Descrição de chapéu The New York Times

Airbus demitirá 15 mil trabalhadores antecipando desaceleração longa nas viagens aéreas

Gigante europeia avalia que pode levar até 2025 para que viagens retomem patamar anterior à pandemia

The New York Times

A pandemia do coronavírus continua a causar desgaste na aviação mundial, e a gigante aeroespacial Airbus anunciou na terça-feira que cortaria quase 15 mil empregados de sua força de trabalho mundial, o maior corte de pessoal na história da companhia.

Mencionando uma queda de 40% nas atividades de negócios do setor de aviação comercial e a “crise sem precedentes” que a indústria aeronáutica enfrenta, a Airbus anunciou que cortaria cerca de 10% de seus postos de trabalho em todo o mundo, com demissões em suas operações na França, Alemanha, Espanha e Reino Unido.

Guillaume Faury, o presidente-executivo da companhia, vinha preparando o pessoal para um período difícil por meio de uma série de memorandos nos quais alertava que a companhia teria de se adaptar a um declínio duradouro na demanda por jatos de passageiro. A Airbus disse na terça-feira que não acreditava que a demanda por viagens aéreas venha a retornar ao nível anterior à pandemia antes de 2023, ou possivelmente antes de 2025.

“A Airbus está enfrentando a crise mais grave que este setor já encarou”, afirmou Faury em comunicado na terça-feira. “Devemos garantir nossa capacidade de sustentar nossa empresa e emergir da crise como um líder saudável do setor aeroespacial mundial, nos ajustando aos pesados desafios que nossos clientes enfrentam”.

As demissões representam uma reviravolta dramática na situação da maior fabricante mundial de aviões, fundada 50 anos atrás.

Em fevereiro, quando sua rival americana, a Boeing, continuava a sofrer os efeitos da paralisação das operações de seu modelo 737 Max, que já durava um ano, a Airbus tinha uma longa lista de encomendas esperando atendimento. A produção do jato A320 – o principal concorrente do 737 Max e responsável pelo grosso das vendas da Airbus – estava atrasada em meses devido à desaceleração do trabalho em algumas das fábricas europeias da companhia.

Quando a pandemia do coronavírus causou a paralisação de boa parte do setor mundial de viagens aéreas, o desempenho da Airbus caiu como o do restante do setor. As companhias de aviação agora planejam enfrentar alguns anos de demanda reduzida, e com isso uma necessidade menor de aviões novos.

A empresa vai demitir cinco mil de seus 49 mil trabalhadores na França, 5,1 mil dos 45,5 mil trabalhadores que tem na Alemanha, 900 dos 12,5 mil empregados na Espanha e 1,7 mil dos 11 mil empregados no Reino Unido. Outros 1,3 mil trabalhadores serão demitidos em outras unidades da Airbus em todo o mundo, com cerca de 900 desses cortes acontecendo em função de uma reestruturação planejada antes da pandemia.

Os cortes de pessoal serão discutidos com os sindicatos que representam os trabalhadores da companhia na Europa, afirmou a Airbus, e devem ser concluídos no máximo até a metade do ano que vem. A companhia vai buscar atingir suas metas por meio de demissões voluntárias, aposentadorias antecipadas e esquemas para emprego de tempo parcial em longo prazo, nos casos em que isso seja apropriado, anunciou a Airbus.

O governo francês, que vem tentando impedir ondas de demissões por meio de medidas de apoio às empresas, classificou o número de demissões como “excessivo”. “Antecipamos que a Airbus utilize os recursos oferecidos pelo governo para reduzir o número de cortes de empregos”, disse um porta-voz do Ministério das Finanças da França.

A Airbus já tinha começado a reduzir em cerca de um terço a produção de seu popular jato A320, de fuselagem estreita, e do modelo A350, de longo alcance, desde abril, quando quarentenas para conter a expansão da pandemia começaram a ser impostas em toda a Europa. Isso representou um declínio de 40% no número de aviões que a companhia planejava produzir em 2020 e 2021.

Pesquisas publicadas na semana passada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), alertavam que o setor aeronáutico europeu deve sofrer prejuízos de US$ 21,5 bilhões em 2020, com a queda de mais de 50% na demanda por passagens devido às restrições mundiais continuadas às viagens.

A Boeing anunciou 16 mil demissões no final de abril, depois que seu presidente-executivo David Calhoun afirmou que o coronavírus havia criado “desafios completamente inesperados”.

A receita da Boeing com a venda de aviões comerciais caiu em quase 50%, e a fabricante de aviões só recebeu 49 pedidos novos e teve 196 aviões cancelados entre janeiro e março. A companhia recebeu recentemente autorização para iniciar os testes de voo do 737 Max reformulado.

A Airbus está enfrentando problemas a despeito do enorme programa de assistência para a indústria da aviação anunciado em junho pelo governo francês, que inclui assistência de 15 bilhões de euros (quase US$ 17 bilhões) à Air France, Airbus e aos grandes fornecedores franceses de componentes aeronáuticos.

Mas embora o governo tenha apelado às empresas que receberão assistência para que não recorram a demissões, não há regras que proíbam cortes.

“A Airbus agradece pelo apoio do governo, que permitiu que ela limitasse as medidas de adaptação necessárias”, afirmou a companhia.

“No entanto, já que o tráfego aéreo não deve voltar aos níveis anteriores à Covid antes de 2023 e possivelmente nem antes de 2025”, o comunicado prosseguia, “a Airbus agora precisa tomar medidas adicionais a fim de refletir o panorama do setor depois da Covid-19”.

Tradução de Paulo Migliacci

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