Bradesco diz que se preocupa mais com big techs do que com fintechs

Para Octavio Lazari, se Amazon, Facebook e Google entrarem no setor, sistema financeiro trava

Eduardo Cucolo
São Paulo

O presidente do Bradesco, Octavio Lazari, afirmou nesta sexta-feira (11) que a implementação do open banking no Brasil é inevitável, mas que é necessário tomar alguns cuidados, citando, entre eles, a regulação da relação entre instituições financeiras e grande empresas de tecnologia.

Ele citou a possibilidade de uma empresa de tecnologia que faça a consulta de informações bancárias em várias instituições financeiras, o que poderia trazer problemas devido ao volume de tráfego de dados, a depender do tamanho do número de clientes.

“Sempre que o pessoal pergunta, ‘Octavio, você tem medo das fintechs?, eu digo, ‘não, eu tenho medo das big techs”, afirmou.

Logo das gigantes de tecnologia, Amazon, Apple, Google e Facebook
Logo das gigantes de tecnologia, Amazon, Apple, Google e Facebook - Reuters

“Vamos imaginar que a Amazon resolve entrar nesse mercado, que o Facebook, o Google pretenda entrar nesse mercado. Imagine os milhões de clientes que eles têm. Imagine esses clientes, todos juntos, a cada 5 minutos, entrando no sistema do Bradesco, do Itaú, do Santander, seja do banco que for, para poder consultar essas informações. Você sabe o que acontece com o sistema financeiro nacional? Para. Trava”, afirmou durante debate no Fórum de Investimentos Brasil 2019 sobre democratização do sistema financeiro.

“É muito mais que um ataque cibernético. Por isso que eu falo que tem de ter cuidado”, disse Lazari, ao explicar que defende uma tarifa entre as instituições para cobrir os custos de investimento em sistemas tecnológicos.

O presidente do Bradesco afirmou que a tarifa não deve bater no consumidor final, mas ser cobradas entre os agentes. 

“Além de o investimento ser colossal, todos os dias a gente sofre ataques cibernéticos de grandeza incomensurável. As barreiras de firewalls para proteger o banco e os dados dos seus clientes são incomensuráveis. É um investimento tecnológico muito grande. E precisa ter validação. Quem vai poder entrar e coletar dados de outras instituições, dado o caráter dos crimes cibernéticos que a gente está vendo?”, afirmou.

O presidente da Creditas, Sérgio Furio, disse que, qualquer cobrança de tarifa, mesmo que entre as instituições bancárias, impacta o consumidor final e que não faz sentido tarifar um investimento que já é necessário por conta de outros serviços prestados pelo banco.

“Todos nós temos de fazer um investimento enorme para nos adequar a esse novo mundo. O investimento de um banco grande e de uma fintech pequena às vezes pode ser similar. Temos de dar a mesma segurança dos bancos que investiram durante décadas em tecnologia. Quem mais sofre é a empresa pequena. Não faria sentido começar a cobrar tarifas dos clientes contra crimes cibernéticos”, afirmou.

Furio disse que esses são dados dos clientes, não dos bancos. “O que estamos tentando fazer com o openbank é que os clientes tenham acesso a informações que já são deles e não acho que cobrar tarifas seja um jeito de andar para a frente.”

Competição

Em um debate com representantes de novas instituições financeiras, o presidente do Bradesco afirmou que a concentração bancária que existe hoje não significa falta de competição, principalmente neste momento de entrada de novas empresas no mercado.

Ele ressaltou a importância dos bancos no trabalho de bancarização da população nos últimos 80 anos e disse que, em todas as crises financeiras que o mundo viveu, principalmente nas últimas duas décadas, as grandes instituições tiveram musculatura suficiente para sobreviver.

“Há 25 anos, tínhamos mais de 250 bancos, mas era muito tranquilo”, afirmou.

Sobre as dificuldades na nova realidade de mercado, disse que o Bradesco é uma grande corporação, mas que cada linha de negócios tem a sua independência. Citou ainda alguns pilares de atuação, como a transferências de novas tecnologias entre as empresas do grupo e o investimento no banco digital Next, que está próximo de alcançar 2 milhões de clientes, sem desprezar o legado da corporação.

“A gente está muito bem posicionado para essas discussões, aprendendo com as fintechs, investindo em fintechs”, disse. 

“Os bancos incumbentes também estão se preparando para uma nova forma de fazer negócios. Vai diminuir a rentabilidade dos bancos. Agora, isso não vai destruir os bancos que têm hoje uma posição importante no mercado. Essa abertura é sadia para nossa economia.”

Furio, da Creditas, e David Vélez, sócio-fundador do Nubank, afirmaram em suas apresentações que viram nos juros altos e nas dificuldades em abrir uma conta bancária no Brasil oportunidades para abrirem novos negócios e concorrerem com os bancos tradicionais.

Furio afirmou não ver oposição entre fintechs e bancos, mas que, se uma instituição como o Bradesco tivesse de começar hoje em dia, não começaria abrindo 3.000 agências.

Vélez disse que, após ouvir afirmações que não havia espaço para o crescimento de bancos digitais no país, por uma série de restrições, avaliou que não eram muitos os que enxergavam essa oportunidade de negócios.

Afirmou ainda que escolheu o cartão de crédito como porta de entrada no mercado financeiro, entre outros motivos, por ser um produto que permite à instituição avaliar melhor o perfil dos clientes.

“Uma das coisas que a gente vê de diferenciação no futuro, é que a gente quer ser o melhor do Brasil, o melhor do mundo, em utilizar dados para precificar risco, para precificar crédito, e o cartão de crédito é um produto excepcional para conseguir isso”, disse Vélez.

Ele afirmou que a meta de cinco anos era um milhão de clientes e que a empresa, com dois anos, já tem mais de 15 milhões (10 milhões em cartão).

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