Bradesco diz que se preocupa mais com big techs do que com fintechs

Para Octavio Lazari, se Amazon, Facebook e Google entrarem no setor, sistema financeiro trava

S√£o Paulo

O presidente do Bradesco, Octavio Lazari, afirmou nesta sexta-feira (11) que a implementa√ß√£o do open banking no Brasil √© inevit√°vel, mas que √© necess√°rio tomar alguns cuidados, citando, entre eles, a regula√ß√£o da rela√ß√£o entre institui√ß√Ķes financeiras e grande empresas de tecnologia.

Ele citou a possibilidade de uma empresa de tecnologia que fa√ßa a consulta de informa√ß√Ķes banc√°rias em v√°rias institui√ß√Ķes financeiras, o que poderia trazer problemas devido ao volume de tr√°fego de dados, a depender do tamanho do n√ļmero de clientes.

‚ÄúSempre que o pessoal pergunta, ‚ÄėOctavio, voc√™ tem medo das fintechs?, eu digo, ‚Äėn√£o, eu tenho medo das big techs‚ÄĚ, afirmou.

Logo das gigantes de tecnologia, Amazon, Apple, Google e Facebook
Logo das gigantes de tecnologia, Amazon, Apple, Google e Facebook - Reuters

‚ÄúVamos imaginar que a Amazon resolve entrar nesse mercado, que o Facebook, o Google pretenda entrar nesse mercado. Imagine os milh√Ķes de clientes que eles t√™m. Imagine esses clientes, todos juntos, a cada 5 minutos, entrando no sistema do Bradesco, do Ita√ļ, do Santander, seja do banco que for, para poder consultar essas informa√ß√Ķes. Voc√™ sabe o que acontece com o sistema financeiro nacional? Para. Trava‚ÄĚ, afirmou durante debate no F√≥rum de Investimentos Brasil 2019 sobre democratiza√ß√£o do sistema financeiro.

‚Äú√Č muito mais que um ataque cibern√©tico. Por isso que eu falo que tem de ter cuidado‚ÄĚ, disse Lazari, ao explicar que defende uma tarifa entre as institui√ß√Ķes para cobrir os custos de investimento em sistemas tecnol√≥gicos.

O presidente do Bradesco afirmou que a tarifa n√£o deve bater no consumidor final, mas ser cobradas entre os agentes. 

‚ÄúAl√©m de o investimento ser colossal, todos os dias a gente sofre ataques cibern√©ticos de grandeza incomensur√°vel. As barreiras de firewalls para proteger o banco e os dados dos seus clientes s√£o incomensur√°veis. √Č um investimento tecnol√≥gico muito grande. E precisa ter valida√ß√£o. Quem vai poder entrar e coletar dados de outras institui√ß√Ķes, dado o car√°ter dos crimes cibern√©ticos que a gente est√° vendo?‚ÄĚ, afirmou.

O presidente da Creditas, S√©rgio Furio, disse que, qualquer cobran√ßa de tarifa, mesmo que entre as institui√ß√Ķes banc√°rias, impacta o consumidor final e que n√£o faz sentido tarifar um investimento que j√° √© necess√°rio por conta de outros servi√ßos prestados pelo banco.

‚ÄúTodos n√≥s temos de fazer um investimento enorme para nos adequar a esse novo mundo. O investimento de um banco grande e de uma fintech pequena √†s vezes pode ser similar. Temos de dar a mesma seguran√ßa dos bancos que investiram durante d√©cadas em tecnologia. Quem mais sofre √© a empresa pequena. N√£o faria sentido come√ßar a cobrar tarifas dos clientes contra crimes cibern√©ticos‚ÄĚ, afirmou.

Furio disse que esses s√£o dados dos clientes, n√£o dos bancos. ‚ÄúO que estamos tentando fazer com o openbank √© que os clientes tenham acesso a informa√ß√Ķes que j√° s√£o deles e n√£o acho que cobrar tarifas seja um jeito de andar para a frente.‚ÄĚ

Competição

Em um debate com representantes de novas institui√ß√Ķes financeiras, o presidente do Bradesco afirmou que a concentra√ß√£o banc√°ria que existe hoje n√£o significa falta de competi√ß√£o, principalmente neste momento de entrada de novas empresas no mercado.

Ele ressaltou a import√Ęncia dos bancos no trabalho de bancariza√ß√£o da popula√ß√£o nos √ļltimos 80 anos e disse que, em todas as crises financeiras que o mundo viveu, principalmente nas √ļltimas duas d√©cadas, as grandes institui√ß√Ķes tiveram musculatura suficiente para sobreviver.

‚ÄúH√° 25 anos, t√≠nhamos mais de 250 bancos, mas era muito tranquilo‚ÄĚ, afirmou.

Sobre as dificuldades na nova realidade de mercado, disse que o Bradesco √© uma grande corpora√ß√£o, mas que cada linha de neg√≥cios tem a sua independ√™ncia. Citou ainda alguns pilares de atua√ß√£o, como a transfer√™ncias de novas tecnologias entre as empresas do grupo e o investimento no banco digital Next, que est√° pr√≥ximo de alcan√ßar 2 milh√Ķes de clientes, sem desprezar o legado da corpora√ß√£o.

‚ÄúA gente est√° muito bem posicionado para essas discuss√Ķes, aprendendo com as fintechs, investindo em fintechs‚ÄĚ, disse. 

‚ÄúOs bancos incumbentes tamb√©m est√£o se preparando para uma nova forma de fazer neg√≥cios. Vai diminuir a rentabilidade dos bancos. Agora, isso n√£o vai destruir os bancos que t√™m hoje uma posi√ß√£o importante no mercado. Essa abertura √© sadia para nossa economia.‚ÄĚ

Furio, da Creditas, e David V√©lez, s√≥cio-fundador do Nubank, afirmaram em suas apresenta√ß√Ķes que viram nos juros altos e nas dificuldades em abrir uma conta banc√°ria no Brasil oportunidades para abrirem novos neg√≥cios e concorrerem com os bancos tradicionais.

Furio afirmou não ver oposição entre fintechs e bancos, mas que, se uma instituição como o Bradesco tivesse de começar hoje em dia, não começaria abrindo 3.000 agências.

V√©lez disse que, ap√≥s ouvir afirma√ß√Ķes que n√£o havia espa√ßo para o crescimento de bancos digitais no pa√≠s, por uma s√©rie de restri√ß√Ķes, avaliou que n√£o eram muitos os que enxergavam essa oportunidade de neg√≥cios.

Afirmou ainda que escolheu o cartão de crédito como porta de entrada no mercado financeiro, entre outros motivos, por ser um produto que permite à instituição avaliar melhor o perfil dos clientes.

‚ÄúUma das coisas que a gente v√™ de diferencia√ß√£o no futuro, √© que a gente quer ser o melhor do Brasil, o melhor do mundo, em utilizar dados para precificar risco, para precificar cr√©dito, e o cart√£o de cr√©dito √© um produto excepcional para conseguir isso‚ÄĚ, disse V√©lez.

Ele afirmou que a meta de cinco anos era um milh√£o de clientes e que a empresa, com dois anos, j√° tem mais de 15 milh√Ķes (10 milh√Ķes em cart√£o).

Coment√°rios

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.