Descrição de chapéu Obituário Lázaro de Mello Brandão (1926 - 2019)

Brandão era o último sobrevivente dos tempos heroicos da Casa Bancária Almeida

Ex-presidente do conselho de administração do Bradesco morreu nesta quarta, aos 93 anos

Pedro Del Picchia
São Paulo

Simplicidade e criatividade —esta é a fórmula que Lázaro de Mello Brandão usava para descrever a razão do sucesso do maior banco privado brasileiro por meio século (de 1959 a 2009).

Brandão foi presidente executivo do Bradesco de 1981 a 1999, quando passou a presidir apenas o conselho de administração, função que já acumulava desde 1990 e de onde saiu em 2017. Desde então, presidia as holdings do banco.

O executivo morreu nesta quarta-feira (16), em São Paulo.

De fato, ele também era um homem simples e criativo, mas não se furtou a suar a camisa em jornadas de 12 horas diárias iniciadas antes da sete da manhã ao longo de seis décadas, inclusive, muitas vezes, aos sábados.

Nascido a 15 de junho de 1926 em Itápolis, Lázaro de Mello Brandão ingressou no Bradesco antes mesmo de Amador Aguiar, em 1942, nos tempos em que a instituição se chamava Casa Bancária Almeida e Cia., sediada na cidade de Marília, interior de São Paulo. Do modesto cargo de escriturário galgou, posto a posto, as funções de responsável por contas correntes, gerente, diretor, até chegar a vice-presidente da instituição.

Octavio de Lazari Junior (à dir), Luiz Carlos Trabuco (à esq.) e Lázaro de Mello Brandão ao centro - Egberto Nogueira - 5.fev.18/Folhapress

Na década de 80, foi escolhido a dedo pelo inventor do Bradesco e seu mestre declarado, o banqueiro Amador Aguiar, para sucedê-lo como presidente executivo. A partir de então, Aguiar ocupou a presidência do Conselho de Administração praticamente até morrer, em 1991.

Também neste posto Brandão sucedeu a Aguiar, mais tarde. Tinha no mestre um paradigma, mas ao contrário de Aguiar, que detestava festas, às vezes, em ocasiões especiais, arriscava um black tie.

Amador Aguiar, ao fundar o Bradesco, teve a ideia de fazer um banco em que seus executivos pudessem ser confundidos, pela simplicidade, com os correntistas. Lázaro Brandão cultivou esse estilo até no vestir-se. Considerava absolutamente certa a decisão de seu mentor de transferir o comando do Bradesco para Osasco, de modo que os principais executivos pudessem ficar longe dos problemas do dia a dia das agências e arquitetarem os grandes negócios que transformariam a modesta casa bancária na atual potência financeira.

Fidelidade

A vida profissional de Brandão reflete a própria história do banco e sua fidelidade absoluta a Amador Aguiar levou-o a ser conhecido por muitos anos como o “segundo rosto” do Bradesco. Com sua morte desaparece da cúpula do Bradesco o último remanescente dos tempos heroicos da Casa Almeida.

Católico por formação desde a infância modesta, casado, com duas filhas (uma terceira já havia morrido) e um neto, Brandão apresentava-se a seus interlocutores como homem simples e fiel às raízes interioranas —gostava de passar os finais de semana na sua fazenda em Itatiba (SP), onde plantava café. Podia ser simples, mas era determinado.

Certa vez, em 1996, ao ser indagado sobre quando deixaria a presidência do banco, respondeu rápido: “Ainda não é hora porque o momento é de grandes desafios”. Referia-se ao esforço vitorioso que comandou para adaptar o maior banco particular do país à nova realidade da estabilidade econômica gerada a partir do Plano Real.

Apesar do jeito cordato, Brandão tomou atitudes firmes quando julgou necessário, sob a justificativa de que estava defendendo uma causa maior —ou seja, o banco. Assim, consta que impediu Alcides Tapias, então vice-presidente, de chegar à presidência executiva, em 1996. A versão oficial é que Tapias desligou-se do Bradesco porque aos 54 anos, depois de presidir a Febraban de 1992 a 1995, estava em busca de novos desafios.

Mas a imprensa especializada anotou à época que ele saiu porque Brandão não o queria como substituto.
Em contrapartida, abençoou —e nomeou— seus dois sucessores no cargo: Márcio Cypriano (de 1999 a 2009) e, depois, Luiz Carlos Trabuco Cappi.

Na presidência executiva não hesitou em cancelar o limite de idade de 65 anos para o cargo, em benefício próprio. Ao sair, porém, reintroduziu a norma e a fez cumprir na passagem do comando de Cypriano a Trabuco. A propósito dessas sucessões, Brandão costumava dizer que o Bradesco muda para continuar o mesmo.

Interlocutor de políticos

Entre a enorme coleção de sucessos colhidos como banqueiro —curiosamente com participação ultraminoritária na complexa composição acionária do Bradesco— um episódio que o chateou foi a investigação da Polícia Federal, com base em escutas telefônicas, sobre suas relações com o doleiro Kurt Paul Pickel, que acabou preso em março de 2009 sob acusação de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e outros crimes. Do inquérito não resultou qualquer acusação formal contra o banqueiro.

Até 2017 manteve-se firme à frente do conselho de administração —e depois passou a comandar as holdings do Bradesco— e continuou a receber uma romaria permanente de políticos de todos os partidos que afluiam à Cidade de Deus em busca das bênçãos de Lázaro Brandão.

Por bênçãos entendam-se conselhos sobre o futuro do país e principalmente recursos para campanhas eleitorais. Lázaro de Mello Brandão foi, até o fim da vida, um discreto e confiável interlocutor de políticos de todos os calibres, de vereadores a presidentes da República.

Rico e realizado, podia fazer o que quisesse. E fez. Trabalhou dos 16 ao 93 anos, com dedicação e afinco, no que chamava de “minha vida”, o Bradesco.

Pedro Del Picchia (1948-2018), jornalista e escritor, foi correspondente da Folha em Roma de 1978 a 1981

Colaborou Paulo Muzzolon 

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