Grandes bancos aumentam reservas para cobrir calotes em 85% no primeiro trimestre

Movimento é reflexo do maior risco de inadimplência ante a crise do coronavírus

São Paulo

O risco de calotes por causa da crise provocada pelo coronavírus já começa a impactar o lucro dos bancos.

Juntos, os quatro maiores bancos com capital aberto do país – Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander – elevaram em 85%, para R$ 26,1 bilhões, as provisões contra inadimplência no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período do ano passado.

BB, Bradesco e Itaú elevaram suas reservas no período em 63%, 86% e 147%, respectivamente.​ Como essa reserva fica separada do resultado do banco, o lucro das instituições caiu 20% no Banco do Brasil, 40% no Bradesco e 43% no Itaú.

Itaú, o maior banco do país, dobrou as reservas para cobrir possíveis calotes no primeiro trimestre
Itaú, o maior banco do país, dobrou as reservas para cobrir possíveis calotes no primeiro trimestre - Pilar Olivares - 19.abr.2019/Reuters

Mais comedido com as provisões (alta de quase 20%), o Santander foi o único que registrou crescimento no lucro, de 10,5%.

Os bancos estão se precavendo contra possíveis calotes em função da paralisação na economia causada pelas medidas de contenção da pandemia do coronavírus.

Alguns analistas já estimam, por exemplo, que as provisões para o ano todo apresentem um crescimento de 40% a 60% sobre 2019.

Segundo o analista da Planner Corretora Victor Martins, a decisão dos bancos em aumentar essas reservas também é uma medida de fortalecer seus balanços e se precaver da grande volatilidade dos riscos no mercado.

Desde que a pandemia de Covid-19 ganhou força, grandes empresas sacaram recursos pré-aprovados nas instituições financeiras, o que, segundo os bancos, teria deixado negócios de pequeno e médio porte com menor disponibilidade de recursos.

Os bancos, portanto, que tentavam diminuir a participação das grandes empresas na carteira de crédito, viram o segmento ganhar corpo neste período.

“Essa, agora, é uma dinâmica que teremos que acompanhar ao longo dos próximos trimestres, principalmente porque depende muito de como a economia vai se portar. O que é unânime dizer é que o cenário de risco continua volátil e a tendência é que o segundo trimestre seja ainda mais desafiador para a atividade bancária”, afirmou Martins.

Segundo o professor da Saint Paul Escola de Negócios Maurício Godoi, enquanto os três outros bancos tomaram decisões mais conservadoras sobre o aspecto de risco, o Santander optou por um caminho mais realista em relação às provisões, sem considerar completamente os possíveis impactos das prorrogações de dívidas já contraídas.

Em 16 de março, os cinco maiores bancos do país (inclui a Caixa Econômica Federal) divulgaram nota, por meio da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) afirmando estarem abertos a discutir a prorrogação de dívidas de pessoas físicas e de micro e pequenas empresas que tivessem sido afetadas pelo coronavírus. Até 7 de abril, segundo a federação, mais de dois milhões de pedidos foram recebidos para essa renegociação.

“Essas prorrogações deverão entrar no balanço do Santander já no segundo trimestre e o banco provavelmente vai realizar esse ajuste nas provisões. Nos demais, a tendência é de certa manutenção das reservas”, afirmou Godoi.

O professor afirma, ainda, que passado o momento de saneamento das instituições financeiras –com o Banco Central injetando dinheiro para manter a fluidez do sistema–, a expectativa é que a liberação de crédito aconteça na medida em que a quarentena também for acabando.

“Já em meados de junho devemos ver uma liberação de crédito um pouco mais intensa. E só a partir daí, conforme a economia for retornando, é que o provisionamento dos bancos deve começar a reduzir e poderemos até ver uma certa queda nos spreads [diferença da taxa de captação e dos juros cobrados pelos bancos em empréstimos]. O que não necessariamente significaria em uma redução das taxas de juros nas pontas, principalmente porque a expectativa é de que a Selic [taxa básica de juros] aumente em 2021”, afirmou Godoi.


RESULTADO DOS BANCOS NO PRIMEIRO TRIMESTRE

Banco do Brasil
Lucro: R$ 3,395 bilhões
Carteira de Crédito: R$ 725,1 bilhões
Inadimplência: 3,17%
Receitas com tarifas: R$ 7,067 bilhões

Bradesco
Lucro: R$ 3,753 bilhões
Carteira de Crédito: R$ 655,1 bilhões
Inadimplência: 3,7%
Receitas com tarifas: R$ 8,283 bilhões

Itaú Unibanco
Lucro: R$ 3,912 bilhões
Carteira de Crédito: R$ 573,7 bilhões (Brasil)
Inadimplência: 3,1%
Receitas com tarifas: R$ 11,067 bilhões

Santander
Lucro: R$ 3,853 bilhões
Carteira de Crédito: R$ 463,4 bilhões
Inadimplência: 3%
Receitas com tarifas: R$ 4,482 bilhões

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