É difícil acreditar que essa recuperação das Bolsas é apropriada, diz Howard Marks

Para um dos maiores investidores do mundo, alta do mercado de ações não condiz com o cenário econômico e 'sorte não está do lado do investidor'

São Paulo

Um dos maiores e mais influentes investidores do mundo está surpreso e desconfiado da recuperação do mercado de ações globais nos últimos meses. Para o americano Howard Marks, co-fundador e presidente da Oaktree, gestora com mais de US$ 100 bilhões em ativos, a alta das Bolsas não condiz com o cenário econômico.

“Temos uma doença terrível e a pior economia em 80 anos, então é difícil para mim acreditar que, baseado em fundamentos, é algo apropriado”, disse em evento da XP Investimentos nesta sexta (17).

Painel da B3 mostra o índice Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores brasileira
Painel da B3 mostra o índice Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores brasileira; mercados de ações têm se recuperado do tombo de março nos últimos meses - Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress

O S&P 500, maior índice acionário dos Estados Unidos, recuperou toda a queda com a pandemia e apresenta leve alta de 0,11% em 2020. Em março, o índice despencou 12,5% com o avanço dos casos de coronavírus no país e a consequente interrupção das atividades para frear a Covid-19. O desemprego no país, porém, segue elevado, com 13% da população sem trabalho, nível mais alto da série histórica, que começou em 1947.

Ele diz que há uma expectativa de recuperação nos próximos anos, mas que, apesar dos avanços das vacinas em teste, ainda há muita incerteza e para mercados emergentes o efeito pode ser ainda mais devastador.

“Emergentes são mais voltados a exportação do que ao mercado interno, então, quando os negócios param ao redor do mundo, há um grande efeito nos mercados emergentes. Outro ponto é, há 20 anos, esses países não tinham tanta dívida, mas nos últimos 15 anos, essas economias estavam indo bem e eles conseguiram pegar emprestado grandes quantias em dólar, porque era mais barato. Mas, nos próximos anos, eles vão ter dificuldade em atrair dólares para pagar essas dívidas e alguns países podem ter crises cambiais”, diz Marks.

Ele diz que, graças à massiva injeção de dinheiro dos bancos centrais e governos a economia não viverá uma depressão, mas que deve ter uma das piores recessões da história. Por outro lado, os estímulos podem gerar inflação. “Não acho possível empurrar trilhões de dólares na economia sem efeito nos preços”

Outra consequência da intervenção, apontada por Marks, foi no psicológico dos investidores.

“A intervenção do Fed [banco central dos EUA] no mercado gerou Fomo [sigla para medo de perder oportunidades, em inglês], de perder dinheiro. Mas não se pode agir emocionalmente, se deve comprar apenas ativos que têm valor intrínseco quando o seu valor está abaixo do que realmente vale.”

Segundo Marks, os preços das ações estão muito altos. “Se a vacina não vier como esperado, se a pandemia piorar ou a economia não melhorar há espaço para cair, mas não tanto para subir. A sorte não está do lado do investidor”.

Ele recomenda diversificar os investimentos para mitigar riscos, com ações e títulos de dívida, mas ressalta “investimento é algo complicado e deve ser deixado para especialistas”.

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