Com público de baixa formação, LinkedIn busca identidade no país

Rede profissional, que tem no Brasil o quarto maior mercado da operação, tenta aproximar profissionais de entrada às empresas

São Paulo

Mindset, #networking, #foradacaixa e #resiliência são algumas das hashtags populares em um grupo de mais de 68 mil pessoas criado no Facebook para ironizar “empreendedores emocionados do LinkedIn”.

Com frases no estilo “me joguem aos lobos e voltarei líder da alcateia #brainstorming #empowerment”, os integrantes passam o dia fingindo ser o profissional que entra na rede social profissional para compartilhar pílulas diárias de conquistas individuais.

A brincadeira revela uma tendência de comportamento à parte da rede que viu seu LinkedIn virar repositório de textos motivacionais. Mas aponta também para a mudança vocacional da plataforma, que deixou de ser apenas um canal de conexão entre vagas e potenciais candidatos. 

Catarina Pignato

Os últimos lançamentos da rede social, em especial depois que foi adquirida pela Microsoft, em 2016, reforçam que a plataforma não é mais só um serviço de currículos online. 

 

Na última década, o LinkedIn absorveu características de outras redes sociais populares para aumentar o engajamento de seus inscritos, hoje com 675 milhões de usuários.

São exemplos o feed de histórias, os botões para curtir e compartilhar, os boletins de notícias diárias e o incentivo à produção de conteúdo individual. Não à toa, a rede elege os chamados “Top Voices”, influenciadores que falam sobre negócios e carreira

Entre os nomes estão o economista Ricardo Amorim, o tenista aposentado Fernando Meligeni e Mate Schneider, fundadora da TransEmpregos.

A estratégia da empresa é obter receita a partir de quatro áreas principais: 1) soluções de talento, em que empresas compram espaço para anunciar vagas; 2) marketing, com veiculação de anúncio publicitário; 3) ferramenta exclusiva que conecta vendedores a clientes; e 4) “LinkedIn learning”, setor que vende cursos na plataforma por meio do LinkedIn Premium, opção paga da rede.

A rede acelerou crescimento e uma fase que o desemprego no Brasil atingiu seu ápice. Em 2017, o índice de desocupação bateu em 12,7%, o maior da série histórica. Parte dos novos usuários do LinkedIn vem de profissões de baixa qualificação, enquanto as profissões mais demandadas são de tecnologia.

Apesar de a taxa de desemprego ter caído em 2019, o trabalho informal atingiu o maior contingente desde 2016, 41,1% da força de trabalho

Profissionais como diaristas e mecânicos estão numa plataforma em que nove de 15 profissões em ascensão são da área de tecnologia.

Uma simples busca de usuários na região de São Paulo mostra mais de 12 mil bombeiros e quase 10 mil profissionais de limpeza. Grande parte busca recolocação. 

Há mais de 1,5 milhão de motoristas ou ex-motoristas de aplicativos como Uber cadastrados na rede do Brasil. Além disso, especialistas dizem que aumentou o número de candidatos mais jovens.

“Ampliou-se a ‘juniorização’  nos últimos 18 meses. O leque de diferentes tipos de candidato está maior”, diz Paulo Miri, sócio da Exec, consultoria em recursos humanos.

Só que as vagas mais procuradas hoje exigem formação acadêmica e conhecimento em áreas como linguagem de programação, marketing digital, mercado de capitais ou aprendizado de máquina.

O gestor de mídias sociais é o profissional com a demanda mais aquecida. Cresce em média anual, e a procura saltou 122% entre 2015 e 2019, segundo relatório da empresa.

A lista também inclui engenheiro de cibersegurança, cientista de dados, especialista em inteligência artificial, programador, desenvolvedor e até “coach de Agile”, uma metodologia de gerenciamento de projetos focada em desenvolver equipes mais ágeis.

O LinkedIn diz estar atento à necessidade das classes mais baixas. A rede social ampliou a atuação com empresas para incentivá-las a olhar para profissionais de posições de entrada e divulgar vagas do tipo na plataforma. 

“Temos 130 mil operadores de caixa inscritos. Quando o LinkedIn nasceu, ficou nichado a posições executivas, mas não é uma rede de executivos”, diz Ana Claudia Plihal, diretora das soluções de talento do LinkedIn Brasil.

Das profissões mais demandadas que não dependem —em essência— de habilidades digitais, estão representante de vendas, motoristas e “especialista em sucesso do cliente”.

Além de certo descompasso entre a demanda por vagas sofisticadas e a oferta de trabalhadores de base, o brasileiro peca por não preencher tópicos elementares do perfil.

“Um erro muito básico em perfis na rede é o de foto. A imagem do perfil do LinkedIn não é a mesma do Instagram. Precisa ser mais formal, profissional, não de viagem, mas de preferência em fundo neutro”, diz Juliana Palermo, do PageGroup. 

Enquanto críticos de internet sugerem que as pessoas furem sua bolha no Facebook, seguindo pessoas com pontos de vista diferentes, no LinkedIn, a recomendação é oposta. É melhor ter conexões certeiras do que 500 desconhecidos. 

“Se você não conhece a pessoa e não tem referência dela, se você não sabe se ela existe, não faz sentido você ter essa conexão”, afirma Juliana.

Especialistas também recomendam que o usuário publique somente o que puder falar se estiver no ambiente profissional. Isso ainda serve como antídoto contra a onda motivacional da rede. 

“Sempre tem uma moda. As pessoas começaram a exagerar em textos que, muitas vezes, não agregam e são distantes da vida real. São superficiais e usados para vender”, diz Taís Targa, consultora de RH.

Para usar bem a plataforma, a dica máxima do LinkedIn é a curadoria: a qualidade da rede reflete a atenção que cada usuário dá a ela.

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