Eleições na Argentina e no Uruguai podem isolar o Brasil

O Mercosul pode ficar mais parecido a seu perfil anterior do que com Mercosul 2.0, imaginado por Macri e Bolsonaro

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Caso se confirme a eleição do peronista Alberto Fernández, na Argentina, e a vitória no primeiro turno do socialista Daniel Martínez, no Uruguai, no próximo domingo (27), bem como suas propostas para o Mercosul, quem pode sofrer isolamento no bloco é o Brasil. 

No caso argentino, a tendência é que Fernández já vença o atual presidente Mauricio Macri no próprio dia. No Uruguai, Martínez deve vencer o primeiro turno, mas enfrentar segundo turno em 24 de novembro, com o liberal Lacalle Pou. Por ora, as sondagens para o segundo turno uruguaio ainda indicam que Martínez está à frente. 

É preciso incluir no cenário o resultado na Bolívia. O país não vota no Mercosul, mas opina. Se Evo Morales ficar no poder por um quarto mandato, o Mercosul começa a ficar mais parecido a seu perfil anterior (identificado com a chamada “maré vermelha”) do que com Mercosul 2.0, imaginado por Macri e Bolsonaro.

À Folha Martínez, o candidato uruguaio da Frente Ampla (partido de Mujica e do atual presidente, Tabaré Vázquez), disse ser entusiasta do Mercosul e que o bloco “continua sendo uma importante estratégia para a inserção global, sempre que seja de modo conjunto com os parceiros”. Afirmou, ainda, ser cético sobre flexibilizar o grupo.

Já Alberto Fernández, que havia enfrentado verbalmente Jair Bolsonaro, chamando-o de “racista, misógino e violento” e também pedido a libertação de Lula, agora tem sido mais moderado.

Em mais de uma ocasião, depois disso, disse que não falaria mais sobre Bolsonaro nem responderia a provocações.

Ainda que não estejam claras as linhas de sua política econômica e nem sequer tenha escolhido um ministro para a área —os mais cotados são Matias Kulfas e Roberto Lavagnan—, Fernández já definiu outros pontos.

Será contra uma nova legislação de flexibilização do trabalho, que Macri tentava aprovar no Congresso. Contrariando o FMI, será a favor da volta de alguns subsídios, da renegociação dos prazos da dívida de US$ 57 bilhões com o Fundo e da revisão do acordo do bloco com a UE.

Com relação a esse acordo em particular, Fernández já afirmou tratar-se de “uma carta de intenções”, que o atual governo teria usado para se autopropagandear.

Segundo um assessor econômico do candidato, Fernández considera que precisa ver esse acordo para que sejam retirados itens que possam prejudicar a produção nacional.

Fernández diz ser a favor da abertura de mercados, porém, “desde que não custe o trabalho dos argentinos”. Espera-se, portanto, que sua política econômica seja menos protecionista do que a da gestão de sua vice, Cristina Kirchner, mas mais protecionista do que a de Mauricio Macri.

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