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O que fazer quando a carteira de ações está negativa?

Desvalorização da Bolsa pode assustar investidores de primeira viagem

São Paulo

Se o número na tela inicial da corretora estiver negativo, a primeira coisa a se fazer é ter calma. Este valor diz respeito a qual seria seu lucro caso venda as ações naquele momento. Segundo especialistas, a realização da perda é um erro que muitos investidores de primeira viagem cometem com medo de perder mais.

Tal atitude pode até ser benéfica, dependendo do perfil e carteira do investidor, em casos de mudança de paradigma, como o início de uma longa e severa crise econômica ou alterações relevantes na empresa investida, que devem impactar significativamente os resultados.

Foi este pensamento que levou a vendas generalizadas de ações no início da pandemia. Com estímulos econômicos massivos em diversos países e a recuperação da atividade, porém, o investidor ficou menos temeroso e voltou a comprar Bolsa. No geral, porém, a venda com prejuízo deve ser evitada.

“Se a pessoa tem reserva de emergência e respeita seu perfil de risco, o efeito negativo [da queda nas ações] é menor. A melhor coisa é aguardar, ter paciência e não sair de um ativo para o outro em curto espaço de tempo”, diz Marco Harbich, estrategista da Terra Investimentos.

Segundo Harbich, se o investidor tem um apetite maior por risco e espaço na carteira para mais ações, ele pode aproveitar a queda dos papéis para comprar mais. “As ações da Petrobras são um bom exemplo”, diz.

Antes da pandemia, as ações preferenciais (sem direito a voto em assembleia) da estatal estavam a R$ 30,55. Chegaram a R$ 11,29 em março e R$ 23,48 em agosto. Na última sexta (16), fecharam cotadas a R$ 19,33. “É uma boa oportunidade de compra”, diz o estrategista.

O Ibovespa, índice que reúne as 74 maiores empresas da Bolsa, está cotado a 98 mil pontos, mesmo patamar de junho de 2019, antes de ser aprovada a reforma da Previdência. Este também é o mesmo nível de junho deste ano, com a recuperação da Bolsa após o tombo do começo do ano.

Já o patamar de 100 mil pontos foi alcançado pela última vez em 19 de setembro. Ele também vigorou em julho desde ano e do fim de junho de 2019 a março de 2020, quando a OMS declarou pandemia de Covid-19.

Os pontos da Bolsa equivalem a reais. Ou seja, se gastaria R$ 98 mil para comprar todas as ações que compõem o índice hoje, na proporção que ele é calculado. A Petrobras, por exemplo, tem a maior participação, com 8,7% da carteira teórica do índice.

Assim, quanto menor a pontuação do Ibovespa, mais baratas estão as ações.

"O receio sobre o fiscal segue travando o Ibovespa e seu ímpeto em romper os 100 mil pontos. Enquanto não houver uma medida efetiva do governo a favor do avanço da agenda de reformas, o que deve ser feito somente no final do ano, o mercado seguirá ressabiado em aumentar posição [na Bolsa] e no limite vai aproveitar a alta recente para realizar lucro”, afirma Rafael Ribeiro, analista de renda variável da Clear Corretora.

Segundo Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama, é preciso olhar no longo prazo. Desde outubro de 2018, o Ibovespa sobe 23,90%. A poupança, por exemplo, rendeu 7,33% e o CDI, que acompanha a Selic, 10,11%.

“O brasileiro quer ver resultados do mês e quando uma coisa está negativa, foca apenas naquilo, mas se deve esticar o horizonte de investimento. É uma pandemia, as coisas vão se ajustar.”

Para preservar os rendimentos em momentos de turbulência, os especialistas recomendam diversificar a carteira com títulos do Tesouro prefixados e títulos pós-fixados (IPCA e Selic), CDBs (certificado de depósito bancário), fundos de investimento e ativos de segurança, como o ouro e o dólar, que tendem a se valorizar quando a Bolsa cai.

Harbich, da Terra, diz que o cenário atual é complicado e a Bolsa deve seguir pressionada. Ele cita o impasse entre republicanos e democratas para a liberação de um novo pacote de estímulo econômico nos Estados Unidos, a nova onda de coronavírus na Europa e o risco fiscal brasileiro como fatores negativos para o mercado de ações, pois podem impactar o crescimento econômico dessas regiões.

“O cenário todo é ruim. Temos vários problemas e, neste momento, o objetivo deve ser se proteger, obedecendo a tolerância de risco na carteira”, diz o estrategista.

Para identificar o seu perfil de risco (agressivo, arrojado, moderado ou conservador), é preciso fazer testes disponíveis em corretoras e bancos, que levam em conta patrimônio, idade, objetivo para o investimento, tolerância ao risco, estabilidade no trabalho, entre outros.

Segundo Harbich, o ideal é refazer o teste a cada ano, pois a tolerância a risco pode mudar. “Adoro Bolsa, mas fui demitido ou vou comprar imóvel em seis meses. Não dá para ir para ações. Também é preciso casar o perfil, com o momento de vida do investidor e cenário macroeconômico”.

