Bradesco volta a aumentar reserva para calotes e lucro tem novo tombo de 40,1%

Banco mais que dobrou provisões no período, para R$ 8,9 bilhões

São Paulo

O lucro líquido do Bradesco caiu 40,1% no segundo trimestre de 2020 ante igual período de 2019, para R$ 3,9 bilhões.

A segunda queda seguida, em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Nos primeiros três meses do ano o lucro havia caído 39,8%. No entanto, comparando o primeiro trimestre com o segundo trimestre deste ano, o lucro teve leve alta de 3,2%.

O resultado do banco no acumulado do ano é um lucro de R$ 7,6 bilhões –o pior para o período desde 2014, durante a crise, quando registrou lucro de R$ 7,3 bilhões no primeiro semestre.

Lucro do Bradesco tem novo tombo de 40%
Lucro do Bradesco tem novo tombo de 40% - Kevin David - 3.nov.2018/Folhapress

O novo tombo do segundo trimestre foi causado por mais um forte aumento das reservas para cobrir calotes, consequência dos danos econômicos do coronavírus. O Bradesco –que já havia separado um volume 86% maior de recursos em março para tentar conter os impactos da pandemia– dobrou as provisões feitas entre abril e junho em relação ao mesmo trimestre de 2019.

A alta foi de 154,9%, para R$ R$ 8,9 bilhões. Desse total, foram R$ 3,8 bilhões relacionados ao ramo financeiro e R$ 747 milhões ao ramo de seguros.

Segundo o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, a provisão adicional foi feita conservadoramente com base na incerteza sobre a extensão e a dimensão total da crise do coronavírus.

"As provisões acontecem sempre em função da expectativa de perdas futuras da carteira de crédito e são embasadas em informações históricas e prospectivas. Estamos bem provisionados para o momento, mas continuaremos seguidamente avaliando o cenário e fazendo novos ajustes se for necessário", disse em entrevista à jornalistas nesta quinta-feira (30).

"O cenário econômico ainda é difícil, mas dá para dizer que aparentemente o pior momento já passou", afirmou.

Em relatório, o banco também afirmou que seus estudos internos, que são baseados em modelos estatísticos e que refletem a expectativa de perdas do banco em diferentes cenários econômicos indicaram a necessidade de reforço nas provisões.

“Muito embora o tamanho do impacto na economia e a duração da crise ainda seja incerto, continuamos evoluindo em nossas operações de crédito. [...] Evoluções que impactam as despesas com PDD [Provisão para Devedores Duvidosos] em função das provisões mínimas requeridas pelo Banco Central”, disse o banco em nota.

Ainda segundo o Bradesco, outra consequência do cenário econômico adverso foi a redução nas receitas com recuperação de créditos e aumento nas despesas com descontos concedidos e impairment (custos com deterioração) de ativos financeiros.

No período, a carteira de crédito expandida do banco atingiu R$ 661,1 bilhões, alta de 14,9%. Esse avanço foi puxado principalmente pelos empréstimos para pessoas físicas, que subiram 12,3%, para R$ 236 bilhões.

Os empréstimos para pessoas jurídicas registraram alta de 16,4%, para R$ 425,1 bilhões, com o crédito para as grandes empresas subindo 18,2% no período, para R$ 310,2 bilhões e os recursos voltados para micro, pequenas e médias empresas com avanço de 11,7%, para R$ 114,9 bilhões.

Em relação aos três primeiros meses do ano, no entanto, a carteira de crédito do banco subiu apenas 0,9%, sendo puxada apenas pelos recursos cedidos às grandes empresas, que subiram 4,5%. Os empréstimos voltados para pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas reduziram 1,3% e 3,6%, respectivamente no período.

Segundo o presidente do Bradesco, já houve uma melhora da confiança, com o pagamento do auxílio emergencial pelo governo e que entre abril e maio foram liberados cerca de R$ 129 bilhões em crédito novo.

"Além disso, é muito provável que tenhamos atingido o pico do custo de crédito no segundo trimestre e há algum espaço para redução, mas sempre a depender da extensão da crise ou de uma eventual reincidência de novos casos", afirmou.

A inadimplência total acima de 90 dias ficou em 3%, queda de 0,2 p.p. (ponto percentual) ante igual período de 2019 e de 0,7 p.p. em relação ao primeiro trimestre.

Segundo Lazari, em função das prorrogações de vencimentos e renegociações feitas pelo banco nos primeiros meses da pandemia, a expectativa é de que haja um aumento na inadimplência no final deste ano e em 2021.

"Este é o período no qual as prorrogações e renegociações começam a vencer e quando provavelmente vamos sentir esse reflexo. A expectativa é que a inadimplência das prorrogações seja pequena, mas temos que esperar", afirmou.

O Bradesco prorrogou R$ 61 bilhões desde o início da pandemia. Desse total 93% eram contratos que estavam em dia, 71% possuíam garantia real e 96% estavam com uma nota de crédito (rating) alta.

A margem financeira do banco (principal receita, gerada com operações de crédito) subiu 15,3%, para R$ 16,7 bilhões. Já as receitas com prestação de serviços caíram 7,9%, para R$ 7,6 bilhões e, além do ambiente econômico, também podem ter refletido a maior concorrência nos setores de cartões e investimentos, por exemplo.

Segundo o presidente do Bradesco, a pandemia também acelerou o processo de digitalização do banco, situação que deve ter reflexos tanto no número de agências como no crescimento do Next, banco digital da instituição.

"Houve uma redução muito significativa de transações nos caixas das agências. Essa migração para os canais digitais abre espaço para que a gente aprofunde ainda mais todos os processos de transformação do atendimento nas nossas agências", disse.

O banco terminou o segundo trimestre com 4.167 agências físicas —queda de 9% em relação a igual período de 2019.

De acordo com Lazari, o Next deve manter a trajetória de crescimento até o final do ano. "Estamos terminando o processo de segregação [entre] o Next e o Bradesco. O banco digital será uma empresa totalmente separada, com políticas e gestões próprias. Isso deve ser concluído até o final do ano", afirmou.

Em novembro de 2019, o executivo já havia anunciado a intenção de tornar o Next um banco independente. O objetivo é fazer com que a plataforma siga regulamentações mais leves impostas pelo BC (Banco Central) e equivalente a de seus concorrentes digitais. A medida também diminuirá os custos operacionais e regulatórios do banco.

A projeção inicial era de que o processo de segregação fosse concluído em março deste ano, mas o prazo foi adiado por conta da pandemia do coronavírus.

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