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Retomada surpreende shoppings, que veem mais concorrência com comércio eletrônico

Reforma tributária com aumento de carga para serviços preocupa gigantes do setor

São Paulo

Após quase cinco meses fechados na maior parte do país e com os consumidores voltando gradualmente, as maiores empresas de shopping centers do Brasil avaliam que a integração entre vendas online e presenciais e a reforma tributária em tramitação no Congresso são os principais desafios para o setor no pós-pandemia.

Os empresários afirmam que a retomada do segmento tem surpreendido positivamente e se dizem otimistas com as perspectivas para a atividade econômica em 2021.

“Estamos entrando no quarto trimestre melhor do que imaginávamos no início da Covid, todo mundo imaginava que o fundo do poço iria durar muito tempo, mas já estamos vendo uma forte recuperação”, disse Ruy Kameyama, presidente da brMalls, durante sua participação no congresso anual da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), nesta quinta-feira (22).

“2020 foi um divisor de águas, muito do que estava acontecendo de evolução do consumidor e de digitalização vai se acelerar. Isso leva naturalmente a uma digitalização dos varejistas, o que empurra o setor de shoppings a se modernizar.”

Carlos Jereissati Filho, presidente do Grupo Iguatemi, destacou que, na pandemia, a empresa reforçou a plataforma de relacionamento Iguatemi One com a oferta de serviços de assistência de compras para clientes de maior poder aquisitivo.

Em outubro do ano passado, a companhia já havia lançado a plataforma de vendas online Iguatemi 365. O serviço passou de 50 lojas iniciais para mais de 300 atualmente e acelerou as vendas para outras partes do Brasil, para além do estado de São Paulo.

Para Marcos Carvalho, copresidente da Ancar Ivanhoé Shopping Centers, a pandemia ampliou a desigualdade entre empresas mais estruturadas e ágeis e as companhias mais tradicionais.

“Vamos ter que trazer muitos lojistas para essa nova realidade, porque se não vamos acabar concentrando boa parte da venda num grupo pequeno de lojas e isso não é positivo.”

Essa também é a avaliação de Renato Rique, presidente do conselho de administração da Aliansce Sonae.

“Com o fechamento dos shoppings e restrições de horário e visita, houve a necessidade levar a loja e o pequeno lojista também para o mercado virtual, para o omnichannel [expressão em inglês para a utilização de diferentes canais para oferecer a mesma experiência de compra]”, disse Rique, afirmando que a plataforma digital da Sonae já conta com 3,8 mil lojas integradas.

“Se antes concorríamos com o shopping de outro bairro ou do outro quarteirão, agora vamos estar concorrendo com plataformas que têm ou não presença física e a coisa toda fica bem mais complexa.”

Segundo Kameyama, da brMalls, com a expansão dos novos canais digitais, os lojistas podem ficar mais seletivos quanto à sua presença física em shoppings. Um lojista que tinha unidades em seis shoppings numa mesma cidade, por exemplo, pode optar por concentrar suas atividades em três deles, complementando-as com as vendas digitais.

“Com a maior seletividade dos lojistas, teremos que pensar como aumentar a proposta de valor e as razões para ele estar em determinado shopping”, afirmou.

“Será que os shoppings não podem oferecer alguma solução que usasse os dados dos consumidores para ajudar os lojistas a performarem, o que a rua não consegue fazer? Será que não conseguem oferecer mídia customizada, oferecer crédito?”, questionou.

Segundo ele, o principal exemplo para o setor devem ser os market places digitais, que começaram só com a transação de compra e venda, depois acrescentaram propaganda, crédito para vendedores e compradores, e com isso fidelizaram os vendedores, devido à grande oferta de soluções.

Reforma tributária

Para os empresários, o outro grande desafio do setor é a reforma tributária. “A reforma tributária é uma batalha política, um rearranjo de cargas, onde alguns vão ganhar para outros perderem”, disse Jereissati Filho, do Iguatemi.

“Claramente a indústria está se movimentando para jogar a maior carga tributária sobre serviços e isso é um desafio que continuaremos tendo juntos, de como nos mobilizarmos para vencer mais essa batalha.”

Para Rique, da Aliansce Sonae, a proposta de reforma em discussão na Câmara (PEC 45) tornaria pior o que já é muito ruim, ao propor um longo período de transição em que o novo sistema tributário e o anterior conviveriam, duplicando a complexidade e trazendo aumento de carga fiscal grande para o setor.

“Sou contra o que está aí sendo levantado, temos que nos unir para mostrar que essa reforma parece vir a atender a um lobby estabelecido de um grupo do setor da economia que perde importância e procura de novo sustentar-se no governo.”

Segundo Glauco Humai, presidente da Abrasce, a entidade formou um grupo de trabalho e deve apresentar em breve ao governo e ao Congresso uma proposta de reforma mais palatável ao setor.

Otimismo

José Isaac Peres, presidente da Multiplan, expressou seu otimismo com a retomada. Segundo ele, no Rio de Janeiro, os shoppings do grupo já estão faturando praticamente 80% do patamar pré-crise. Em São Paulo, o nível está em 70%; em Belo Horizonte, em 80%; e no Sul, em 82%.

“Vamos vencer a crise, já estamos tendo números que nos animam muito e prevejo que vamos ter um novembro e dezembro muito melhor”, disse Peres, acrescentando que o isolamento criou uma demanda reprimida e que as pessoas agora querem sair, comprar e ir a restaurantes.

O executivo criticou a política de isolamento social adotada para mitigar uma maior disseminação do coronavírus e evitar o colapso do sistema de saúde

“O isolamento foi talvez a coisa mais sofrível que nós tivemos. Porque eu coloco a liberdade como um dos principais valores que o ser humano tem, o direito de ir e vir, de estar com quem quer estar. Assim como a saúde também, mas não existe saúde sem liberdade.”

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