Após investimento chinês, 'Uber dos caminhões' cresce 6.450% na pandemia

Com aporte de parceiro asiático, startup foi de 7 mil para 450 mil cargas transportadas por mês em 2020

Rio de Janeiro

Um robusto investimento chinês no fim de 2019 e a alta demanda exigida no ramo de caminhões em 2020, impulsionada pela pandemia da Covid-19, que fez o setor de logística bombar, ajudou a startup brasileira TruckPad —considerada a Uber da categoria— a registrar movimentação recorde.

O crescimento chegou a 6.428,57%, com uma alta de 7.000 cargas transportadas por mês no fim do ano passado para 450 mil no último outubro, segundo o presidente da empresa, o brasileiro Carlos Mira, 52.

Apesar da alta em meio a um ano de pandemia, ele não creditou o avanço ao coronavírus.

"A gente cresceu pelo investimento e apoio técnico operacional dos chineses, uma consequência natural dessa estratégia nossa de termos parceiros que ajudam", disse Mira.

Carlos Mira, CEO da TruckPad, startup que conecta caminhoneiros
Carlos Mira, presidente da TruckPad, startup que conecta caminhoneiros - Eduardo Anizelli/Folhapress

De acordo com dados da CNT, em outubro, o fluxo de veículos pesados nas estradas do país já superou o do mesmo período do ano anterior. O licenciamento de caminhões possui a segunda melhor média mensal desde a crise de 2014. Além disso, o bom valor do frete, o diesel barato e a alta demanda ajudaram o setor.

O principal investidor da TruckPad no momento é a Full Truck Alliance, uma startup chinesa que fornece um serviço semelhante a Uber para a indústria de caminhões. Recentemente, ela anunciou estar levantando cerca de US$ 1,7 bilhão com planos de IPO (oferta pública de ações) para 2021.

De acordo com reportagem do jornal "The Wall Street Journal", a empresa, que conta com a SoftBank Group e a Alphabet entre seus patrocinadores de alto nível, está sendo avaliada em US$ 10 bilhões antes do aumento de capital.

O valor do investimento dos chineses na TruckPad não foi revelado, mas a expectativa era elevar o volume de mercadorias transacionadas pela plataforma de R$ 700 milhões em 2019 para R$ 2 bilhões no fim de 2020.

Após um ano do acordo, a startup brasileira colhe os frutos da parceria.

Só em outubro, ela passou da marca de R$ 1,2 bilhão de fretes ofertados. A TruckPad ainda superou os 1,2 milhão de downloads em seu aplicativo e hoje atende 12 mil empresas de transportes e mais de 500 mil motoristas registrados na plataforma.

Segundo Mira, o crescimento tem sido de 30% a 40% por mês em 2020.

"Nosso lucro tem crescido de forma fantástica porque os caras ajudaram com grana, tecnologia, 'know how'. Eu brinco que eles vêm do futuro. Estão lá na frente, onde eu gostaria de estar um dia. Ganhamos muito tempo e velocidade assim. Essa é a essência do nosso acordo operacional e desse super investidor estratégico que a gente tem", afirmou.

Ele citou outros parceiros da startup, como Movile, Maplink, Apontador, Plug and Play e Mercedes Benz.

"São investidores estratégicos, que além da grana nos ajudam a levar a empresa ao próximo estágio. Uma é especializada em roteirização de caminhões, com um ritmo de cálculo de rota fantástico, outra entra com tecnologias de ponta, que nos conectam".

Sócio-fundador do TruckPad, Carlos Mira trabalhou 30 anos na transportadora da família antes de investir na startup. Em 2012, discutiu com os parentes a oportunidade de implantar o novo procedimento, mas afirma que houve descrença por parte de familiares e amigos.

"Eles diziam 'esquece, caminhoneiro autônomo não usa smartphone, jamais vão fazer negócio usando um aparato eletrônico como esse'", lembra Mira.

Para abrir o negócio, ele fez um investimento inicial de US$ 100 mil, gastos essencialmente em marketing. A partir de 2014, depois de participar de um evento no Vale do Silício, viu a empresa ser eleita a startup mias inovadora do mundo na Winter Expo, dentro da Plug and Play, que depois virou patrocinadora da iniciativa.

Em 2015, o grupo Movile, dono das empresas Maplink —que representa o Google Maps— e Apontador, comprou uma participação no TruckPad. Dois anos depois, a Mercedes Benz fez o mesmo. A partir daí, a startup só cresceu.

Ele credita o sucesso também à empresa nunca ter recebido investimento de venture capital, algo natural no mundo das startups. "Respeito o conceito, mas sempre me valorizei e peguei investimentos de investidores estratégicos. Me dá muito mais conforto", afirmou.

Para 2021, a aposta da empresa será no meio de pagamento de frete, inspirado em um modelo chinês sem moeda, papel ou cartão de crédito. "Só pagamento pelo celular, com uma carteira digital ao caminhoneiro, sem cartão físico ou máquina", disse Mira.

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