Fundos aceleram aportes em startups mesmo com crise

Grandes gestores, como Softbank e TCV, devem levar a novo salto no mercado

Filipe Oliveira
S√£o Paulo

Alheio à lenta retomada da economia, o mercado para investimentos em startups segue em expansão.

O setor partiu de um total investido pelos fundos de venture capital (capital de risco) de R$ 1,2 bilh√£o em 2015 e deve chegar a R$ 6,8 bilh√Ķes neste ano, segundo dados da ABVCAP (associa√ß√£o que re√ļne fundos do tipo). A base de compara√ß√£o pequena ajuda na alta acelerada do setor.

Pedro Sirotsky Melzer, s√≥cio da gestora e.Bricks, diz ver esse avan√ßo como resultado da matura√ß√£o do mercado, de um lado, e da queda de juros b√°sicos da economia, por outro. A taxa Selic era 14,25% ao ano em 2015 e agora est√° em 6%, com perspectiva de novas redu√ß√Ķes e de que esse patamar historicamente baixo permane√ßa por algum tempo.

Segundo o executivo, quando ele iniciou neste mercado, no início da década, não era claro se profissionais talentosos iriam se interessar por abrir startups. Agora, após casos de sucesso como 99, Nubank e Gympass, o mercado já se mostra atraente para executivos bem qualificados, diz.

Pedro Sirotsky Melzer, da gestora e.Bricks - Karime Xavier/Folhapress

Daniel Chalfon, s√≥cio da gestora Astella, diz que a queda dos juros faz com que grandes investidores sejam levados a procurar investimentos alternativos, de longo prazo e com menos possibilidade de resgate antecipado. Essas condi√ß√Ķes tendem a ampliar o potencial de retorno.

O patamar dos investimentos no Brasil também mudou, principalmente em 2019, com a chegada do grupo japonês Softbank ao mercado.

Em poucos meses, a companhia fez grandes aportes nas empresas Loggi (US$ 150 milh√Ķes ou R$ 621 milh√Ķes) e Gympass (US$ 300 milh√Ķes ou R$ 1,2 bilh√£o). J√° o Nubank recebeu US$ 400 milh√Ķes (R$ 1,7 bilh√£o) do fundo americano TCV, primeiro deles no Brasil.

"Antes, quando um empres√°rio recebia uma proposta de R$ 100 milh√Ķes, ele vendia sua empresa. Agora, h√° a possibilidade de permanecer no neg√≥cio por mais tempo e buscar um crescimento maior", diz Chalfon, que est√° no mercado desde 2008.

Humberto Matsuda, conselheiro da ABVCAP, diz que os fundos estrangeiros v√™m se interessando pelo Brasil porque, nos √ļltimos anos, foi constru√≠da uma estrutura de investimentos para iniciar neg√≥cios no pa√≠s. Isso permitiu que startups brasileiras alcan√ßassem um tamanho atrativo para investidores internacionais. 

Pequenos investidores, porém, também são atraídos pela possibilidade de aplicar dinheiro em empresas novatas. Para eles, o caminho são plataformas que permitem aportes a partir de R$ 100.

Reguladas pela CVM desde 2017, existem 24 plataformas que oferecem o serviço, que inclui seleção das startups, disponibilização de suas propostas e apoio no relacionamento após o investimento.

O valor captado por meio desses servi√ßos foi de R$ 12,8 milh√Ķes em 2017 para R$ 46 milh√Ķes no ano passado.

Assim como grandes investidores penam para conseguir fazer o dinheiro render, o pequeno poupador também busca alternativas em cenário de juros baixos.

A ideia das plataformas √© permitir o acesso de pessoas comuns a aplica√ß√Ķes em startups, mesmo que elas tenham valores baixos para investimento nesse mercado. Na Organismo Brasil, por exemplo, √© poss√≠vel aplicar R$ 100.

Wesley Café Calazans, 22, formado em arquitetura, investiu em quatro startups a partir da plataforma Kria, usando parte do dinheiro que ganhou como estagiário.

Em cada aplicação foram R$ 500, que também é o valor mínimo exigido na plataforma. Entre seus investimentos estão uma fintech (empresa que usa tecnologia para inovar no setor financeiro), na própria Kria e um bar especializado em cervejas artesanais.

Ele diz que se interessou por investimentos em novas empresas por ter visto que muitas startups têm crescido e se valorizado, o que permitiria um bom retorno para quem colocou dinheiro nelas no início.

 

"Como dá para investir com pouco, sem se arriscar tanto, acho legal. Coloco sempre o valor mínimo, para diversificar, pois sei que elas correm o risco de falir", diz.

Brian Begnoche, sócio da plataforma de investimentos EqSeed, diz que a maior parte dos investidores são empresários que já tiveram sucesso em outras empresas, profissionais do mercado financeiro e executivos que usam o investimento em startups para conhecer sobre inovação em seus setores de atuação.

Segundo especialistas, startups são investimento de risco e devem ocupar apenas uma pequena fração do portfólio de investimentos.

Isso porque há o risco de que o investidor perca o que aplicou, caso a empresa não dê certo. Há também a dificuldade de repassar a participação na empresa a outro investidor, caso precise do dinheiro.

Em geral, ganha-se nesse mercado quando um fundo de investimento ou uma empresa grande compra a√ß√Ķes da startup, o que costuma levar anos.

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