Descrição de chapéu
Washington Olivetto

Grandes ideias ficam ainda maiores em tempos de Covid

Nesse atípico ano de 2020, tenho aprendido muita coisa no geral observando o mundo a partir de Londres

Washington Olivetto

Único publicitário não anglo-saxão no Hall of Fame do One Club de Nova York e no Lifetime Achievement do Clio Awards

Neste ano da Covid-19, repleto de medos, preocupações e tristezas, tenho também convivido com aprendizados e novidades.

Aprendi nesta Londres onde moro, cidade ainda bastante angustiada por não saber se a Covid vai, se a Covid fica ou se a Covid volta, que os londrinos andam cada vez mais apaixonados pela comida espanhola.

Desde restaurantes como o Arros QD, no bairro Fitzrovia, do chef três estrelas Michelin Quique Dacosta, com preços igualmente estrelados, até bares de tapas como o Barrafina, no Soho, e o Sabor, em Mayfair.

Barrafina e Sabor não cobram o preço da fama, apesar de até merecerem, mas quem faz isso com esperteza é o chefe nada espanhol, absolutamente inglês, Gordon Ramsay.

No seu restaurante de comida internacional, chamado Petrus, nome do vinho mais cultuado do planeta, Gordon Ramsay serve um menu degustação de boa qualidade, mas nada excepcional, só que acompanhado de vinhos em taça que combinam com cada um dos pratos e custam os olhos do cara.

Trata-se do velho truque de comprar em garrafa e vender em copo, travestido de elegante e exclusivo. Faz sucesso e dá dinheiro para o seu criador.

Quem também inventou mais uma maneira de ganhar dinheiro nesse ano da pandemia foram os Rolling Stones, que montaram uma loja na Carnaby Street com arquitetura de vanguarda, venda de todos os seus discos originais em vinil, camisetas, jaquetas, livros e muitos outros produtos dessa marca que só traz satisfaction.

Uma funcionária usa uma máscara de marca na loja dos Rolling Stones na rua 9 Carnaby Street, Londres - Isabel Infantes - 8.set.2020/AFP

Na loja da Carnaby, uma máscara anti-Covid, daquelas que custam uma libra em qualquer lugar londrino —e em muitos lugares são até dadas de graça— custa 15 libras (R$ 110) porque tem impressa a língua dos Stones.

Na publicidade, tenho também observado algumas coisas interessantes aqui em Londres e no mundo.

A publicidade que nesse ano de 2020 precisou ser mais de informação, do que de persuasão, gerou, sim, um momento de alto brilho informativo: a peça de lançamento do novo Fiat 500 Elétrico, protagonizada pelo presidente mundial da montadora, Olivier François.

Num vídeo de 20 minutos, veiculado na internet, ele comenta que o novo Cinquecento se adequa ao novo mundo, onde o carro elétrico, que não polui o ar, nem o som, é fundamental, mas sem deixar de ser um ícone da beleza, tradição desse pequeno automóvel, que há muitos e muitos anos é exemplo de design no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Já na área da persuasão, eu que, historicamente, não me encanto com campanhas políticas, adorei um comercial da campanha do candidato democrata Joe Biden, demonizando o candidato republicano Donald Trump.
Esse comercial mostra que todos os presidentes norte-americanos, independentemente dos seus partidos, sempre tiveram seus cães, com exceção de Trump, que diz odiar cachorros e, assim, é mostrado como um sujeito cruel e desumano.

Na verdade, no negócio da publicidade, seja informativa ou persuasiva, uma coisa continuará sendo sempre fundamental, que é a presença da grande ideia.

Outro dia, caminhando pela Kings Road, vi uma placa na porta de um prédio que dizia: “Igreja St. John’s. A igreja para quem não gosta de ir à igreja”.

Me interessei e entrei para perguntar quem tinha criado aquele conceito tão original. Conversei com o autor, um padre protestante, que me disse que achava que as igrejas, tanto a católica quanto a protestante, andavam muito aborrecidas, afastando os seus fiéis com rituais pré-históricos. E que ele tinha resolvido fazer na sua igreja cerimônias alegres, aparentadas com as cerimônias das igrejas do Harlem de Nova York, com aqueles coros musicais de onde saíram grandes estrelas do jazz e da música pop. Sua igreja virou um sucesso.

Grandes ideias são fundamentais: pouco tempo atrás, jovens designers de Amsterdã, na Holanda, tiveram a ideia de comprar roupas de grifes famosas, mas já usadas, como Burberry, Yves Saint Laurent e Chanel, e remontar essas roupas costuradas em marcas populares como Nike, Adidas e Reebok. Geraram assim uma nova grife chamada 1/Off.

A igreja St.John's, pra quem não gosta de ir à igreja, em Kings Road, Londres
A igreja St.John's, pra quem não gosta de ir à igreja, em Kings Road, Londres - Washington Olivetto/Folhapress

Começaram vendendo suas roupinhas por quase nada em Amsterdã, depois acabaram vendendo algumas peças por um precinho melhor nas lojas mais undergrounds de Paris e, em menos de dois anos, já se transformaram em atração da luxuosíssima department store Harvey Nichols, de Londres, onde a somatória de uma capa usada da Burberry com uma camiseta usada da Nike é vendida por mais de 2.000 libras (R$ 14.6330) e considerada como símbolo da reciclagem no mundo moderno.

No capítulo reciclagem, outro projeto interessante é o que foi feito em cima dos antigos estúdios da BBC Television Centre, de Londres. Aqueles tradicionais estúdios criados em 1960, no bairro de White City, continuam lá, mas em cima deles foram construídos prédios residenciais, com arquitetura de vanguarda e apartamentos que custam de 900 mil a 7 milhões de libras (R$ 6,583 milhões a R$ 51,2 milhões).
Na recepção dos prédios, os talentosos empreendedores criaram uma espécie de museu do design mundial, que encanta habitantes e visitantes.

Nesse atípico ano de 2020, tenho aprendido muita coisa no geral observando o mundo a partir de Londres, mas aprendi também algo surpreendente no particular. Não sabia, mas muitos ingleses têm a mania de pesquisar quem nasceu e quem morreu no dia em que eles nasceram.

Eu só sabia que eu tinha nascido num 29 de setembro, dia de São Gabriel Arcanjo, o anjo que fez a anunciação à Virgem Maria, e até usei esse fato para dizer que por causa disso eu não podia ter me transformado em outra coisa na vida, que não fosse um publicitário.

Mas influenciado pelos ingleses acabei pesquisando e descobrindo que no dia 29 de setembro nasceram também, o autor de Dom Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes, o pintor italiano Caravaggio, o primeiro medalhista olímpico brasileiro, Adhemar Ferreira da Silva, a gostosíssima atriz e modelo sueca Anita Ekberg e o genial dramaturgo Plínio Marcos.

Assim como descobri que morreram num 29 de setembro o escritor francês Émile Zola, o escritor brasileiro Machado de Assis, o pintor norte-americano Roy Lichtenstein, a adorável Hebe Camargo e a ‘sapoti’ Ângela Maria.

Me surpreendi sabendo disso tudo, mas acho que a informação sobre os mortos não procede. Gente como Émile Zola, Machado de Assis, Roy Lichtenstein, Hebe Camargo e Ângela Maria não morrem jamais. Independente do ano ter ou não ter Covid.​

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