Na Argentina, 45% acreditam que Cristina é quem vai governar em caso de vitória

Candidata a vice, a ex-presidente é articuladora da campanha de Alberto Fernández

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Quase metade dos argentinos (45%) acha que quem governará o país no caso de uma vitória do peronismo na eleição presidencial do próximo domingo (27) será a candidata a vice, Cristina Kirchner —e não quem concorre a presidente, Alberto Fernández

De acordo com uma pesquisa recente, dos institutos D'Allessio Irol e Berensztein, 74% dos que votarão neste binômio o farão apenas porque Cristina Kirchner compõe a chapa.

Qual será o papel da ex-mandatária no próximo governo, caso as pesquisas e as eleições primárias de agosto se confirmem? É a pergunta que todos se fazem.

Conhecida pelo primeiro nome, ainda que na Argentina o mais comum seja chamar os políticos pelo sobrenome, Cristina é a articuladora da candidatura de Alberto Fernández.

Em maio deste ano, quando as pesquisas mostravam que ela poderia ganhar um primeiro turno contra o atual mandatário, Mauricio Macri, mas perderia no segundo (por conta de seu alto índice de rejeição), Cristina armou uma estratégia que surpreendeu a todos.

Anunciou que sairia candidata, sim, mas a vice, e quem lideraria a chapa seria Fernández —um peronista mais tradicional, com fama de conciliador e hábil com empresários e meios de comunicação (setores com quem Cristina sempre teve fricções).

A estratégia até aqui deu certo. Ambos venceram as primárias, em agosto, com pouco mais de 15 pontos de vantagem sobre Macri, e agora chegam à eleição como favoritos.

Durante a campanha, Cristina tem sido discreta, atuando como coadjuvante. Raramente sobe ao palco dos comícios ao lado de Fernández. Também já não faz mais os efusivos e frequentes discursos para multidões em estádios.

Sua participação tem sido por meio de apresentações de seu livro autobiográfico, "Sinceramente", em várias localidades do país. Aí, quase sempre sentada, busca aparecer contida e respondendo a perguntas de um jornalista ou de um político local escolhido a dedo.

Em meio às respostas sobre o livro, manda torpedos sintéticos e objetivos contra Macri. Diz que ele e sua política de ajustes são os responsáveis pelos altos índices de inflação (50% ao ano) e pela pobreza (que aumentou 5 pontos percentuais em seu governo) e lembra as medidas de contenção e assistência social que marcaram a sua própria gestão (2007-2015).

O recolhimento de Cristina tem a ver com a estratégia. Se tem carisma suficiente para animar seus apoiadores, mas também gera ódio noutra faixa da população, concluiu-se que o melhor era agir com cautela.

Uma fonte ligada à campanha peronista diz que a percepção destes é que, se ela aparecer demais, acabaria levantando curiosidade e atenção, por exemplo, aos 11 processos por corrupção pelos quais responde na Justiça.

Há, porém, quem não deixe de se lembrar disso. No último domingo, antes do segundo debate presidencial, apoiadores de Macri levaram um imenso boneco inflável de Cristina vestida de presidiária, parecido ao que foi feito de Lula, no Brasil.

Quando indagado sobre quem escolherá os ministros, caso sejam eleitos, Fernández diz que ela "não terá nenhuma ingerência". Se perguntado sobre sua participação do governo, o candidato repete que o presidente será ele.

Há dois modos como Cristina pode atuar. Um seria, de fato, manter-se nessa posição e, em vez do protagonismo da Presidência, cuidar de seus alicerces.

Por exemplo: segundo as projeções das pesquisas, o kirchnerismo deve eleger cerca de 40 deputados. São nomes escolhidos por Cristina, e muitos deles integram o La Cámpora, a organização política chefiada por seu filho, o deputado Máximo Kirchner.

Além disso, na Argentina, o vice-presidente tem mais poder do que no Brasil, por exemplo. Não se trata de um mero substituto do presidente em caso de viagem ou ausência, mas sim de uma figura que preside as sessões do Senado. Ou seja, Cristina ficará à frente dos debates legislativos —o que não é pouco.

A voz das ruas, porém, diz crer em outra coisa. "É claro que quem vai mandar é ela. Em um ano, por conta da crise econômica, vão pressionar a renúncia dele, e ela termina o mandato", diz o motorista de Uber Juan Vicente, 59, eleitor de Macri.

Entre a militância, corre a versão de que Cristina estaria voltando mais ou menos como fez o general Juan Domingo Perón quando chegou do exílio, nos anos 1970. Primeiro, fez com que seu aliado, Héctor Cámpora, fosse eleito —ele governou apenas 49 dias. Depois, convocou novas eleições e renunciou. Perón se elegeu, então, com 62% dos votos.

Ambas as especulações, porém, não levam em conta um fator da vida pessoal de Cristina que pode ser definidor de sua atitude: sua filha está muito doente e internada há quase um ano, em Cuba.

Florencia Kirchner, 29, a ex-presidente e Máximo, outro filho de Cristina, estão sendo acusados pela Justiça por casos de corrupção que envolvem enriquecimento ilícito, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro por meio dos hotéis da família, na Patagônia.

Porém, diferentemente de Cristina, que é senadora, e de Maximo, que é deputado, Florencia não tem cargo público, e por isso não tem foro privilegiado. Se ficasse na Argentina, poderia ser presa.

Desde que as acusações vieram a público, Florencia entrou em depressão. Por medo de que algum juiz determinasse sua prisão preventiva, Cristina achou melhor que saísse do país para receber tratamento.

A filha acabou indo para Cuba e foi internada no mesmo hospital pelo qual passaram Hugo Chávez e Diego Maradona.

Cristina Kirchner sorri durante a cerimônia de sua posse como presidente, em Buenos Aires; à esquerda, sua filha Florencia, e ao fundo, seu filho Maximo
Cristina Kirchner sorri durante a cerimônia de sua posse como presidente, em Buenos Aires, em 2011; à esquerda, sua filha Florencia, e, ao fundo, seu filho Maximo - Alejandro Pagni - 10.dez.2011/AFP

Alguns meses depois, foi divulgado que Florencia teria também um linfedema (inchaço por conta de problemas nos gânglios linfáticos). Apesar de declarar que a situação da filha está sob controle, Cristina viajou cinco vezes a Cuba, duas delas de maneira precipitada, nos últimos três meses.

As viagens a fizeram desmarcar atos de campanha, o que sugere que a situação da filha é delicada.

No livro, Cristina escreve muito do tema, apresentado como o segundo grande trauma de sua vida, depois da morte do marido, Néstor Kirchner (1950-2010), que também presidiu o país.

"A dor humaniza as pessoas, as converte em animais feridos, que podem transformá-las em gente com vontade de causar danos aos outros ou em alguém que se solidarize, que ajude aos demais", disse, numa de suas apresentações. 

"Não tenho vontade de ser presidente de novo, entrei neste projeto para ajudar a reunificar a nossa força política", disse ela.

Até aqui tem dado certo, não apenas pelo sucesso da candidatura de Fernández, mas porque a participação de Cristina trouxe de volta ao kirchnerismo figuras que tinham se afastado dele, como o ex-candidato Sergio Massa e a deputada Victoria Donda, representantes importantes e com fiéis seguidores.

Ambos estão participando da campanha de Fernández e concorrendo com grandes chances ao Congresso.

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