens, dando continuidade à política iniciada em 1964 que eliminou as taxas múltiplas de câmbio e simplificou as regras de comércio exterior.

Delfim também cometeu diversos equívocos, comuns, à época, inclusive em países desenvolvidos, como os controles de preços para combater a inflação, além de expandir demasiadamente os subsídios para diversos setores em meio ao descontrole das contas públicas.

No desastroso governo Geisel que se seguiu, as lideranças trocaram os alhos por bugalhos. Fecharam a economia ao comércio exterior, distribuíram incentivos para investimentos do setor privado e das estatais que se revelaram pouco produtivos, aumentaram o endividamento externo e ampliaram os desequilíbrios fiscais.

O resultado foi uma imensa crise, com inflação crescente e anos de economia cambaleante, apenas interrompida no começo da década de 1990 com a abertura promovida pelo governo Collor e o ajuste fiscal que permitiu o Plano Real em meio às idiossincrasias do presidente Itamar Franco.

Affonso Celso Pastore foi assistente de Canabrava e de Bueno, além de aluno de Delfim. Contrariando os seus 80 anos, o senhor italiano de corpo grande e gestos gentis demonstra uma vitalidade juvenil ao analisar os dados de crescimento acelerado dos preços dos ativos nos principais países em tempos de juros baixos e pouca expansão da economia.

Em conversa recente, Pastore comentou comigo o seu temor de que estejamos em meio a uma bolha na economia mundial prestes a estourar. O seu entusiasmo com a análise da economia, em meio ao seu respeito quase religioso aos dados e ao estudo das novas técnicas da econometria, retira o fôlego dos mais jovens.

Conheço Affonso há duas décadas e sempre me surpreendo com a sua integridade. O que vale é o que os dados dizem, mesmo que o resultado seja desapontador. A sua ética na vida privada em nada difere do seu respeito pelas evidências. Como Canabrava, Pastore não admite transgressões com a análise dos dados, nem com a ética.

Pastore começou a aprender econometria com Bueno e seus primeiros trabalhos utilizavam com extremo cuidado as estimativas de séries de tempo então disponíveis. Não havia ainda os testes de causalidade de Granger, nem as análises de cointegração. Sabedor dos problemas, ele tentava, por meio de análises que parecem intermináveis, verificar a correção das conclusões.

Errar faz parte das regras do jogo da pesquisa acadêmica. Não reconhecer erros e parar de estudar, porém, são pecados capitais.

Nos anos que se seguiram, Pastore aprendeu por conta própria as novidades da econometria. Atualmente, ele se dedica a saber em que medida as conclusões do passado sobrevivem aos novos instrumentos de estimação, trabalhando em um novo livro que utiliza as bases de dados agora disponíveis e as novas técnicas para verificar se os seus argumentos do passado ainda sobrevivem.

A sua tese de doutorado revela muito da velha USP e da obstinação de Pastore.

Na época, o pensamento econômico no Brasil, como na maioria do resto do mundo, achava que a agricultura era herança indesejada do passado. O setor atrasado não reagiria a preços, que podiam aumentar ou diminuir sem que isso influenciasse a quantidade produzida de alimentos. Haveria excesso de trabalhadores no campo, em boa parte improdutivos.

Alguns economistas defendiam que seria possível reduzir a população no campo em até 25% sem que isso afetasse a produção de alimentos. A migração dos trabalhadores do campo para as cidades iria torná-los mais produtivos pois passariam a trabalhar na indústria.

Desde os anos 1940, porém, Theodore Schultz discordava da tese dominante. Embasado por muitos estudos microeconômicos repletos de dados, ele demonstrou que a agricultura reagia aos preços de mercado como os demais setores da economia. Mais ainda, Schultz criticou a tese de que a agricultura dos países pobres tinha trabalhadores em excesso, improdutivos. A solidez do seu argumento surpreende meio século depois.

A boa estatística requer testar hipóteses por meio de grupos de controle, verificando-se o que ocorreria em casos assemelhados, a menos da mudança de um único fator. Na medicina moderna, um grupo homogêneo de pessoas é separado aleatoriamente em dois grupos; um recebe a droga, o segundo recebe placebo. Assim, pode-se estimar o impacto da droga sobre os pacientes.

Esses experimentos nem sempre são possíveis na economia. Nas últimas décadas, testes semelhantes passaram a ser feitos na microeconomia, mas em muitos casos importantes isto não é possível, como na macroeconomia. Por isso, a agenda de pesquisa da econometria tem sido desenvolver técnicas para simular os grupos de controle para testar conjecturas.

Eventualmente, porém, as circunstâncias permitem testar conjecturas como nos experimentos. Acidentes inesperados afetam comunidades de forma diferente, permitindo realizar os testes desejados.

