Países da Ásia deverão sair da crise antes dos ocidentais

Boas condições fiscais permitiram adoção de medidas de suporte à economia

São Paulo

Países asiáticos, em especial a China, devem sair da crise econômica atual mais cedo do que a maioria das economias do Ocidente.

Segundo projeções recentes do FMI (Fundo Monetário Internacional) para 30 países selecionados, só dois devem fechar 2020 com crescimento: China e Egito. Outros sete devem ter em 2021 crescimento suficiente para compensar a queda deste ano e fechar o biênio no azul: Índia, Indonésia, Cazaquistão, Coreia do Sul, Malásia, Paquistão e Filipinas.

Com exceção do Egito, todas são economias asiáticas, região onde o novo coronavírus surgiu —até onde se sabe— e que foi a primeira a adotar medidas de isolamento social.

A explicação para o desempenho superior ao de países desenvolvidos da Europa e da América vai além da questão temporal. Deve-se também à estrutura dessas economias, ao ritmo anterior de crescimento e à forma como reagiram ao vírus a partir de experiências passadas.

Três dos nove países citadas têm as projeções beneficiadas por considerarem para 2020 o ano fiscal que começou em abril, o que exclui os dados do primeiro trimestre, período em que o vírus provocou forte retração econômica nessas regiões. São eles, Egito, Índia e Paquistão.

Quando se considera a diferença entre o crescimento acumulado em 2018-2019 e o desempenho médio do PIB (Produto Interno Bruto) previsto para 2020-2021, a desaceleração verificada na Malásia, nas Filipinas e no Cazaquistão se aproxima da esperada para o Brasil.

Feitas essas ponderações, restam três países com desempenho de fato superior à média mundial nesta crise: China, Indonésia e Coreia do Sul.

Para o Banco Mundial, a maioria dos países do Leste da Ásia está mais bem preparada para lidar com a crise atual, devido ao histórico recente de forte crescimento e às boas condições fiscais, que permitiram adotar fortes medidas de suporte à economia.

A economista Fabiana D'Atri, do Bradesco, especialista na região, afirma que uma diferença importante no caso da China é a dependência do setor de serviços, menor do que a verificada nos países ocidentais da amostra. Outra questão é o espaço para investimentos em infraestrutura, setor menos afetado pela questão do distanciamento.

"Quando você faz exercícios sobre a trajetória de retomada, mesmo assumindo que alguns setores vão continuar operando abaixo de 100% da capacidade, você consegue ver a China retornando em meados de 2021 [ao patamar anterior à crise]", afirma.

"O país tem capacidade de resposta, seja porque a queda foi menos intensa, seja por depender menos dos serviços ou pela capacidade de resposta em infraestrutura, que é onde a China está colocando o programa de estímulos de forma mais evidente."

Ela afirma que não se pode desprezar o tamanho da desaceleração econômica na região. A China cresceu 6,7% em 2018, 6,1% em 2019 e deve avançar 1% neste ano. Estatisticamente, seria muito difícil ter uma retração em 2020.

Outros países da região que também têm conseguido reduzir a propagação do vírus e, consequentemente, seu impacto econômico, também se beneficiam da resistência chinesa.

"A Ásia não foi tão impactada pela pandemia, e há o efeito de respingo da melhora da China em outros países, por causa da cadeia industrial e também pela demanda de commodities", diz Fabiana.

Marcel Balassiano, pesquisador da área de Economia Aplicada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e autor de estudo baseado nas projeções do FMI, afirma que um crescimento de apenas 1% para China é algo que pode ser considerado praticamente como uma recessão para o país.

Diz, porém, que esse é um dos poucos países em que será possível falar em recuperação em "V", referência à volta rápida ao nível anterior à crise.

"É preciso colocar no contexto que a China crescer 1% pode se considerar recessão, um desempenho muito aquém dos últimos anos. Mas foi o primeiro país a sair da crise, e a recuperação para o ano que vem será forte", diz Balassiano.

"Essa crise pegou economias avançadas muito fortemente, que vão ter perdas muito grandes neste ano e no próximo."

Balassiano afirma que dois países (China e Índia), que correspondem a quase metade do peso das economias emergentes e 27% do peso da economia mundial, estão com um crescimento muito baixo em 2020. A situação, segundo ele, é completamente diferente da última crise (2008/2009), quando, apesar de o peso dos dois países emergentes ser menor na economia mundial (19%), ainda apresentaram taxas de crescimento próximas de 10%.

Para o professor do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV (FGV NPII) Leonardo Paz, países do Ocidente poderiam ter aprendido com a experiência da Ásia, atingida antes pela crise, mas demoraram a reagir, vão ter mais dificuldade para se recuperar e devem perder parte do mercado internacional para quem já está retomando a produção.

"Dado que vários países vão demorar mais a sair desse processo, vão ter por mais tempo empresas produzindo abaixo do que elas podem, a China e a Coreia do Sul estarão mais bem capacitadas para suprir um aumento de demanda", afirma.

Autor de estudo sobre a Coreia do Sul, Paz destaca a efetividade dos pacotes econômicos desses dois países, que ajudaram suas empresas a lidar melhor com a situação. Lembra ainda que houve um engajamento da sociedade, incluindo empresas, em adotar medidas de distanciamento e investir testagem e monitoramento.

"A retomada será mais rápida porque eles vão sair primeiro da crise. O desemprego é recorde, mas não é tão pesado, e eles estão investindo. As empresas estão conseguindo lidar melhor."

Ele afirma que a crise deve levar a uma reorganização das cadeiras globais de valor, com a necessidade de diversificar mais os fornecedores. Isso, somado ao elemento de grande desgaste da China por ter se tornado o epicentro da crise sanitária, pode beneficiar os sul-coreanos, na avaliação de Paz.

“A Coreia pode se dar muito bem, se reposicionar. Já é um país muito competitivo, quase tão competitivo quanto a China. Ela pode ser uma alternativa como fornecedor.”

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