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Escritório comunitário exclusivo para mulheres faz sucesso em Tel Aviv

Lançado em fevereiro por três empresárias israelenses, Panthera funciona também como incubadora e aceleradora de negócios

Daniela Kresch
Tel Aviv

Empreendedoras, uni-vos! Para três mulheres israelenses, o apelo feminista se traduziu na criação de um espaço de trabalho coletivo dedicado a mulheres.

Localizado no centro de Tel Aviv, o Panthera, que abriu as portas em fevereiro, é um escritório comunitário que funciona também como incubadora e aceleradora de negócios, além de oferecer um ambiente de socialização e networking. A ideia é mudar a realidade atual no país conhecido como “Startup Nation” em meio à realidade: mulheres detêm apenas 1,3% dos bens de capital em todo o mundo.

Em meio a escritórios coletivos que pipocam no país —cobrando mensalidade pela utilização do espaço e das instalações a empreendedores e startupistas—, o Panthera foi criado pelas empresárias israelenses Galit Ben Simhon, Limor Dahan and Shani Burstein para estabelecer um ambiente profissional onde mulheres se sintam confortáveis para focar o crescimento de seus negócios e dividam, com outras, seus sucessos e desafios.

A maior singularidade do Panthera é que só mulheres podem alugar escritórios ou ser membros. No caso de empresas, só as que tiverem mulheres como líderes ou na diretoria podem trabalhar no local. Homens podem entrar só se forem sócios ou convidados. Alguns reclamam que se trata de discriminação. Mas as fundadoras do Panthera não se incomodam com as críticas.

Galit Ben Simhon, CEO e fundadora do Panthera
Galit Ben Simhon, CEO e fundadora do Panthera - Divulgação

“Não pedimos desculpas a ninguém. Mulheres, em geral, têm menos capital e menos influência. Acabam ficando na pobreza. A única maneira pela qual elas podem mudar essa situação é tendo seus próprios negócios”, afirma Galit Ben Simhon, CEO e fundadora, que foi executiva em grandes firmas.

“Pequenas e médias empresas enfrentam dois grandes problemas: habilidades de gerenciamento prático e networking, conexões. No caso das mulheres, é ainda pior. Elas têm menos conexões e modelos de inspiração”, completa Galit, que, com as sócias, levantou US$ 1,7 milhão em investimento para a iniciativa.

O escritório de mil metros quadrados do Panthera tem uma arquitetura contemporânea voltada para o feminino, mas sem frufrus.

As cores são fortes, mas sisudas —nada de rosinha ou azul bebê. Há escritórios para membros (o preço varia de acordo com o tamanho) e espaços comunitários, como salas de reunião, um bar e um espaço de happy hour, onde a estátua de uma pantera negra é o foco e as mulheres sentam em círculo.

“Ajudamos as mulheres ao agrupá-las como numa tribo acestral”, explica Galit. “É como em uma aldeia, na qual anciãos dividiam sua sabedoria em volta da fogueira.”

As fundadoras oferecem coaching profissional, ajudando profissionais, startups e pequenas empresas. Lá, as necessidades femininas estão acima de tudo. A próxima das cinco filiais planejadas, por exemplo, terá uma creche para crianças até 3 anos de idade.

“Mulheres têm que, em geral, se adaptar aos comportamentos masculinos no mundo empresarial. Mas, quando um grupo de mulheres cria ou avança dentro de uma empresa, elas podem mudar o sistema”, afirma Galit, para a qual a revolução feminista do último meio século somente criou ainda mais trabalho para as mulheres, que acumulam carreira e os tradicionais trabalhos domésticos.

Ela afirma que empresas ainda dão importância ao relógio de ponto e à quantidade de horas trabalhadas.

Aquelas reuniões quase intermináveis que só acabam tarde também são complicadas para mulheres com filhos, principalmente mães solteiras, que acabam tendo que buscar empregos de meio expediente com salários menores. O foco deveria ser produtividade, a eficiência e a realização de tarefas.

A advogada e notária brasileira Silvia Brand, concorda. Ela é membro do Panthera há alguns meses e mantém um escritório no local, onde pode receber clientes e assistir palestras, participar de cursos, seminários, workshops, eventos e até mesmo shows de música e stand-up no bar.

“A ideia aqui é potencializar, alavancar a carreira da mulher. É quase um Clube da Luluzinha, onde temos cursos nas áreas financeira, imobiliária e de investimentos”, conta Silvia, que também é diretora executiva da Câmara de Comércio e Indústria Israel-Brasil.

Em Israel, reconhecido como um país voltado para o high tech, as mulheres representam apenas 26,1% dos trabalhadores da indústria de alta tecnologia, segundo dados do Ministério da Economia. Outro relatório, do centro de pesquisa IVC, informa que só 7% das startups israelenses —entre 2000 e 2017— foram fundadas ou cofundadas por mulheres.

De acordo com o estudo americano “Mulheres no Mercado de Trabalho 2018”, da consultoria McKinsey, os fatores que afetam as mulheres incluem a falta de acesso à rede de ensino, a falta de modelos inspiracionais e o papel contínuo do gênero no processo de promoção interno das empresas.

No Brasil, o papel das mulheres dentro de empresas também é limitado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), por exemplo, apenas 9% dos assentos em Conselhos de Administração são ocupados por mulheres.

“Quando a gente pergunta por que não existem mais mulheres em conselhos, recebemos a resposta de que há poucas mulheres que pode assumir esse tipo de posição”, afirma Valéria Café, diretora de Vocalização e Influência do IBGC.

“Mas já existem mulheres muito profissionais, que ascenderam bastante em suas carreiras, que são empreendedoras, presidentes e diretoras de empresas, que podem assumir um conselho.”

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