Contra corrida cambial, Argentina levanta controles e limita compra de dólares

Aquisição da moeda terá que passar por autorização do Banco Central do país

Sylvia Colombo Mariana Carneiro
Buenos Aires

Esta segunda-feira (2) promete ser agitada nos bancos da capital argentina, Buenos Aires, que se preparam para uma forte procura por dólares e muita confusão após o governo ter decretado, neste domingo (1º), limites no mercado de câmbio.

Segundo as novas regras, as pessoas físicas serão limitadas a comprar ou transferir para contas no exterior até US$ 10 mil por mês.

Os exportadores terão de retornar ao país as divisas que resultem de vendas no exterior em até cinco dias após receber ou em até seis meses após o embarque.

O governo também decidiu centralizar o câmbio, determinando que o acesso a dólares, metais e transferências ao exterior sejam feitos apenas com autorização prévia do banco central. As medidas anunciadas neste domingo se somam à restrição, levantada na última sexta (30), de bancos remeterem resultados ao exterior, num primeiro sinal de que mais ações para o limitar o acesso a dólares seriam implementadas. 

Dessa maneira, o presidente Mauricio Macri retoma parte dos controles que vigoraram na Argentina até o fim do mandato da ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), que disputa a eleição presidencial no mês que vem como vice na chapa opositora e é franca favorita à vitória.

Desde a última quarta-feira (28), quando o governo decretou moratória parcial de sua dívida interna, a cotação do dólar em pesos escalou, aprofundando a crise financeira que se instalou desde as eleições primárias do último dia 11 de agosto.

A chapa opositora, que é liderada pelo peronista Alberto Fernández, apareceu virtualmente vitoriosa já no primeiro turno.

Embora Fernández tenha se comprometido em evitar um default da dívida do país, há desconfiança sobre como os peronistas conduzirão a frágil situação financeira da Argentina —cuja dívida pública alcança 90% do PIB e roda com uma inflação acima de 50% ao ano.

Neste contexto, argentinos buscaram refúgio no dólar e forçaram a cotação do dólar para cima. As reservas do banco central encolheram quase US$ 9 bilhões entre a eleição primária e a última quarta-feira (28), segundo dados oficiais. 

Com a sangria, economistas passaram a contar os dias para as reservas em poder do banco central chegar ao limite. O BCRA teria em caixa cerca de R$ 56 bilhões, porém menos de US$ 20 bilhões seriam de ativos de liquidação imediata, segundo analistas, ou seja poderiam ser acionados imediatamente.

Nesta segunda-feira, agências bancárias deverão funcionar duas horas a mais, para dar conta do movimento, e terão de pôr em prática as novas regras vigentes.

Argentinos costumam fazer poupança em dólar, tanto por meio de aplicações denominadas em moeda estrangeira quanto em escaninhos privados mantidos em agências bancárias, onde são guardados dólares em espécie. Por essa razão, existe uma demanda por dólares em papel na boca do caixa.

Durante o sábado (1º), casas de câmbio já ficaram movimentadas na capital argentina. Não havia filas, mas muitas sucursais no Centro, na Recoleta e em Palermo estavam cheias até o meio da tarde. Nas rodas de conversa, a incerteza sobre o dólar nesta segunda era tema recorrente.

As mudanças no câmbio pegam em cheio um dos setores econômicos que mais apoiaram o atual presidente Mauricio Macri. 

Até 2017, os exportadores tinham que retornar com a moeda estrangeira para o país em até 30 dias. Macri derrubou estes controles, como prometera na campanha eleitoral. Agora, volta a impor as regras, dado o contexto de escassez de divisas às portas da eleição presidencial, cujo primeiro turno ocorre dia 27 de outubro.

Em meio à incerteza econômica e política, o grupo empresarial Idea (do espanhol Instituto para el Desarrollo Empresarial de la Argentina, ou Instituto para o Desenvolvimento Empresarial da Argentina, em tradução livre), que reúne líderes de grandes grupos industriais como o Techint (que no Brasil controla a Usiminas), lançou um manifesto neste sábado pedindo um acordo entre Macri e a oposição para amainar a crise financeira. 

No comunicado, os empresários afirmam que a falta de diálogo levou o país a crises recorrentes, com efeitos cada vez mais negativos sobre a sociedade argentina.

Empresários e economistas vêm cobrando com mais intensidade que a chapa opositora abra conversas com o governo para alcançar uma solução conjunta, muito embora ainda faltem quase dois meses para o primeiro turno da eleição.

“Acreditamos que é muito importante que os dois principais candidatos, acompanhados dos dirigentes políticos e sociais de todos os setores, criem os espaços necessários para acordar as principais ações a serem adotadas neste momento até as eleições e o início do próximo governo”, afirmou a entidade.


Quanto custa a Argentina?

  • Café – US$ 1,61
  • Alfajor – US$ 0,48
  • Suco – US$ 2,41
  • Gasto mínimo de uma refeição – US$ 8,05
  • Taxi do bairro da Recoleta para o centro de Buenos Aires – US$ 2,90
  • Salário mínimo – US$ 201
  • Salário do presidente Mauricio Macri – US$ 4.320

Acima de 50%
é inflação anual argentina

Hoje uma refeição para duas pessoas em um restaurante de Palermo, sem bebida alcoólica, não sai por menos de 1.800 pesos​

Há poucas semanas, por 1.200 pesos era possível comer bem e tomar uma garrafa de vinho entre duas pessoas

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