Ingredientes da crise no Chile estão em toda América Latina

Economias dependentes de commodities perdem produtividade e reduzem renda

Érica Fraga
São Paulo

Em 1970, um trabalhador chileno produzia o triplo do que um sul-coreano por ano. Desde então, essa relação mudou. Em 2019, um funcionário empregado no país asiático deverá adicionar, em média, US$ 80,6 mil dólares (cerca de R$ 323 mil) à economia, contra uma contribuição de US$ 58,3 mil (R$ 234 mil), no Chile.

Esses dados ilustram as diferentes rotas que essas duas nações tomaram nas últimas décadas. 
O caminho trilhado pela Coreia do Sul e por outros asiáticos tem levado ao desenvolvimento.

Já o Chile e seus vizinhos na América Latina —incluindo o Brasil— ficaram presos na chamada “armadilha da renda média”.

A falta de dinamismo das economias da região tem limitado o tamanho do bolo da produção que é dividida pela população —a renda per capita. Esse é um fator preponderante da tensão social que explodiu sob a forma de protestos violentos no Chile na última semana.

 
 

Segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional), a renda per capita (ajustada pelas diferenças nos custos de vida) deve chegar a US$ 26,3 mil (R$ 105, 5 mil) no Chile neste ano, nível mais alto da América do Sul. No entanto , muito inferior aos US$ 44 mil (R$ 176,6 mil) aferidos por um cidadão da Coreia do Sul.

O padrão de renda média da América Latina disfarça ainda desigualdades marcantes em sua distribuição, que estão entre as mais acentuadas do mundo e fazem com que o rendimento de muitos cidadãos seja baixíssimo.

Parte do problema da região tem sido sua incapacidade de sustentar taxas elevadas de crescimento da produtividade, medida importante da eficiência com que máquinas, equipamentos e capital humano são combinados para impulsionar a atividade econômica.

Brasil e México, onde a produtividade do trabalho está próxima de zero nesta década, são casos tão dramáticos que fazem o crescimento médio de 1,5% na Colômbia e 0,9% no Chile até parecerem elevados.

Mas uma análise dos dados de uma amostra mais ampla de países revela o quão para trás a região como um todo tem ficado (veja dados nesta página).

Mesmo já sendo considerado um país desenvolvido, a Coreia do Sul sustenta uma taxa de expansão média da eficiência do trabalho de 1,9% na década atual. O mesmo vale para Singapura, onde essa medida cresce a 2,5% ao ano, desde 2010.

 

Baixa produtividade é sinônimo de um severo limite para o crescimento da renda.

Especialistas têm destacado que parte do problema é a incapacidade da região de diversificar e sofisticar sua pauta exportadora.

Um relatório recente da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) mostra uma tendência de forte aumento da dependência da exportação de matérias-primas (commodities) na América Latina nos últimos anos.

Outro trabalho do Banco Mundial —com o sugestivo título “Quando os sonhos encontram a realidade”— indicou há poucos meses que boa parte da queda da pobreza na região durante a década passada se deveu ao boom nos preços de commodities.

Na ausência desse “choque positivo”, a tendência é de piora dos indicadores sociais.

Mais uma explicação para a crise atual no Chile, deflagrada pelo anúncio de reajuste da passagem de metrô, e para os protestos que ocorreram no início de outubro no Equador, contra o cancelamento de subsídios aos combustíveis e medidas de ajuste fiscal.

O risco de uma nova recessão global aumenta o perigo de novas tensões sociais em toda a região.

Economistas ressaltam que a maior dependência de commodities poderia não ser um problema se os países estivessem demonstrando capacidade de tornar esses produtos mais sofisticados, vendendo-os no mercado externo a preços maiores.

A própria Coreia do Sul também registrou um aumento do peso de produtos básicos em sua pauta exportadora nas últimas décadas. Mas isso não impediu o país de sofisticá-la, como mostra um ranking de complexidade dos produtos comercializados pelos países, calculado por pesquisadores da Universidade Harvard.

Outros países da Ásia, como China, Vietnã e Singapura, também aumentaram o valor agregado de suas exportações.

Já na América Latina, houve avanços em alguns países, porém modestos. E em casos ainda piores, como o de Brasil, Argentina e Peru, houve um retrocesso.

Especialistas destacam que, ao contrário do que ocorreu na Ásia e em outros países como Israel, falta à região políticas industriais capazes de fomentar a inovação.

Para piorar esse quadro, a região sofre com um problema quase crônico de baixa qualidade da educação quando comparado ao dinamismo nessa área de emergentes como Vietnã e China.

Como uma série de estudos tem mostrado, esse é um fator crucial para a qualidade futura da mão de obra e, portanto, para o aumento da produtividade. Sem melhora na educação, dificilmente os países da região sairão da armadilha da renda média.

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