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'Fator cultural passa rasteira nas mulheres empreendedoras', diz coordenadora do Sebrae

Programa da entidade em parceria com a Microsoft já acelerou 18 startups lideradas por mulheres

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Luiza Pastor
São Paulo

À frente de um programa do Sebrae para incentivar a participação de mulheres no mercado de startups, Renata Malheiros explica que o maior obstáculo ainda é a questão cultural.

"Os comportamentos exigidos no mundo do empreendedorismo são atribuídos aos homens –se jogar na vida, assumir riscos calculados, não ter medo de se colocar. Só que todos precisam disso. Então, vemos uma empreendedora que tem as habilidades técnicas, as hard skills, mas só isso não vai fazer dela uma boa empresária, ela precisa das soft skills -e aí que a cultura nos passa a rasteira", diz.

Foi a partir dessa constatação que surgiu o WE (Women Entrepeneurship), programa voltado a startups lideradas por mulheres -hoje elas são cerca de 15% do mercado.

O Sebrae cuida dos cursos e da mentoria, a Microsoft, que é parceira, do aporte tecnológico. Além disso, há um fundo com recursos para startups que tenham no mínimo 20% de seu capital social em mãos de mulheres.

Renata Malheiros, coordenadora de Empreendedorismo Feminino do Sebrae
Renata Malheiros, coordenadora de Empreendedorismo Feminino do Sebrae - Divulgação

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Como o Sebrae está trabalhando para tentar aumentar a proporção de mulheres empreendendo em startups no Brasil?

O Sebrae começou a trabalhar com mulheres a partir de 2018, quando o Brasil assinou com a ONU [Organização das Nações Unidas] os Princípios de Empoderamento das Mulheres. Metade das empresas abertas no Brasil no ano passado foram abertas por mulheres.

Somos 52% da população, então está equilibrado. Mas quando você olha o motivo de abrirem as empresas, 43% das mulheres contra 34% dos homens abrem por necessidade, não por oportunidade. Um dos motivos que mais levam a empreender é a maternidade. Metade das mulheres que voltam da licença são demitidas ou pedem as contas. Dali, são empurradas para o empreendedorismo.

Mas não para startups?

Não para startups. Veja, no Brasil, as mulheres são 16% mais escolarizadas que os homens, mas empresas lideradas por elas faturam em média 22% menos.

E por que isso?

Temos dois problemas aqui. Um é que nós nos dedicamos 17% menos horas à empresa que os homens. Não é porque estamos tomando uma caipirinha na rede, mas porque, por questões culturais, temos mais horas de tarefas de casa, cuidados com pessoas e crianças.

Outro problema é que as mulheres empreendem principalmente em três setores: beleza, moda e alimentos e bebidas. São segmentos de baixo valor agregado e baixa intensidade de inovação. Mesmo que a mulher vá vender um cosmético de nanotecnologia, de alto valor agregado, em geral o profissional pesquisador é um homem e ela vai revender. Com quem vai ficar o maior valor?

E aí entra outra pergunta: por que nós, mulheres, nos autos selecionamos para carreiras de humanas ou de cuidados, não de exatas, por exemplo? Porque é aí que está a raiz de todos os problemas de gênero.

Como assim?

A dificuldade com números é igual para homens e mulheres, mas a cultura coloca desde cedo na cabeça da menina uma série de crenças limitantes. Isso não é de menina, isso não é profissão para mulher, menina não é boa com números.

Para menina, a gente dá panelinha e tudo o que estimula o cuidado, enquanto ao menino dá carrinho e o que estimula o raciocínio lógico. Isso acaba impactando a pessoa adulta. Tem poucas mulheres em cursos de engenharia, que são os que levam às startups em geral, como outros de exatas.

Eu vejo empreendedoras que chegam e dizem que não querem cuidar das finanças de sua empresa, querem deixar isso para o marido, que é bom em números. Ora, mas esse não é o projeto do seu coração? Cuidado com a quem você delega isso, menina!

E como essa linha de raciocínio influenciou a criação do programa de apoio às mulheres em tecnologia?

Quando vimos essa realidade, de que cerca de 15% das startups brasileiras eram lideradas por mulheres, criamos o WE (Women Entrepeneurship). O Sebrae cuida dos cursos e da mentoria, a Microsoft, que é parceira, cuida do aporte tecnológico, de nuvem, blockchain etc. E criamos um fundo específico com recursos para startups que tenham no mínimo 20% de seu capital social em mãos de mulheres, chamado Fundo WE, cujos primeiros aportadores foram a Belvedere Investimentos e a Berta Capital, com recursos já de R$ 50 milhões.

E qual foi o resultado dessa iniciativa?

Fizemos a chamada para todo o Brasil e recebemos mais de 900 inscrições, um sucesso para um plano piloto. Já aceleramos 18 startups de mulheres nas áreas de inteligência artificial, fintech, e várias tecnologias. Aceleramos por um ano, algumas já receberam um segundo aporte e vamos lançar em breve novo chamamento para outra rodada de seleção.

Então o desafio é apenas cultural?

É principalmente cultural. E como a cultura atrapalha a mulher empreendedora? Ela estimula meninos e meninas a comportamentos diferentes.

Os comportamentos exigidos no mundo do empreendedorismo são atribuídos aos homens –se jogar na vida, assumir riscos calculados, não ter medo de se colocar. Só que todos precisam disso. Então vemos uma empreendedora que tem as habilidades técnicas, as hard skills, mas isso só não vai fazer dela uma boa empresária, ela precisa das soft skills -e aí que a cultura nos passa a rasteira.

Como você se comporta num happy hour de trabalho, por exemplo? Você fica no fundo do salão com seu copo, só conversando com quem conhece ou vai até um desconhecido, se apresenta e diz que tem uma proposta interessante de parceria?

Nossa, mas e o ciumento do meu marido? E se ele souber que estou abordando um estranho? E meu filho, que ficou em casa com febre enquanto eu tenho uma reunião importante, como lidar com a culpa? Tudo isso afeta a mulher empreendedora e precisa ser trabalhado na mentoria. Não são assuntos que afetam os homens.

E vocês no programa fazem esse trabalho?

Tivemos que fazer. Porque o Sebrae é tradicionalmente mais voltado para cursos, hard skill. Mas para falarmos com essa mulher, para falarmos de culpa materna, autoconfiança e ciúme do marido, tivemos que trabalhar também na mentoria, e fazer isso com apoio das redes, o tempo todo. Porque um dos problemas das crenças limitantes é que elas nos foram impostas por pessoas que amamos. Como fazer a pessoa mudar?

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