COMO SABER SEU PERFIL DE INVESTIDOR

Conservador

O conservador preza estabilidade do investimento. Ele quer saber qual será o rendimento ao fim do mês, sem arriscar perder dinheiro ou ter surpresas no meio do caminho. No passado, mantinha toda a carteira em renda fixa, mas, com a queda da rentabilidade, analistas recomendam uma pequena alocação em fundos multimercado.

Moderado

O moderado aceita mais oscilações nos investimentos, especialmente a longo prazo, mas também preza a garantia do retorno. Sua carteira é mais diversificada do que a do conservador, com maior espaço para a renda variável.

Arrojado

O arrojado está mais disposto a correr risco em nome do retorno maior. Ele tem mais tranquilidade para lidar com oscilações bruscas do mercado de renda variável, que ocupam boa parte da carteira.

Agressivo

O agressivo não tem medo de perder em algumas aplicações para ganhar em outras. Ele tem sangue frio para aguentar o tranco de uma queda brusca de ações.

É importante destacar que investimentos devem ser encarados como de médio a longo prazo. Investimentos com retornos de curto prazo podem ser muito arriscados e levar a prejuízos.

Geralmente, corretoras e bancos avaliam o seu perfil, de acordo com idade, renda profissão e objetivos.

COMO DIVERSIFICAR INVESTIMENTOS

Depende do apetite a risco, pessoas de perfil conservador devem ter a menor parte da carteira em ações, por exemplo. Veja diferentes tipos de investimento:

Pós-fixados
Acompanham a taxa de juros. Se o juro sobe, a rentabilidade aumenta; se ele cai, o ganho diminui. São os investimentos mais seguros, e mesmo as pessoas mais arrojadas têm uma parcela de seu dinheiro nesses produtos. CDBs de bancos pequenos, vendidos em corretoras, pagam mais que os grande bancos. A aplicação é longo prazo, e o dinheiro fica parado até o vencimento.

Opções: poupança, CDBs, LCA e LCI, Tesouro Selic e fundos DI

Prefixados
Têm uma taxa de juros combinada no momento da aplicação, que não muda mesmo que a Selic suba ou caia. Há risco em caso de venda antecipada e é o primeiro patamar de diversificação.

Opções: Tesouro prefixado e CDBs de bancos pequenos

Inflação
São investimentos que pagam uma taxa de juros fixa mais a variação da inflação no período. Mudam de preço todo dia, então, para evitar risco perdas, o investidor precisa mantê-los até o vencimento.

Opções: Tesouro IPCA+ e CDBs de bancos pequenos

Fundos multimercados
Investem em mais de um tipo de ativo. Geralmente combinam aplicações conservadoras, como títulos públicos, com ativos mais arriscados, que podem ser dívidas em empresas, ações e dívidas de empresas no exterior. Para saber no que um fundo investe, é preciso ler o informativo

Ações
Ações são a menor fração de capital de uma empresa, podendo ser negociada em Bolsa. Este tipo de investimento é indicado para pessoas de perfil arrojado. É possível escolher papéis individualmente ou investir por meio de fundos de ações ou que acompanham um índice (ETFs).

GLOSSÁRIO DOS INVESTIMENTOS

  • Os principais investimentos de renda fixa de bancos são CDBs, LCAs e LCIs; quanto maior o banco, menor a remuneração, porque o risco de calote é menor; as letras de crédito são isentas de IR; em caso de calote, há cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até R$ 250 mil por CPF e instituição financeira
  • Empresas emitem debêntures, e o dinheiro vai para financiar investimentos; quem compra uma debênture corre o risco de calote da empresa, já que não há garantia do FGC; ao investir em uma debênture, corre-se o o risco de calote da empresa; quando o dinheiro é destinado a obras de infraestrutura, há isenção de Imposto de Renda
  • No investimento prefixado, o rendimento é conhecido na hora da aplicação; é vantajoso quando há expectativa de queda de juros; no momento atual, os títulos mais longos consideram que as taxas vão subir mais que o mercado considera que vá acontecer; por isso, há chances de rendimento maior em outros tipos de renda fixa
  • O Tesouro IPCA+ paga uma taxa de juros fixa mais a variação da inflação; esse investimento garante o poder de compra do dinheiro em aplicações de longo prazo, mas pode sofrer oscilações de preços e gerar perdas em caso de resgate antes do vencimento
  • CDI é uma taxa de juro que acompanha a Selic e costuma ser referência para remuneração de investimentos de renda fixa emitidos por bancos. Com a queda da Selic ela passa de 3,65% para cerca de 2,90% ao ano
  • ETFs são fundos que replicam um índice de ações, como o Ibovespa; o ganho desse fundo será, ao final de um período, o mesmo registrado pela Bolsa; como é um fundo passivo (não há um gestor tomando decisões de investimento), tem taxas mais baixas
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