No começo dos anos 1960, Schultz observou que a gripe espanhola tinha resultado em mortalidade variada nas diversas regiões da Índia no fim da década de 1910. Essa doença devastadora matou parte da população, muitas vezes entre 4% e 8%, mas não deixou sequelas na população sobrevivente, nem nos animais ou nas plantas. Passada a epidemia, restou apenas uma população menor, e muita dor pelos entes que se foram.

Comparando os dados nos anos anteriores e posteriores à devastação provocada pela epidemia, porém, Schultz constatou que a produção agrícola caiu na mesma proporção da redução da população. Ao contrário da tese até então dominante, não havia trabalhadores em excesso na agricultura. Quanto maior a mortalidade de trabalhadores rurais, maior a queda da produção de alimentos.

Os economistas da USP nos anos 1960 tinham uma agenda de pesquisa semelhante à de Schultz. Em meados dos anos 1960, Delfim liderou um grupo de pesquisa sobre a economia agrícola no Brasil. Seria verdade que a produção de alimentos não reagiria aos preços? Em que medida haveria excesso de trabalhadores no campo?

Pastore fez parte desse grupo de pesquisa que, com base em dados agregados, mostrou que a tese dominante parecia pouco robusta. Aparentemente, a produção agrícola reagiria aos preços de mercado como qualquer outro setor.

Pouco anos antes, Delfim havia apresentado a Pastore o trabalho de Karl Popper, o filósofo austríaco que fizera uma proposta para demarcar a fronteira entre a metafísica, os argumentos que se justificam por si só, e a ciência, onde as conjecturas devem ser avaliadas pela sua capacidade de dar conta dos dados.

Teses bem definidas, segundo Popper, devem delimitar as condições em que podem ser desmentidas pelos fatos. Não se trata de poucos requerimentos. Cabe a quem propõe a conjectura definir precisamente as condições de contorno e os resultados esperados.

Em 1968, Pastore pediu dispensa do seu cargo no ministério da Fazenda para verificar se a tese de que a produção agricultura não responderia aos preços de mercados seria válida no Brasil. O italiano sabia de Popper, graças a Delfim, da econometria, que aprendera com Bueno, e do cuidado com os dados e as evidências, que herdara de Canabrava.

Como se fosse pouco, Pastore estudara os trabalhos de Schultz e as novas técnicas da econometria, para além do que lhe ensinara Bueno. Durante uma temporada nos Estados Unidos, conversou com Arnold Haberger sobre os resultados preliminares da sua pesquisa, que resultou em um convite para apresentá-los no seminário de economia latino-americana na Universidade de Chicago.

O resultado foi a sua tese de doutorado que revelou o equívoco dos velhos argumentos desenvolvimentistas. A agricultura reagia aos preços de mercado, concluiu Pastore em sua tese defendida em 1969, embasado por imensa evidência empírica.

Nos anos seguintes, Pastore se dedicou a estudar a política monetária com o mesmo rigor que se dedicara ao tema da agricultura. Seus artigos cuidadosos com os dados e os testes estatísticos revelaram os equívocos das teses tradicionais sobre o processo inflacionário no Brasil. Samuel Pessôa e eu escrevemos um artigo que sistematiza a sua impressionante contribuição para o pensamento econômico brasileiro (https://www.insper.edu.br/noticias/acesse-artigo-publicado-por-samuel-pessoa-e-marcos-lisboa/).

O surpreendente departamento de economia da USP formou economistas notáveis, mas, corpo estranho na nossa academia, acabou sucumbindo à tradição dominante de muitas narrativas e pouca análise empírica. Para piorar, tornou-se mais uma vítima do desconhecimento da pesquisa em economia nos demais países.

Na década de 1970, haviam poucos economistas formados em outras escolas que tratavam com rigor a evidência empírica, como Carlos Langoni, e seus monumentais estudos sobre o impacto da educação sobre a renda das pessoas, e Edmar Bacha. Affonso e Edmar protagonizaram controvérsias, um deles comentado no meu artigo com Samuel, que exemplificam o que de melhor a academia pode oferecer: o debate sobre a análise cuidadosa da evidência que permite identificar erros, corrigir os argumentos e obter resultados mais robustos.

Foram precisos muitos anos para que a pesquisa em economia na academia brasileira resgatasse a análise cuidadosa dos dados para testar conjecturas e formular propostas para a política pública.
Durante esse longo período, Pastore, discípulo de Canabrava, permaneceu na trincheira. O italiano continuou a utilizar as melhores técnicas disponíveis para analisar a nossa economia, além de cuidar da formação de novos economistas.

Tenho por Affonso respeito e admiração. O professor grandalhão com bigode curto e ética impecável, não para de estudar, não desiste do Brasil e não foge do debate. Eu fui seu aluno tardio. Pastore ensinou-me, por meio do seu exemplo, o que se espera de quem anseia ter o privilégio de servir ao público.

Muito obrigado, Affonso. Parabéns pelos 80 anos.

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