Descrição de chapéu The New York Times

Ao salvar um jornal da Califórnia, um viúvo salva a si mesmo

Periódico mais antigo do estado teve Mark Twain como repórter

Downieville (Califórnia) | The New York Times

Na noite anterior ao fechamento de sua primeira edição, Carl Butz, o mais recente proprietário de jornal da Califórnia, estava devorando um cozido de carne no Two Rivers Café, o único restaurante aberto na cidade de Downieville.

“Amanhã tenho um jornal para encher”, ele disse, parecendo apenas ligeiramente ansioso. “A questão é, será um jornal de quatro páginas ou um jornal de seis páginas?”

Aos 71 anos, Butz é esbelto, usa óculos de armação metálica e o cabelo grisalho cortado rente, e veste camisas de flanela e calças cargo. Desde sua aposentadoria e da morte de sua mulher, em 2017, ele vinha pensando em viajar –para a Inglaterra ou Letônia, ou para uma jornada na Ferrovia Transiberiana.

Mas lá estava ele; um proprietário recente de jornal, depois de intervir no começo do ano para salvar o The Mountain Messenger, o semanário mais antigo da Califórnia, de encerrar as atividades.

Carl Butz, proprietário do The Mountain Messenger, na redação do jornal em Downieville, Califórnia - Jenna Schoenefeld/The New York Times

O jornal foi fundado em 1853. Seu mais famoso repórter foi Mark Twain, que escreveu alguns artigos para a publicação –de acordo com a lenda, de ressaca– enquanto se escondia na cidade por conta de alguns problemas legais.

Os jornais vêm morrendo em ritmo alarmante nos Estados Unidos, especialmente em lugares como o condado de Sierra, e Downieville estava a ponto de se tornar o mais novo “deserto noticioso”. Os obituários do jornal já estavam escritos. Don Russell, o editor beberrão e fumante compulsivo que, com seu estilo desbocado de escrever, foi proprietário do e comandou o jornal por quase três décadas, estava para se aposentar, e parecia não se preocupar que o jornal morresse.

E de repente Butz estava assistindo a “Cidadão Kane” na TV a cabo, certa noite, e pensou que aquilo era algo que ele seria capaz de fazer. Fez o negócio rapidamente, pagando um preço “abaixo dos US$ 10 mil”, disse, além de assumir algumas dívidas, sem nem verificar a contabilidade.

Ainda assim, Russell, velho amigo de Butz, relutou em vender. “A posição dele era a de que manter o jornal causaria prejuízo, e qualquer pessoa que quisesse fazê-lo com certeza devia ser louca”, disse Butz. “Ele me chamou de romântico e idealista, e de maluco. E não estou parafraseando: foi literalmente o que ele disse”.

Para os moradores de Downieville –e eles não são muitos, a cidade tem cerca de 300 habitantes–, que por gerações contaram com que o The Mountain Messenger chegasse a cada quinta-feira, apesar dos incêndios florestais na região e das quedas de energia, dos ciclos de contração e de expansão da economia, Butz se tornou um herói local improvável, o salvador de uma instituição muito querida.

“Graças a Deus por Carl e por ele ter intercedido”, disse Liz Fisher, antiga editora do jornal, que vive diante da redação e opera o The Sierra County Prospect, um site de notícias. “Era devastador para todo mundo que fôssemos perder o The Mountain Messenger”.

Redação atulhada e ar fumacento

Numa manhã recente de quarta-feira, com a chegada do fechamento da primeira edição sob seu comando, Butz estava encarando a tela vazia de um computador, no apertado escritório de duas salas que serve de redação ao jornal, sobre um salão de beleza na Main Street.

Butz, cuja família vive na Califórnia há quatro gerações e cuja carreira profissional anterior foi como técnico de computação e economista especializado em questões trabalhistas no governo do estado, admitiu prontamente que não fazia ideia sobre aquilo em que se meteu, e o fato de que o software usado para editar o jornal seja da metade da década de 1990 tampouco ajuda.

Uma das primeiras coisas que ele disse que faria, depois de comprar o jornal, era proibir o fumo no escritório, mas ao lado de seu teclado havia um maço de cigarros sem filtro e um cinzeiro.

“Qual é a principal reportagem?”, Butz perguntou.

“A primeira página está vazia”, respondeu Jill Tahija, a única outra empregada do jornal, sentada ao computador adjacente.

