Em crise, indústria automotiva alemã anuncia 50 mil demissões em 2019

Custo para investir em elétricos e pressão por queda nas vendas e nos lucros afetam Mercedes, Audi e Continental

Joe Miller Peter Campbell
Frankfurt e Londres | Financial Times

A Daimler anunciou que cortará mais de 10 mil postos de trabalho nos próximos dois anos. A controladora da Mercedes-Benz ampliou uma série de cortes devastadores de pessoal por empresas de todo o setor automobilístico da Alemanha.

O custo de investir em veículos elétricos e a pressão causada pela queda de vendas e de lucros estão estimulando uma reforma severa de todo o setor, com 50 mil perdas de empregos anunciadas até agora neste ano.

As companhias alemãs foram as mais atingidas, com a fabricante de autopeças Continental anunciando em setembro que havia 20 mil empregos em risco em suas unidades, e a Audi anunciando 10 mil cortes nesta semana.

Na Daimler, Wilfried Porth, conselheiro que responde pelos recursos humanos, anunciou que os cortes de empregos ficariam na “casa baixa dos cinco dígitos”, mas se recusou a revelar uma estimativa precisa.

“A indústria automobilística está passando pela maior transformação de sua história”, a companhia declarou.

A Daimler já havia anunciado a demissão de um décimo de seus executivos, como parte de seu esforço para economizar € 1,4 bilhão em custos de pessoal, mas agora demitirá também “milhares” de empregados adicionais da área administrativa, o que elevará o total internacional de demissões pela empresa a mais de 10 mil.

Com a desaceleração sofrida pelo setor automobilístico, que é a parte dominante da economia alemã, Berlim anunciou nesta sexta-feira (29) uma nova estratégia industrial que inclui medidas de proteção contra tomadas de controle de tecnologias cruciais por companhias estrangeiras.

 

A decisão foi criticada pela VDA, a organização setorial da indústria automobilística alemã, que advertiu que isso “restringiria a atividade industrial”.

A VDA havia advertido anteriormente que 70 mil empregos estariam em risco no país nos próximos anos, um período em que as empresas estarão lidando com as consequências de seu abandono gradual da produção de carros com motores de combustão interna.

A PSA, da França, e a Fiat Chrysler vão se fundir para ajudar a ampliar seu investimento em veículos elétricos, enquanto a Volkswagen e a Ford combinaram alguns de seus recursos de desenvolvimento.

A Daimler disse em novembro que apresentaria lucros significativamente baixos pelos próximos dois anos, mencionando a dupla ameaça da saída britânica da União Europeia e das tarifas, bem como a luta por produzir quantidade suficiente de carros acionados por baterias para cumprir as metas de emissão de poluentes que entrarão em vigor em breve na União Europeia.

Se a Daimler não conseguir atingir uma média de emissões de cerca de 100 gramas de dióxido de carbono por quilômetro rodado, em 2021, pode encarar multas de mais de €1 bilhão impostas por Bruxelas.

Trabalhadores de linha de montagem não foram incluídos nos mais recentes cortes. A Daimler havia chegado anteriormente a um acordo com os representantes dos trabalhadores, que negociam em nome do pessoal operacional da companhia na Alemanha, para garantir os operários contra demissão compulsória até o final de 2029.

Só na marca Mercedes, o custo de pessoal chega a € 13 bilhões anuais.

O presidente-executivo Ola Kalenius expressou frustração com a “inércia” dos custos de pessoal, mencionando a dificuldade de lidar com as severas leis trabalhistas. “É [a área de gastos] que requer mais trabalho, especialmente na Alemanha”, disse.

A Daimler anunciou que reduziria seu quadro de pessoal “de maneira socialmente responsável” e usaria “o atrito natural para eliminar os postos de trabalho que não estiverem ocupados”.

A montadora de automóveis, que tem 140 mil empregados diretos na Alemanha, acrescentou que pacotes de incentivo a desligamentos voluntários também seriam oferecidos a trabalhadores perto da idade de aposentadoria.

A companhia anunciou que buscaria promover novos cortes de custos ao oferecer à sua força de trabalho atual a opção de reduzir a jornada semanal de trabalho.

“Qualquer redução de capacidade não deve ser carregada nas costas dos trabalhadores”, advertiu Michael Brecht, presidente do conselho de trabalhadores da Daimler.

O conselho acrescentou que “o foco da redução nos custos de pessoal deve estar na melhora de processos e fluxos de trabalho”.

Tradução de Paulo Migliacci

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