Variação cambial e risco Brasil podem pesar em rentabilidade de ações de empresas brasileiras no exterior

Especialistas aconselham avaliar custos e riscos antes de investir em Bolsas estrangeiras

São Paulo

Os investidores pessoas físicas e não qualificados (com menos de R$ 1 milhão investidos ou que não possuam algum certificado de qualificação reconhecido pela CVM) que queiram investir em IPOs (da sigla em inglês para ofertas públicas iniciais de ações) no exterior precisarão pesar custos, riscos e o retorno de se investir em Bolsas internacionais.

Para quem quiser alocar dinheiro especificamente em empresas brasileiras que abriram capital no mercado internacional –como é o caso recente da XP Inc e sua oferta pública na Nasdaq, por exemplo–, o processo pode ser um pouco mais moroso do que a aplicação em companhias internacionais.

Uma vez que o investimento por meio de BDRs (sigla em inglês para Recibos de Depósitos Brasileiros) ainda está fora de cogitação, a alternativa é abrir uma conta em uma corretora americana que aceite não residentes.

Logo da Nasdaq em Nova York, Estados Unidos - Eric Thayer - 4.jun.12/Reuters

De acordo com o consultor financeiro e de investimentos Augusto Sabóia, porém, é preciso prestar atenção nas exigências dessas corretoras, nos custos das transações cambiais e na maior exposição ao mercado mundial.

“É certo que o risco Brasil continua no caso de investir nos papéis de empresas nacionais, já que a maior parte, se não toda a atuação delas, ainda está aqui. Mas além de uma certa influência das bolsas americanas que também incidem sobre esses papéis, é preciso cuidado em relação à variação cambial e aos custos de se abrir uma conta no exterior”, explicou.

Em meados deste ano, o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, já havia afirmado que a empresa estava em discussão com a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para que o investimento em Bolsas estrangeiras seja facilitado até o fim de 2019, quer seja pela liberação da dupla listagem (permissão para que empresas que fazem IPO lá fora também sejam listadas na Bolsa de Valores brasileira) ou pela retirada das restrições em torno dos BDRs não patrocinados —atualmente permitidos apenas a investidores qualificados.

As pessoas físicas, por enquanto, podem apenas investir em BDRs patrocinados, que são emitidos pela própria empresa de origem das ações (os BDRs não patrocinados são emitidos por uma instituição financeira independente).

Já para os investidores que visam ações de empresas estrangeiras, o caminho pode ser um pouco mais fácil, afirmam especialistas. Segundo Reinaldo Lacerda, sócio fundador da Hieron, a alocação de recursos em fundos específicos com investimentos no exterior é a maneira mais simples para o investidor do varejo.

Conforme as normas da CVM, em fundos voltados para o varejo, o percentual máximo permitido para alocação no exterior é de 20% do patrimônio total —acima disso, as carteiras são apenas para investidores qualificados.

Nesses casos, porém, não necessariamente o fundo aplicará apenas em ações —o gestor pode optar por investir em um segmento específico ou em outros ativos internacionais, por exemplo. Esses fundos precisam ter uma abertura mínima da carteira registrada na CVM.

“São fundos brasileiros que investem parte do dinheiro captado, no exterior. Nesse caso, são os próprios gestores do fundo que abrem a conta lá fora, fecham o câmbio e mandam o dinheiro para investir, o que acaba facilitando o processo para os investidores do varejo”, diz Lacerda.

Os últimos dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) apontam que a captação líquida dos fundos de ações com investimentos no exterior somou R$ 4,5 bilhões de janeiro a novembro deste ano, mais do que o dobro do registrado em igual período de 2018 (R$ 2,2 bilhões).

Nos 12 meses até novembro, porém, houve uma queda de 81,2% na mesma comparação, de R$ 21,9 bilhões para R$ 3,9 bilhões.

Já nos fundos multimercados com investimentos no exterior, a captação líquida totalizou R$ 21,5 bilhões de janeiro a novembro, alta de 99% ante igual período do ano passado. No acumulado dos 12 meses, o montante de R$ 22,6 bilhões registrado é sete vezes o valor de igual intervalo de 2018.

Segundo o estrategista-chefe da Infinity, Otávio Aidar, além do risco cambial, outros fatores também precisam ficar no radar de quem quer ter investimentos em ações no exterior. “Além do risco da moeda, também temos o risco de fronteira, a possível necessidade de um hedge [proteção contra oscilação de preços] e as diferentes regulamentações e tributações ao redor do mundo. É sempre preciso pesar custos, riscos e retornos”, afirma.

