Coronavírus pode causar danos como a crise de 2008, diz Lagarde

Presidente do Banco Central Europeu discute medidas para combater prejuízos decorrentes da pandemia

Amsterdã

A pandemia do novo coronavírus pode provocar uma crise igual ao crash financeiro de 2008 se os governos europeus não adotarem medidas de socorro, afirmou nesta quarta (11) a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde.

A economista francesa participou de vídeoconferência com os chefes de governo dos 27 países da União Europeia, na noite de terça, para discutir medidas que combatam os prejuízos causados pela covid-19, a doença decorrente do coronavírus.

Como economistas vêm alertando, a pandemia e o isolamento imposto pelos governos para combatê-la têm impacto tanto na demanda quanto na oferta, provocando perdas abruptas de receita para empresas e famílias e elevando o risco de insolvência, falências e desemprego.

São efeitos que podem levar a uma espiral descendente, transformando um choque temporário (a pandemia) em crise permanente, agravada pelos picos de doença em épocas diferentes nas várias regiões do globo e pelo desajuste no fornecimento de insumos em várias cadeias de produção.

Economistas já reduziram as perspectivas de crescimento para a Europa em 2020 para perto de zero, e Itália e Alemanha podem entrar em recessão por causa do coronavírus.

O Banco Central Europeu se reúne nesta quinta, e a expectativa é que decida um corte nos juros, para 0,6% negativos (ou seja, um depósito de 100 euros, se resgatado em um ano, vale apenas 99,4 euros) e um aumento nos programas de liquidez (conhecidos como quantitative easing e baseado na compra de títulos de dívida), para tentar incentivar investimentos e demanda.

Uma das principais preocupações é com a tendência de um aperto do crédito por parte dos bancos, já que os riscos são crescentes por causa dos efeitos econômicos da doença.

Assim como outros bancos centrais do bloco, o BCE pode criar linhas especiais de crédito para que os bancos possam rolar dívidas e flexibilizar ou postergar o recebimento de empréstimos.

Mas, segundo a imprensa britânica, Lagarde disse aos líderes do bloco europeu que, para que medidas centrais tenham sucesso, é preciso que todos os governos as apoiem —ou seja, que também adotem pacotes para garantir o crédito e proteger empresas e trabalhadores e lancem programas de investimento público.

A presidente do Banco Central Europeu Christine Lagarde - REUTERS/Ralph Orlowski/File Photo

Nesta quarta, o Reino Unido anunciou um corte de juros para patamar inédito na história de seu Banco Central, 0,25%, e divulgou medidas de proteção a negócios e estímulo à economia.

Uma delas é garantir recursos da ordem de 100 bilhões de libras (cerca de R$ 600 bilhões) para empresas, principalmente pequenas e médias. O Reino Unido também anunciou 1 bilhão de libras para programas de proteção ao emprego e para desempregados.

O governo italiano anunciou um terceiro aumento em seu pacote de socorro, para 25 bilhões de euros (cerca de R$ 130 bilhões), que além de crédito para as empresas e isenção de tributos inclui medidas para ajudar os trabalhadores prejudicados pelo fechamento de escolas: auxílio de 600 euros mensais para cada filho de até 12 anos.

Economistas têm criticado a Alemanha, maior economia do bloco, por não adotar programas de socorro mais ambiciosos. O governo alemão, que fechou o ano passado com um saldo de 50 bilhões de euros nas contas públicas, anunciou investimentos de cerca de 12,4 bilhões de euros, além de medidas de socorro para empresas e trabalhadores.

Na terça, a Comissão Europeia divulgou a criação de um fundo de 25 bilhões de euros, cuja primeira parcela, liberada nas próximas semanas, será de 7,5 bilhões de euros, também voltada para empresas e trabalhadores e para reforçar sistemas de saúde.

A queda drástica dos juros e a incerteza sobre a economia aumentou a preocupação com a saúde dos bancos, ressaltou o diretor de Mercado de Capitais, Tobias Adrian, em artigo publicado no site do Fundo Monetário Internacional.

Segundo ele, porém, o setor está mais preparado que na crise de 2008, com mais capital e maior colchão de liquidez.

“Autoridades reguladoras, porém, devem monitorar de perto o setor”, afirma o economista. Segundo ele, como a pandemia é um evento temporário, os bancos poderiam considerar uma flexibilização no pagamento devido por emprestadores mais afetados pela crise, desde que ela seja também temporária.

“A meta precisa ser preservar a saúde financeira dos bancos e a transparência de todo o setor”.

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