Descrição de chapéu

Rússia assume riscos na guerra de preços do petróleo com os sauditas

Pivô do rompimento na Opep, país diz que suporta até uma década de barril a US$ 25

São Paulo

O embate entre Rússia e Arábia Saudita acerca do preço do petróleo é multifacetado e está sob a sombra da crise de demanda do novo coronavírus.

Mas fatores políticos são centrais para entender as motivações do país de Vladimir Putin ao disparar a crise na sexta (6), quando se negou a reduzir a produção da commodity e rompeu com a Opep (cartel dos produtores).

Desde os tempos da União Soviética, hidrocarbonetos são um dos esteios da economia russa, respondendo hoje por 65% das exportações. Entre 30% e 40% do orçamento federal depende dos royalties pagos por quatro grandes estatais petrolíferas, a Rosneft à frente.

Assim, preço do barril é visto como questão de segurança nacional para Putin, que custeia com petróleo boa parte dos chamados Projetos Nacionais, sua série prioritária de iniciativas de infraestrutura.

O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, lamenta com Putin a goleada de 5 a 0 tomada da Rússia na abertura da Copa-2018, com Gianni Infatino (Fifa) ao centro
Em cena exibida em Riad, o herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, lamenta com Putin a goleada de 5 a 0 tomada da Rússia na abertura da Copa-2018, com Gianni Infantino (Fifa) ao centro - Fayez Nureldine - 14.jun.2018/AFP

O gasto militar russo, que chegou a 5% do Produto Interno Bruto do país no auge da bonança petrolífera dos anos 2000 (hoje está em expressivos 3,7%), também é ancorado nessas exportações.

Cioso da história e temeroso de uma crise existencial para seu país, Putin sabe que a combinação de petróleo baixo e despesas altas com defesa foi um dos elementos fulcrais para a crise que levou ao fim do império comunista em 1991.

A raiz do capítulo atual está no começo da década de 2010. Ali, os Estados Unidos passaram a ser os maiores produtores mundiais de petróleo devido à extração do óleo de xisto por meio do fraturamento hidráulico, o “fracking”.

Em 2013, assumiram a ponta do ranking, deixando Arábia Saudita e Rússia para trás —hoje, a fatia de mercado de cada um dos países é 18%, 12% e 11%, respectivamente.

Em 2014, a Opep começou a revidar aumentando a produção, levando a uma guerra de preços destinada a quebrar os produtores de óleo de xisto.

Não deu certo, e a Rússia foi duramente afetada pela queda no preço do barril. Para piorar a situação de Moscou, a anexação da Crimeia naquele mesmo ano levou a sanções ocidentais lideradas pelos EUA, dificultando o acesso russo a crédito. O país entrou em recessão por dois anos (2015 e 2016), e hoje apenas se arrasta com crescimento abaixo de 2%.

Com isso, em 2016 a Rússia topou um acordo com a Opep, criando o grupo Opep+ com alguns outros produtores de fora do cartel. A estratégia foi revertida para os cortes sucessivos de produção, algo aprofundado em 2018.

Novamente, não foi muito eficaz. Os EUA seguiram ganhando mercado e, como os preços do petróleo se recuperaram, seus produtores não quebraram como desejavam seus competidores.

E Washington passou a atacar ativamente a estratégia energética russa ao impor sanções a empresas e políticos ligados ao setor de gás —Moscou domina os mercados europeus do produto.

Isso tudo parece explicar a mudança de posição na sexta. Entre analistas russos, a leitura foi de que o Kremlin perdeu a paciência com a tática e tentou garantir sua fatia de mercado garantida pelo grande volume de produção.

O problema é que isso levou à reação saudita, vista como bastante agressiva apesar de previsível.

A fatura será alta. Se a Rússia tiver de aumentar a produção, como a agência Bloomberg disse que a Rosneft fará, isso é mais custoso para o país do que para os sauditas devido à natureza da extração do petróleo no seu território.

Ao mesmo tempo, o Kremlin está mais preparados do que em 2014 para enfrentar a crise, devido à gestão conservadora de sua economia após as sanções sofridas.

Tem US$ 570 bilhões em reservas internacionais, US$ 100 bilhões a mais que a Arábia Saudita, e US$ 150 bilhões dos quais em fundo soberano que recolhe royalties petrolíferos.

Em 2013, a Rússia dependia de um barril em US$ 115 para equilibrar seu orçamento. Hoje, o valor estipulado é de US$ 51.

Nesta segunda, feriado bancário na Rússia, o Ministério da Economia divulgou que poderia aceitar um barril na casa dos US$ 25-30 de 6 a 10 anos. Se foi uma previsão otimista ou bravata, é incerto.

O rublo ficou no menor patamar em quatro anos na segunda ante ao dólar, mas o regime flutuante baseado em cesta de moedas torna a situação menos aguda do que para os sauditas —cujo rial é atrelado ao dólar.

Como o barril ficou abaixo de US$ 42, foi acionado um mecanismo segundo o qual a Rússia passa 30 dias sem comprar moeda estrangeira e pode acessar o fundo soberano do petróleo para compensar perdas orçamentárias.

Segundo Chris Weafer, diretor da consultoria moscovita Macro-Advisory, o mais provável é que Putin banque a aposta até meados do segundo semestre, talvez outubro. Depois disso, se não houver uma estabilização de preços, terá de voltar à mesa de negociações com os sauditas.

O fator imponderável é a progressão da crise causada pelo novo coronavírus. A demanda mundial pelo petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia divulgou nesta segunda (9), caiu de um acréscimo de 825 mil barris/dia para uma queda de 90 mil barris/dia.

Assim, por mais que russos e sauditas briguem, as condições objetivas de um mundo flertando com a recessão deverão ao fim determinar o resultado da disputa em uma indústria já ameaçada pela crescente rejeição aos combustíveis fósseis.
 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.