Descrição de chapéu Folhainvest

Cautela dos mais ricos freia saques da poupança e indica recuperação lenta

Classes mais altas reduzem consumo e as mais baixas queimam reservas, o que tende a agravar desigualdade social

São Paulo

O saldo recorde da poupança registrado em maio –R$ 921 bilhões– resulta não só do aumento do volume de depósitos, fruto do auxílio emergencial, mas também de uma queda significativa das retiradas.

A queda nos resgates à primeira vista é contraintuitiva, considerando a alta do desemprego e as reduções salariais, fatores que deveriam levar as famílias a usar mais suas reservas.

No entanto, o que parece estar ocorrendo é o movimento contrário, alimentado por uma atitude precaucionista entre as classes média e alta diante de um quadro de incerteza e volatilidade, afirmam economistas.

O dado reforça a avaliação de que o impacto econômico da pandemia está sendo sentido de forma heterogênea por famílias de maior e menor renda, o que pode agravar a desigualdade social.

Em março, quando a pandemia estourou no Brasil, o volume sacado da aplicação foi R$ 209,7 bilhões –valor 5,8% superior ao registrado em fevereiro e 14,4% maior que o observado no mesmo período do ano passado.

Apesar do agravamento causado pela crise do novo coronavírus desde então, o montante resgatado em abril caiu 11,8% em relação a março, para R$ 184,9 bilhões. O número é inferior mesmo ao observado em abril do ano passado (-8,2%), meses antes do início da pandemia.

Em maio ocorre uma recuperação parcial do volume de saques, que volta ao mesmo patamar de fevereiro, mas o montante total permanece inferior na comparação anual (-3%).

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Em maio deste ano, os poupadores sacaram menos e depositaram mais - Gabriel Cabral/Folhapress

Há quatro vetores principais em ação que explicam esse resultado, um no sentido de aumentar os saques e três no de reduzir, analisa Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanco.

Incentiva o aumento dos resgates a perda de renda das famílias, que se viram obrigadas a usar suas reservas. A pandemia levou a uma queda recorde de postos de trabalho –foram 4,9 milhões de vagas perdidas no trimestre encerrado em abril.

Por outro lado, houve também uma redução do consumo, um reordenamento da prioridade dos resgates entre diferentes aplicações e uma redução do ritmo de migração da poupança para outros investimentos, afirma Iglesias.

No primeiro trimestre, o consumo das famílias caiu 2% em relação aos três meses anteriores, pior resultado desde 2001, segundo dados do IBGE. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) projeta um tombo de 11,2% no indicador até o fim do ano.

Já o reordenamento das prioridades de investimento responde a um comportamento de aversão ao risco.

"Nós passamos por uma volatilidade muito forte no mercado. Nesse cenário, algumas pessoas optaram por resgatar os ativos de maior risco em vez da poupança", diz Iglesias.

Esse comportamento explica também o terceiro vetor: em vez de sair da poupança em busca de investimentos com maior retorno, como fundos multimercado –movimento que vinha crescendo nos últimos anos--, os investidores preferiram se manter numa aplicação de menor risco, ainda que de rentabilidade menor.

Outro fator que ajuda a entender a preferência pela poupança em detrimento de outras aplicações de renda fixa é a vantagem de tributação –os rendimentos da aplicação são isentos de Imposto de Renda, aponta Ricardo Barboza, professor colaborador do Coppead (UFRJ) que vem estudando o impacto da incerteza na economia brasileira no período recente.

Esse quadro não é uma exclusividade brasileira: foi visto em escala internacional com o aumento da demanda por títulos do Tesouro americano.

"É como se o mercado de investimento para pessoas físicas tivesse um componente contracíclico. Quando as coisas ficam mais difíceis, aquele que pode, cuja renda não caiu tanto ou não caiu, tende a segurar seus gastos e aumentar as aplicações", afirma o economista do Itaú.

Já José Francisco de Lima Gonçalves, economista do Banco Fator, levanta a hipótese de parte dos beneficiários do auxílio emergencial de R$ 600 não estar resgatando o dinheiro.

Seriam pessoas com condições de se manter com outras fontes, preferindo manter o auxílio na poupança por cautela.

"Quem tem renda média para cima está atrás de rendimento, não de liquidez. Então quem vai para a poupança é quem não faz aplicações mais sofisticadas", afirma.

Claudio Considera, do Ibre (FGV), vai na mesma linha –para ele, a queda nos resgates pode ser resultado da cautela dos beneficiários do auxílio. "Poupança é lugar de guardar dinheiro, não é de quem procura rentabilidade."

A evolução do nível de preços nos últimos meses, no entanto, aponta que a demanda segue em alta entre as classes mais baixas, enquanto as mais altas estão freando seu consumo.

De acordo com o Ipea, houve uma deflação (queda dos preços) de 0,45% na cesta de consumo das faixas de renda mais elevadas no acumulado de janeiro a maio. Já entre as faixas de renda mais baixas, ocorreu o inverso: alta de 0,45% nos preços, puxada pela demanda em alta por alimentos, principal componente da cesta de consumo da base da pirâmide.

"Isso significa que o salário real de quem ganha pouco está diminuindo e o de quem ganha muito está aumentando. Quem consome mais está perdendo renda, quem tem propensão menor ao consumo, aumentando. Em termos agregados isso pode representar um entrave para a recuperação, na medida em que temos dificuldade no nosso melhor motor, que é o consumo entre as camadas de renda mais baixa", diz Barboza.

Débora Freire, professora de economia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que tem pesquisado o impacto do programa de renda emergencial, destaca que a população que está recebendo o auxílio na poupança está sacando. "São pessoas que consomem a maior parte da renda e não têm reserva para poupar", diz.

A economista aponta que as famílias da base tendem a sofrer um impacto na renda em cenários recessivos 20% maior do que a média da população.

As implicações macroeconômicas das diferenças de propensão ao consumo e capacidade de poupança são um dos principais argumentos dos defensores da criação de uma renda básica universal em caráter permanente.

Uma das ideias para financiar o auxílio é elevar a tributação sobre as rendas mais elevadas.

"O que podemos dizer a priori é que o impacto dessa tributação na economia é positivo porque você vai transferir renda de uma classe que consome uma menor parte da sua renda para uma, mais ampla, que tende a consumir uma parte maior", diz Freire.

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