“A mentalidade de investir em uma empresa brasileira que abriu capital no exterior não chega a ser uma diversificação de risco geográfico, mas há benefícios em termos de governança e liquidez do mercado. Tudo é questão de observar os prós e contras de cada situação”, complementa o especialista em investimento internacional da BNP Paribas Asset Manegement, Tiago Cesar.

Os especialistas reiteram que ante as expectativas mais positivas de recuperação econômica no Brasil, as chances de uma desvalorização do dólar —e uma consequente desvalorização das ações compradas no exterior— são grandes.

Para Lacerda, é mais difícil para que os investidores do varejo consigam realizar uma análise do cenário internacional para pontuar esses riscos eminentes da operação. “É trabalhoso e muitas vezes fora da realidade dos pequenos e médios investidores manter todas as notícias no radar e ponderar quando é hora certa de alocar recursos no exterior. Esse, por exemplo, não é mais um momento propício para isso”, diz o executivo.

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Risco de variação cambial pode interferir no retorno de quem investe em ações no exterior - Marcelo Fonseca/Folhapress

A leitura é de que mesmo que a taxa básica de juros na mínima histórica force os investidores a aumentarem seu apetite por risco (aceitando uma maior probabilidade de perder dinheiro em troca de rentabilidades maiores), a perspectiva de melhora econômica do Brasil, com inflação controlada, melhora do emprego e previsão de nova queda na Selic valorize o real ante outras moedas, principalmente diante de uma desaceleração da economia mundial.

A projeção mais recente da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por exemplo, é de que o crescimento mundial ficará em 2,9% neste e no próximo ano: quase meio ponto abaixo da média dos últimos cinco anos e o menor patamar desde a Grande Recessão, em 2008.

Para Tiago Cesar, o Brasil está em evolução, não apenas em termos macroeconômicos, mas também nas questões voltadas para o mercado de capitais. “Temos o mindset [mentalidade] do investidor a legislação do setor e a tecnologia que o envolve em constante evolução, e isso permitirá uma maior diversificação de investimentos por parte do brasileiro no exterior cada vez mais forte”, disse.

“O Brasil ainda é muito doméstico, mas já passa por mudanças estruturais. Talvez não seja algo para o ano que vem, mas estamos em processo de construção”, conclui.

Fundos voltados para XP

A XP Asset Management —braço de investimentos da XP Inc.— lançou nesta quarta-feira (11) dois fundos de investimentos para atender a demanda de brasileiros que queiram investir nas ações da corretora. A XP estrou na Bolsa de tecnologia, em Nova York, com US$ 14,9 bilhões de valor de mercado.​

Visando facilitar o acesso as ações da empresa na Nasdaq, a aplicação inicial é de R$ 500 com proteção à variação do dólar.

Para brasileiros investirem diretamente em ações na Nasdaq é necessário uma conta corrente em uma corretora nos Estados Unidos.

Um dos fundos é voltado a investidores qualificados, que tem mais de R$ 1 milhão investido. O segundo é voltado para o público em geral, com 20% do rendimento atrelada a ações da XP e 80% ao fundo de investimento pós-fixado Trend Pós-Fixado Master FIRF Simples. Ambos têm taxa de administração de 0,05% ao ano.

Segundo a casa de investimentos, os fundos não irão participar do processo de bookbuilding (avaliação da demanda pelas ações da empresa) do IPO. Em nota, a empresa afirma que a compra das ações da XP Inc. pelos fundos será realizada somente no mercado secundário após o encerramento da oferta, em, no mínimo, dois dias após o início das negociações. 

O agendamento para as aplicações dos interessados está aberto à partir desta quarta-feira (11), com liquidação prevista para sexta-feira (13).

Empresa brasileira em NY

Os investidores que adquiriram os papéis da XP Investimentos, que começam a ser negociados em Bolsa americana nesta quarta-feira (11), pagaram US$ 27 (R$ 112) por ação.

O valor ficou acima do que a empresa havia sinalizado em seu prospecto, que era de US$ 22 a US$ 25 (cerca de R$ 91 a 104).

Ao todo, foram ofertadas 83 milhões de ações neste que é o quarto maior IPO (oferta inicial de ações na sigla em inglês) do ano nos EUA e o segundo maior de uma empresa brasileira, atrás apenas da PagSeguro –sistema de pagamentos de compras que pertence ao UOL, que tem participação acionária minoritária e indireta da Folha— em 2018.

Com a precificação, a empresa estreia com valor de mercado de US$ 14,9 bilhões (R$ 61,82 bilhões), o que a coloca entre as 20 empresas brasileiras de capital aberto mais valiosas. ​

 
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