Carl Butz, proprietário do The Mountain Messenger, com a funcionária Jill Tahija na redação do jornal em Downieville, Califórnia - Jenna Schoenefeld/The New York Times

Tahija, que trabalha no The Mountain Messenger há 11 anos, deveria ter o título de editora responsável, mas em seu cartão de visita se lê “a mulher que faz o trabalho”.

Em seu computador, Butz estava preparando uma de suas primeiras seções novas para o jornal, um “canto da poesia” (escolheu “Thoughts”, de Myra Viola Wilds, uma poeta negra do Kentucky que escrevia no começo do século 20). Enquanto Tahija trabalhava na primeira página –no dia seguinte ela teria artigos sobre um concurso local de poesia, o recenseamento iminente, prevenção contra incêndios florestais e uma reunião dos supervisores da cidade–, Butz dedicava sua atenção a concluir sua carta aos leitores.

Nela, ele explicava por que havia comprado o jornal. “Para resumir”, ele escreveu, “o horrível pensamento de que essa venerável instituição fecharia as portas e desapareceria depois de 166 anos de operação contínua era mais do que eu podia suportar”.

O jornal, ele escreveu, era “algo de que precisamos para conhecermos a nós mesmos”.
 

“Como perder um amigo”

Produzir um jornal em Downieville é um trabalho estritamente analógico, tinta no papel; não há site ou contas de mídia social. O jornal gera prejuízo de alguns milhares de dólares ao ano. A publicação de notificações legais pelo governo do condado e outras agências públicas é sua principal fonte de receita, contribuindo com US$ 50 mil (R$ 215 mil) ao ano em faturamento.

O The Mountain Messenger tem 700 assinantes e uma tiragem de 2,4 mil cópias, o que representa pouco menos que a população do condado.

“Não vou perder US$ 1 milhão (R$ 4,3 milhões), mas sei que vou ter que subsidiar parte do custo”, disse Butz. “Minha filha já está ciente de que sua herança vai diminuir”.

Downieville é uma cidade da era da Corrida do Ouro, notavelmente bem preservada, localizada em uma bifurcação no curso do rio Yuba, na região oeste do remoto condado de Sierra. As atrações históricas são seu chamariz para turistas, e ela se parece um pouco com o cenário de um western: o saloon na esquina, as pontes estreitas sobre o Yuba, e a redação do jornal em um segundo andar, no prédio ao lado do departamento de bombeiros (uma placa na porta do edifício informa que se trata “do serviço de bombeiros voluntários mais antigo a oeste do Mississipi”).

Com o fim da mineração de ouro e o fechamento das serrarias que no passado foram o motor econômico da região, Downieville se reinventou com o polo de mountain biking e de pesca, com sua dose considerável de charme do Velho Oeste.

O centro da cidade de Downieville, Califórnia - Jenna Schoenefeld/The New York Times

O The Mountain Messenger é mais que uma crônica dos acontecimentos semanais: reuniões do governo, nascimentos e mortes, a página policial, o clima. Representa também um repositório da história do condado. A publicação é apenas um ano mais nova que o condado de Sierra, fundado em 1852, o ano em que o banco Wells Fargo foi estabelecido para atender aos envolvidos na Corrida do Ouro e abrigar as riquezas extraídas do rio.

Quando Bill Copren, 76, historiador local e antigo avaliador público do condado, escreveu sua tese de mestrado sobre a história política do condado de Sierra na metade do século 19, ele recorreu aos arquivos do jornal.

Mais recentemente, quando as autoridades conseguiram a inclusão no Registro Nacional de Patrimônio Histórico de uma escola local construída no estilo art déco em 1931, usaram os arquivos do jornal para confirmar como ela havia sido construída e quem tinha pagado a conta.

O fechamento do jornal, disse Copren, teria sido “como perder um amigo”.

Sob o comando de Russell, o The Mountain Messenger tinha uma atitude característica e um estilo brusco e direto. Ele era avesso à correção política e não hesitava em usar vocabulário chulo nos artigos.

Butz disse que não planeja ser dono do jornal por muito tempo, e que espera encontrar alguém mais jovem para assumir a responsabilidade. Ele afirmou que estava pensando em conduzir o jornal à era digital, criando um site, e que talvez o transformasse em uma publicação sem fins lucrativos, aceitando doações e verbas públicas para mantê-lo em operação.

A história que circula na cidade é a de que Butz salvou o jornal local.

Mas Butz –um viúvo que continua a lamentar a perda da mulher, Cecilia Kuhn, que foi baterista de uma banda punk feminina chamada Frightwig e morreu em 2017– vê a coisa de outra maneira.

“É o jornal que está me salvando”, disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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