Estrangeiros tiram mais capital do Brasil que a média de emergentes, diz presidente do BC

Campos Neto diz que país não pode contar com financiamento externo no curto prazo

Brasília

O presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto, disse nesta segunda-feira (1) que a saída de capital estrangeiro do Brasil durante a pandemia do coronavírus é superior à média observada em países emergentes.

Segundo ele, o investimento estrangeiro é algo com que o país não poderá contar por enquanto. “Teve uma saída bastante grande”, afirmou durante audiência virtual de comissão do Congresso. “Financiamento externo realmente não é uma variável com que podemos contar no curto prazo”, disse.

Ele apresentou números que mostram a saída do fluxo de capital estrangeiro considerando tanto ações em bolsa como títulos brasileiros de dívida. Há uma queda sucessiva a partir de fevereiro, se somados os dois indicadores. Só em março, por exemplo, houve retirada de US$ 21,3 bilhões. Em abril, de US$ 6,6 bilhões.

Indicadores compilados por outros órgãos confirmam o cenário. Dados do Tesouro Nacional da semana passada mostram que a participação dos não residentes na dívida pública interna caiu para 9,36%, a menor em mais de dez anos. Números da B3 mostram que os brasileiros removeram, só da Bolsa, R$ 65,6 bilhões no ano (até 22 de maio).

O presidente da autoridade monetária mostrou números que evidenciam uma situação do Brasil pior que a de outras economias similares.

Os números fechados na sexta-feira (29) e monitorados pelo BC mostram que o Real teve uma queda de 24,7% no ano. Enquanto isso, moedas de pares internacionais têm quedas mais brandas. É o caso de Índia (5,6%), Chile (6,6%), Rússia (11,85), Colômbia (11,9%), Turquia (12,8%), México (14,8%) e África do Sul (20,2%).

De acordo com Campos Neto, os dados de percepção de risco em todo o mundo pioraram com o crescimento dos casos de coronavírus e afetaram em particular os emergentes.

No Brasil, ele considera que a flexibilização das medidas de quarentena terá um impacto limitado para reaquecer a atividade se considerada a experiência internacional.

“Tem um elemento do fator medo na população, de que mesmo depois que a quarentena for encerrada, ou diminuída, o fluxo de pessoas vai demorar a voltar. Esse fator medo que existe na população vai ficar com a gente até ter uma vacina ou pelo menos até o meio do ano que vem. A volta em alguns setores de serviços vai ser mais lenta”, informou.

O Presidente do Banco Central, Roberto Campos, Neto durante entrevista na sede do banco em Brasília
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante entrevista na sede do banco em Brasília - Andre Coelho - 09.jan.2020/Folhapress

O presidente do BC apresentou dados de tráfego de veículos para mostrar que o fluxo em diversos locais que já passaram por um abrandamento de regras (como Pequim, Wuhan e capitais europeias) ainda está abaixo da média do ano passado.

O enfraquecimento da atividade faz o presidente da autoridade monetária prever que o PIB brasileiro do segundo trimestre terá uma queda ainda mais forte que o do primeiro, que caiu 1,5%. “O segundo trimestre deve ser bem pior que o primeiro. No terceiro, esperamos uma recuperação”, afirmou.

Para mitigar a crise, medidas adotadas pelo BC liberaram liquidez para os bancos. Mas ainda há diferentes reclamações de empresários sobre a falta de acesso a crédito durante a pandemia.

Campos Neto diz ser um mito que bancos privados não estão emprestando. Os números apresentados por ele mostram que houve R$ 491,4 bilhões em novas contratações de 16 de março a 22 de maio. Desse total, 59% foram concedidos por grandes bancos privados e 18% por bancos públicos. O restante foi de bancos médios e pequenos.

“O crédito não está colapsando. Está crescendo, bem mais que na média dos emergentes, e mais inclusive para pessoas jurídicas do que nos mercados desenvolvidos, que fizeram medidas mais potentes”, afirmou.

Ele reconhece, no entanto, que os grandes bancos têm concentrado os recursos em grandes grupos privados. Do total que eles emprestam, 65% vão para essas companhias e apenas 7,8% vão para as micro e pequenas empresas.

Durante a comissão, o presidente da autoridade monetária foi questionado também sobre a suficiência de papel moeda para que a população saque recursos como o auxílio emergencial.

Campos Neto disse que houve uma antecipação de encomenda à Casa da Moeda para mitigar o risco de eventual falta de cédulas. “Muitas dessas pessoas não têm conta corrente e o dinheiro não volta para o sistema. Nos demos conta que tinha mais dinheiro saindo”, afirmou.

As diferentes medidas anticrise adotadas pelo governo e a queda na arrecadação devido ao enfraquecimento da economia vai elevar o rombo nas contas públicas neste ano e, consequentemente, o nível de endividamento.

Para amenizar a gravidade dos números, Campos Neto se disse favorável a transferir o lucro do BC com reservas cambiais ao Tesouro.

A decisão cabe ao CMN (Conselho Monetário Nacional), onde ele tem um dos três votos. Os outros dois são do ministro da Economia (Paulo Guedes) e do secretário especial de Fazenda (Waldery Rodrigues).

Campos Neto ressalva que deve ser mantido algum resultado cambial positivo no BC por causa da volatilidade da moeda neste ano e de um possível resultado negativo logo após a transferência.

De qualquer forma, Campos Neto disse que a venda das reservas não faria diferença para a percepção que investidores têm sobre o risco do país porque eles já consideram esse tipo de ativo nas contas sobre o endividamento público brasileiro.

“Quando os investidores falam disso, eles consideram a reserva. Então do ponto de vista de percepção do risco, não faz diferença”, afirmou.

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