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Guedes recebe executivo da Huawei e restante do governo evita maior fabricante do 5G

Bolsonaro se alinhou aos EUA, que operam pelo bloqueio total da chinesa na construção das redes de telefonia de quinta geração

Brasília

O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi o único a receber, nesta sexta-feira (20), o vice-presidente global de Relações Governamentais da Huawei, Mark Xueman. Em Brasília ao longo desta semana, Xueman não foi atendido pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, principal núcleo de resistência contra a fabricante chinesa no governo.

A empresa também não conseguiu agendar conversas com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, nem com o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Guedes foi o único que se dispôs a atender Xueman, executivo global da Huawei responsável pelos contatos com os governos dos mais de 170 países em que a fabricante de equipamentos de telecomunicações atua.

Alvo de uma disputa entre EUA e China, a empresa foi banida do processo de instalação de redes 5G por alguns países por pressão do governo americano.

A fabricante chinesa é a que oferece as melhores condições para as operadoras em relação à qualidade dos equipamentos e seu preço. Por essa combinação, ganhou o maior número de contratos pelo mundo e passou a ser a principal fornecedora de 5G.

Nas últimas semanas, o assunto se tornou um tabu no governo. Até as teles reclamam que não há mais interlocução com representantes do ministério das Comunicações e do Palácio do Planalto sobre o possível banimento da Huawei.

Segundo as operadoras, o ministro Fábio Faria nunca diz o que pensa sobre o tema. Se sai sempre com evasivas dizendo que o ministério está estudando.

Os técnicos da pasta, no entanto, afirmam que a última palavra será dada pelo presidente Jair Bolsonaro, independente da avaliação técnica contrária às restrições.

As teles já alertaram os ministros Paulo Guedes e Fábio Faria de que o leilão se tornará inviável se a Huawei for banida.

Elas querem que o governo esclareça como elas serão indenizadas se tiverem de trocar todos os equipamentos 4G e 3G da Huawei que já funcionam em suas redes pelos de outros fabricantes.

Isso porque esse aparato instalado não conversa com os equipamentos 5G de outros fabricantes. Em entrevista à Folha, o presidente da Huawei no Brasil, Sun Baocheng, confirmou essa situação e afirmou que, se levada adiante, a restrição à empresa poderá atrasar em até quatro anos a instalação do 5G no país.

Na reunião virtual com o Guedes, Xueman detalhou esse problema e reforçou que a Huawei é signatária de diversos acordos internacionais que a obrigam a seguir padrões de segurança cibernética e de proteção de dados.

Segundo pessoas que acompanharam a conversa, Guedes foi protocolar. Disse que espera competição na instalação da nova tecnologia e que sua pasta colabora com o governo no que se refere aos quesitos técnicos.

O ministro deixou claro que a decisão sobre um possível banimento caberá ao presidente Bolsonaro.

O executivo da Huawei fez questão de reforçar um discurso que a empresa passou a adotar com mais frequência desde o discurso de Bolsonaro na abertura da reunião da ONU (Organização das Nações Unidas).

Em sua fala, Bolsonaro destacou na ocasião que o 5G será lançado no país com empresas que zelem pela segurança dos dados.

Representantes do governo americano vêm fazendo lobby junto aos diversos países em que essa tecnologia está sendo implementada para levantar suspeitas sobre a qualidade de proteção de dados dos equipamentos da Huawei.

No Brasil, o embaixador dos EUA já esteve com Bolsonaro e com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

Nos bastidores, os EUA sinalizam que diversos acordos de cooperação na área militar poderão ficar comprometidos se o Brasil não barrar a Huawei no 5G.

Ainda sem um resultado prático junto ao governo brasileiro, a diplomacia norte-americana tentou se aproximar das operadoras de telefonia, que participarão do leilão das licenças de 5G, previsto para o primeiro semestre de 2021, e comprarão os equipamentos de rede para dar início à operação comercial da nova tecnologia.

Por meio da Conexis, associação que representa o setor, as operadoras se recusaram a participar do encontro com o embaixador dos EUA.

As empresas buscam uma forma de evitar o banimento da Huawei já que mais da metade das redes atuais em funcionamento é de aparelhos chineses.

Procurada, a Huawei enviou um comunicado em que destaca sua atuação há 22 anos no Brasil em parceira com operadoras, provedores de internet, verticais da indústria, governos e instituições de ensino.

“Seguimos os mais altos padrões internacionais de cibersegurança nos mais de 170 países em que atuamos, respeitamos e cumprimos com as leis locais. Já realizamos testes da 5G com todas as operadoras nacionais, colaborando para a chegada da tecnologia ao país. Aguardamos que todas as decisões sobre o tema sejam realizadas de maneira estritamente técnica, não discriminatória e em favor do livre mercado”.

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