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Otávio Cançado

Global Witness comprova eficiência de frigoríficos contra desmatamento

Fazendas que ONG diz que deveriam ter sido bloqueadas são 0,44%"do total de propriedades do Pará

Otávio Cançado

É bacharel em Relações Internacionais, especialista em comércio internacional e sócio-fundador da De Lassus Agribusiness & Consulting Boutique

Ao criticar o agronegócio brasileiro, o estudo de uma ONG estrangeira acabou por confirmar a confiabilidade do sistema utilizado pela indústria de carnes do país para evitar o desmatamento da Amazônia.

O estudo, da Global Witness, ganhou destaque nesta Folha em reportagem intitulada “Frigoríficos compram gado de fazendas ilegais, diz ONG”.

A ONG afirmou ter analisado todas as Guias de Trânsito Animal (GTAs) do Pará entre 2017 e 2019 que indicavam a compra de gado pelos três maiores frigoríficos do país. Alega ter identificado a aquisição de gado de 379 fazendas que deveriam ter sido bloqueadas por desmatamento ilegal ou restrições dos órgãos oficiais.

As indústrias responderam 100% dos casos apontados, defendendo a legalidade das operações. Em algumas fazendas não havia irregularidades no momento da compra. Em outras a base de comparação da ONG não confere com os dados validados e oficiais. E houve até casos de aquisições que simplesmente nunca ocorreram.

Gado pasta no Parque Nacional da Serra do Pardo, em São Félix do Xingu, no Pará - Rogério Cassimiro/Folhapress

Ignorando essas ressalvas, que demandam análise caso a caso, o que se tem no estudo da Global Witness é a prova cabal de que o sistema da indústria contra o desmatamento da Amazônia vai muito bem, obrigado.

Se tudo que a ONG encontrou ao escarafunchar 100% das compras dos três maiores frigoríficos no Pará foram 379 propriedades supostamente irregulares, o Brasil e o mundo podem ter a certeza de que não é o gado o principal vetor do desmatamento.

O Pará tem 97.769 estabelecimentos com atividade de pecuária bovina, segundo o último Censo Agropecuário, de 2017 —primeiro ano da amostra usada pela Global Witness.

Em uma conta rápida, as 379 propriedades apontadas pela ONG representam 0,44% do total de propriedades do estado que poderiam ter fornecido animais aos frigoríficos.

Outra forma de dar a mesma notícia seria dizer que o sistema criado há uma década pela indústria frigorífica para evitar o desmatamento em sua cadeia produtiva tem hoje eficiência de 99,56%.

Naturalmente, nem todas as propriedades paraenses de bovinocultura forneceram gado para os três grupos empresariais escolhidos pela ONG nos últimos trêes anos. Mas uma análise mais precisa da representatividade dos casos supostamente irregulares dependeria da transparência da própria ONG.

É curioso que o estudo omita, justamente, qual é o universo total de propriedades que analisou ao ter acesso às GTAs.

Frise-se que foi a própria ONG que alegou ter tido acesso a todas as GTAs destinadas a esses frigoríficos, afirmando erroneamente tratar-se de documentos públicos.

O estudo omite a forma como obteve essas GTAs, que não podem ser públicas, para o bem dos consumidores. Se esses documentos estivessem à disposição de todos, os frigoríficos poderiam saber quantas cabeças seus concorrentes abatem, e de quais pecuaristas, o que seria extremamente nocivo para a livre concorrência.

Ainda que a insuficiência de dados no estudo impeça a contextualização dos resultados, a comparação entre o número de estabelecimentos acusados de irregularidade e o total do Pará não deixa de ser válida.

A legitimidade desses 99,56% de eficiência é fortalecida pelo viés da fonte. Afinal, trata-se de uma organização ambientalista, cuja razão de ser é encontrar falhas no setor —ou qualquer coisa que se pareça com uma falha.

Em todos os aspectos, o número de casos irregulares apontados é irrisório. A cada ano, mais de 200 mil GTAs são emitidas no estado do Pará —uma quantidade significativa delas para unidades dos três grupos analisados pela Global Witness.

Claro, cada caso deve ser avaliado e é dever da indústria perseguir a melhoria constante de seus sistemas de monitoramento contra o desmatamento ilegal. Mas inverter a lógica matemática para embasar determinado discurso não passa de sofisma rasteiro. Tomar a exceção pela regra é desonestidade intelectual. A pecuária brasileira não é o 0,44% da Global Witness.

Pecuaristas e frigoríficos, com virtudes a se orgulhar e falhas a corrigir, fizeram grande
esforço ambiental na última década. Não fosse assim, a carne brasileira não continuaria sendo capaz de atender às exigências dos mercados mais ciosos da proteção do planeta.

A despeito de campanhas pontuais de organizações ambientalistas em diversos desses mercados, a verdade sempre prevaleceu —agora com um forte argumento providenciado por seus críticos.​

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