Guedes avançou o sinal ao falar de livre-comércio com a China

Brasil não negocia acordo amplo, mas aumento no comércio bilaterial, dizem integrantes do governo

Brasília

Apesar de o ministro Paulo Guedes (Economia) ter afirmado que existem tratativas para uma área de livre-comércio com a China, técnicos do governo dizem que as negociações com o país asiático não incluem um objetivo tão amplo como esse.

De acordo com fontes do governo Jair Bolsonaro, o ministro se enganou em discurso durante um seminário nesta quarta-feira (13), em Brasília, ao falar sobre livre-comércio com a China. 

O que existem hoje, de acordo com técnicos, são tratativas para aumentar o fluxo de comércio com o país asiático e aumentar o valor agregado das exportações.

Guedes afirmou no seminário do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (Brasil, Rússia, Índica, China e África do Sul) que o Brasil já estava em negociação para criar uma área de livre-comércio.

"Estamos conversando com a China sobre a possibilidade de criarmos o free trade area também com a China, ao mesmo tempo que falamos em entrar na OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]", afirmou o ministro.

Às repórteres que estavam no evento Guedes já havia indicado um recuo. "Não, não, não, o que estamos falando é o seguinte: desde o início estamos procurando níveis de integração maior", afirmou. 

Um exemplo de maior fluxo comercial é a venda de proteínas, já que a China é grande consumidora da carne brasileira

São analisadas formas de se aumentar o valor do produto por meio de processos industriais para que a tonelada seja vendida a um preço mais alto. 

Uma possibilidade é esse trabalho ser feito por meio de empresas a serem criadas e que tenham acionistas dos dois países (por meio de joint-ventures, por exemplo).

Uma maior abertura comercial do Brasil é defendida por Guedes, mas tem enfrentado reações dos empresários do país por temor de prejuízo às fábricas nacionais.

Ao mesmo tempo, técnicos garantem que qualquer tratativa comercial a ser feita pelo governo é ponderada por critérios como uma cronologia adequada de implementação, a intensidade das medidas, a compatibilidade com as condições econômicas do Brasil, a ampla abrangência de setores (em vez de medidas pontuais para alguns segmentos) e a devida promoção comercial dos produtos brasileiros.

Uma das reações recentes veio da CNI (Confederação Nacional da Indústria). 

Ao tomar conhecimento de uma proposta do governo para cortar em 50% as tarifas de importação no país, a entidade afirmou que a medida reduziria o PIB (Produto Interno Bruto) de pelo menos 10 dos 23 setores industriais até 2022.

Outros representantes empresariais se manifestaram recentemente afirmando que a abertura comercial precisa ser implementada em conjunto com outras medidas, como a melhora da infraestrutura e outras iniciativas para a diminuição do custo de produção no país. 

O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Carlos Moraes, afirmou que é a favor da abertura comercial, mas que o ritmo indicado pelo governo é apressado considerando as dificuldades para quem produz em território nacional. 

"Precisamos da abertura e a defendemos, mas de forma gradual. A redução unilateral, apressada e sem essa redução do custo Brasil, pode ser danosa para o país", disse recentemente. 

Por outro lado, o governo acredita que a abertura comercial reduziria a barreira para a entrada de insumos e outros bens de preço reduzido e, com isso, elevaria a competitividade da indústria nacional. Além disso, a medida ampliaria a inserção do país no comércio global.

Guedes já citou a chegada de produtos chineses para justificar a necessidade de uma ponderação sobre o ritmo da abertura. 

Em seu discurso de posse, em janeiro, ele ilustrou a situação do empresário brasileiro como uma pessoa que carrega um piano nas costas e tem bolas de ferro amarradas nas pernas. Os pesos seriam os juros altos, a carga tributária e os encargos trabalhistas. 

No caso de uma abertura comercial, o estado ainda mandaria o indivíduo correr para que o "chinês" não o alcançasse. "Não é razoável. Então nós queremos implementar isso numa velocidade que seja sincronizada", disse na época.

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